O luto e a primavera

 Ipê na Praça da Assembleia, BH. Foto: Beto Trajano.

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Quem já perdeu alguém muito querido tem um mês em que o nó na garganta aperta. O meu é setembro. Quando o calendário traz memórias que doem, peço licença ao presente e mergulho sem muito fôlego para um lugar que abriga minha saudade. É a última foto, o último bilhete, a última peça de roupa que vence o tempo no armário.

O luto é o estado constante de última vez.

Pra quem fica, resta essa eternidade mentirosa chamada memória. Há 16 setembros, insisto para não me esquecer da voz quando me chamava pelo apelido tão nosso, do cheiro – que vez ou outra me invade, e do senso de humor tão manoteiro quanto o meu. Lá se vão meus setembros, num ciclo infinito de recomeço. Taí a ironia fina da nossa finitude. Como cães que caçam o próprio rabo, lidamos com a morte. Recomeçamos e, vez ou outra, voltamos a dormir no porão desconfortável da saudade. O choro nunca cessa e se derrama nos banhos demorado ou na insônia.

Perder alguém é aprender a lidar com esse vazio chamado nunca. É lidar, todo dia, com a incompletude.

Falta.

E essa falta dói pra sempre. Vai doer no velório de um conhecido, na cena do filme, no poema que fugiu. O luto passa a morar dentro da gente e desperta em nós um dos egoísmos mais perdoáveis. Quando me vejo no reflexo da perda do outro, é pelo meu luto que choro.

Alessandra nunca mais vai voltar.

Por mais que essa frase me doa (muito!), escrever seu nome me floresce. Mesmo que seja hoje, quando tudo em setembro me leva para esse abismo do nunca, escrevo para que ela floresça ainda mais em mim.

Por uma dessas coincidências generosas, meu luto desagua, todo ano, em uma primavera.

Enquanto a tristeza se esforça para pintar de cinza os dias que chegam, os ipês se colorem e me colorem junto. No caminho das flores e suas vidas tão breves, estão as sementes. Depois de um longo luto chamado outono, a vida pulsa de novo. Renasce, recomeça e renova na maior e melhor lição que a natureza poderia nos dar: nada se perde.

Somos pó de estrela e flor, repletos de água salgada. Somos oceanos de ansiedade, dor e amor.

O clichê me chega como um abraço. Em setembro, preencho meu abismo do nunca com flores chamando memórias. Atravesso todas as nossas últimas vezes semeando para que eu não perca o caminho de volta. Recomeçar é preciso, eu sei, mas retornar para meu desconfortável porão também se faz necessário.

Sentir saudade me mantém viva e, hoje, vivo por nós.

Alessandra nunca mais vai voltar. Pra mim, ela nunca se foi.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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  1. Lendo seu luto imediatamente comparo ao meu. Dez anos fechando os verões de março. A dor parece tão minha, mas é universal. A garganta apertada, o choro no banho, a memória do cheiro. Hoje eu sei que nunca vai cessar porque se tornou parte de mim, de nós. E parte de amar.💛

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