Muito prazer, Lui

 Foto: Lucas Ávila

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Lui me escreveu este texto após o ensaio de fotografia que fizemos nos bares do centro de Belo Horizonte. Foi como um tapa na cara, um desabafo, um manifesto de quem enfrenta diariamente as cobranças, as perguntas, os olhares, os questionamentos.

“Coloco três despertadores por medo de perder a hora, apesar disso, saio atrasado de casa e, quase pegando ônibus, lembro que esqueci o tal envelope na gavetinha; aumento minhas histórias para impressionar moças, e tropeço quando passo perto de pessoas bonitas; se acordo às onze, só saio da cama meio dia depois de ter visto todos os stories no instagram e lido boa parte dos textões do face; separo roupas brancas, pretas e coloridas pra lavar; tenho dificuldade em calar a boca quando bebo — e quando não bebo —, não gosto de berinjela, sou tímido, ciumento, não sei improvisar — péssimo pro meu ofício atoral —, odeio lavar louça, prefiro lavar banheiro.

Ser trans é ser o óbvio e ter que explicar isso inúmeras vezes para que as pessoas te respeitem. Explicar que eu sinto fome, sede, frio, calor, tesão, raiva, felicidade. Explicar que se me bater vai doer, que se me tratar mal de graça eu vou sentir. Explicar que não é da sua conta como eu faço pra trepar ou ir ao banheiro, assim como não é da minha conta saber como você faz pra trepar ou pra ir ao banheiro. Explicar que eu sou de carne, osso e emoções. Tentar explicar, na verdade, porque a escuta humana vai de mal a pior.

Essa nossa organização binária de gênero, polarizada, equivocada, forjada, fraudada, cagada, manjada, forçada, furada, frustrada: feminino para xotas e masculino para paus, faz da transgeneridade previsível. Seres humanos não cabem em caixas binárias. Nunca couberam. Nunca caberão. Isso explica porque eu estou aqui. Explica também o ódio que os outros, os “condicionados”, sentem dos corpos que têm coragem pra ir além. E é bom lembrar que a roda não foi inventada agora. Outros, em outros tempos, em outras épocas, transbordaram seus corpos dessas caixas e abriram caminhos – com muito sangue – para mim e para outres de mim. Meus pares: presente!

Eu sou um corpo vivo, pulsando vida. Estou vivo. De barba e buceta, com packer e tetas, com afeto e inteiro – desejo continuar inteiro. E eu quero é que seja DEVER de vocês, todos vocês, manterem minha integridade física e mental, respeitando todas as possibilidades de corpos. Todas as possibilidades de existir. Quero que estejam inteiros as minhas, os meus, que são a mesmíssima coisa de mim. Quero vivas e inteiras as travestis, as mulheres cis, as mulheres cis e negras, as bofinhos, as bofinhos negras, as bichas afeminadas, as bichas afeminadas negras, todos os corpos trans não-bináries que resistem e existem no meio dessa binaridade estúpida e cruel.

Quero que vocês, que são fissurados em xotas com maquiagem, vestido e cabelo longo, ou em paus viris, de hipsters viris, com barba de lenhador e voz grossa que grita “GALO!” na mesma intensidade que grita VEADO, SAPATÃO e VAGABUNDA!, façam um exercício para tentar diminuir a frequência desse desejo por uma genitália. Quero que repensem nossa forma binária e falocêntrica de trepar – incluo aqui mulheres cis lésbicas e pessoas trans. Qualquer corpo sexuado pode performar qualquer gênero, qualquer papel de gênero, qualquer expressão ativa e/ou passiva, independente do que se há entre as pernas. Não cabe resumir e limitar gênero e orientação sexual às genitálias. Nunca coube, nem caberá. Todos que tentam sustentar essa ideia sabem o peso dessa loucura. Que o afeto e o respeito não dependam de pinto ou de xota para acontecerem.

No mais, um beijo para as travestis e para os transviadosterroristassapatão. Força.”

Francis Alys, artista que perseguiu tornados nos planaltos ao sul da cidade do México, fala em seu livro In a Given Situation: “O grau de ordem num sistema fechado e sua tendência para a desordem crescente são irreversíveis. A ação de uma praga de tomates pode transformar uma horta extremamente ordenada em um espaço de desordem. Mas, quando a horta tem uma grande variedade de plantas, a estabilidade é maior. Menos ordem implica maior estabilidade; mais ordem implica maior instabilidade.”

Lui Rodrigues, homem trans, ator, produtor cultural em Belo Horizonte, e ativista pelas lutas transfeminista, feminista e LGBTIQ. Formado em Artes Dramáticas pelo CEFART – Fundaçao Clóvis Salgado – Palácio das Artes. Atua, desde 2015, no grupo de teatro e de pesquisa em gênero e raça, Coletivo Transborda; integra o coletivo de arte, performance e resistência Academia Transliterária, formado por pessoas trans/travestis e parceiras cisgêneras. Em março deste ano criou, ao lado de outros três homens trans (Bruno Banjo, João Maria e Rodrigo Carizu), a tipo banda MASCUCETAS, que trará reflexões e provocações sobre gênero em suas performances.

Pessoas trans podem estar em qualquer espaço. Em quantos deles você está junto?

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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