Sobre-viver: um olhar para a vida em meio ao luto

 Crédito: Antonio Lacerda, Yuri Edmundo e Paulo Fonseca

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Laura saiu do interior de Minas contrariando a mãe. Bateu o pé, juntou as amigas para montar uma república e veio de “mala e cuia” estudar na capital. Virou doutora: psicóloga, que empresta os ouvidos para escutar a dor do outro. Mas por anos ela carregou uma dor dura de doer. Em 2015, demitiu 173 pessoas da empresa onde trabalhava.

Tempos de crise. Responsável pelos recursos humanos, era ela quem ouvia o lamento de quem perdeu o emprego. Foi triste demais encarar a mãe e o pai de família que dependiam daquele sustento. Laura foi demitida logo depois, deixando a rotina da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho. Em 25 de janeiro, um dia antes de eu a conhecer, a mina virou lama.

O restaurante onde almoçava, o prédio onde ficava, nada disso existe mais. Tem ainda muita gente querida debaixo do barro. Laura chorou muito, de não conseguir parar. Chorou pelos amigos que se foram e por aqueles que, de algum jeito, ela ajudou a salvar. Chorou por ter tido a chance de ficar.

A vida é mesmo doida de jogar pedra. Uma demissão sofrida pode ser a única salvação, a oportunidade de continuar. O destino tem esse poder de dar um baile na gente. Como se, volta e meia, nos apontasse o tamanho da nossa pequenez e soprasse nos ouvidos: “Tá, vendo? Eu disse que era pra ter calma, que um dia você ia entender”.

Mesmo que sejamos autores da nossa própria história, não dá pra adivinhar o que será. Muito menos quando é chegada a nossa vez. O mistério sempre faz parte do enredo. Mas, ainda assim, dá pra saber o que se quer dessa louca, a vida. O que, na prática, se traduz em como cada um de nós usa cada minuto do seu tempo.

“O que separa o nascimento da morte é o tempo. Vida é o que fazemos dentro desse tempo”, li em um livro de Ana Claudia Quintana Arantes. Parece tão óbvio que alguém te diga para aproveitar o tempo, enquanto nos distraímos preocupados com mais um relatório, nos irritamos com o trânsito engarrafado, gastamos energia falando dos outros.

Numa vastidão destruída pela lama, Laura viu que somente o afeto, inabalável, escapou da morte e se manteve de pé. Era o que dava força para seguir e honrar aqueles que não puderam ficar. Ela, que já teve tantas certezas, inverteu as prioridades. Desmarcou reuniões, vai pegar o avião e cruzar o oceano pra conhecer o sobrinho recém-nascido, o único.

Quer enchê-lo de beijos, morder cada uma das dobrinhas, carregá-lo no colo sem ver a hora passar. Se tempo é dinheiro, as relações são o investimento mais seguro que existe. E, se o destino é capaz de nos dar um baile, que aproveitemos pelo menos para dançar. Entre nascimento e morte, existe o tempo da vida, e não tempo a perder.

Observação: Laura é um nome fictício, mas esta é uma história verídica.

Autor
Jornalista e celebrante de casamentos na Amor Sempre Vivo. Acredito em três verdades absolutas: pessoas precisam ser ouvidas, histórias precisam ser contadas e a razão para nossa existência está em amar e ser amado. É por isso me tornei mais do que jornalista, uma jornalista que conta histórias de amor. Tive clareza desse propósito quando eu e Pedro celebramos nosso próprio casamento. Depois daí não parei mais. Aqui, a repórter dá vazão a tudo aquilo que faz o coração pulsar e mantém o amor sempre vivo.

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