Por que devemos falar sobre luz e iluminação?

 

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“We were born of light. The seasons are felt through light. We only know the world as it is evoked by light.” (Na tradução livre para o português: “Nós nascemos da luz. As estações são sentidas através da luz. Nós só conhecemos o mundo como é evocado pela luz.”).

A citação acima é de Louis Khan sobre o Kimbell Art Museum, inspirando a discussão sobre luz e iluminação, neste texto direcionada para a iluminação arquitetônica. Khan fala sobre a essência da luz e sua inerente variabilidade. Luz é vida.

É um dos fenômenos mais pesquisados e estudados. Sua presença ou sua ausência organiza as interações de todo ser vivo com o ambiente no qual se encontra.

É o principal agente externo que sincroniza nossos ciclos circadianos (do latim, se refere a uma junção das palavras circa, “em torno”, e dies, “dia”) — nosso relógio biológico interno que adapta a fisiologia às diferentes fases do dia, de luz e de escuridão, regulando funções críticas como comportamento, níveis hormonais, sono, temperatura corporal e metabolismo. Luz e escuridão são fundamentais para nosso bem-estar. Comunicam, inspiram, geram e reforçam culturas e políticas, favorecem a socialização, adoecem e curam pessoas.

Luz é o que nos permite ver. Ver é perceber espaço.

Identificamos contrastes, formas, cores, superfícies, texturas, entendemos escalas e limites. A interação entre luz e materiais gera a base da experiência arquitetônica. A sua percepção, através de experiências visuais em seres humanos, cria significado e impressões.

Ao utilizar a luz e as suas propriedades em conjunto com aspectos e qualidades do espaço, a prática da iluminação (natural ou artificial) revela como percebemos o mundo e a nós mesmos, e como cuidamos de pessoas, espaços construídos, cidades e natureza.

A luz natural é universal e variável durante o dia, as estações e o local onde incide. É integral à arquitetura, ditando orientação, layout e soluções necessárias para a sua distribuição e filtragem, no mínimo. Espaços são construídos para serem vivenciados sob a luz ou protegidos dela.

Historicamente, a descoberta do fogo trouxe conforto e proteção. Seu uso em conjunto com materiais inflamáveis, como o óleo e a cera, ajudou na organização de sociedades e cidades, permitindo uma breve extensão da vida noturna, através do uso de tocheiros, lamparinas e, posteriormente, lâmpadas a gás.

Desde que Swan e Edison desenvolveram a lâmpada elétrica incandescente em 1879, houve um avanço contínuo no aprimoramento de tecnologias de geração de luz a partir da energia elétrica, assim como o estabelecimento de uma sociedade 24h.

Logo após o desenvolvimento da luz elétrica, muito se investiu em aspectos quantitativos — busca por altos níveis de iluminância para verificação do potencial da iluminação artificial, focada inicialmente em soluções para a iluminação pública. Em seguida, engenheiros especializados começaram a estudar sobre a quantidade de luz necessária em determinadas situações e quais soluções de iluminação deveriam ser aplicadas. Por exemplo, a iluminação de trabalho foi examinada em detalhe para um melhor entendimento sobre qual seria a influência da iluminância, do tipo de fonte de luz e da luminária na produtividade, assim como foram observados índices mínimos de reprodução de cor e controle de ofuscamento.

Ali começam a nascer as primeiras normas, a luminotecnia (aplicação técnica da luz artificial), onde a luz é considerada uma unidade física provedora de quantidades suficientes para tarefas, observando apenas aspectos funcionais do trabalho e fisiológicos da visão, esquecendo que esta é, também, um processo psicológico.

Nos anos 20, surgiu na Alemanha o termo “Luz arquitetura” (Lichtarchitektur, por Joachim Teichmüller), também conhecido como “arquitetura da noite”, que concebia a luz elétrica como material de construção e a incorporava no projeto arquitetônico. A luz artificial poderia superar a luz do dia, se aplicada intencionalmente e de forma diferenciada. A arquitetura é projetada para maximizar o efeito da iluminação noturna, o que poderia incluir luzes dentro do edifício, luzes na fachada ou elementos delineados, além de publicidade iluminada. Este conceito foi particularmente empregado nos edifícios de fachada envidraçada, comuns na época. Entretanto, esta abordagem não perdurou – o edifício era para ser visto de fora à noite, e os interiores seguiam aspectos funcionais e quantitativos, desconsiderando os usuários do prédio e suas necessidades visuais, assim como o contexto onde o edifício se insere.

Aplicação técnica da luz artificial pública com lâmpadas a arco voltaico. “Moonlight tower”, San José, Califórnia, 1881. Fotógrafo desconhecido.
“Edifício De Volharding”, arquitetura da noite de Jan Buijs. The Hague. Holanda, fotografado em 1930. Fotógrafo desconhecido.
Uso da lâmpada fluorescente em fábrica de aviões B-24 nos anos 40, nos EUA. Fotógrafo desconhecido.

Aspectos qualitativos da luz começam a ser explorados e teorizados com maior consistência a partir dos anos 50. O arquiteto Richard Kelly pode ser considerado pioneiro na prática do lighting design arquitetural. Estabeleceu seu escritório nos anos 30 e colaborou em projetos variados com Mies van der Rohe (Seagram Building), Philip Johnson (Casa de Vidro, New York State Theatre), Eero Saarinen (GM Technical Center, Aeroporto Internacional de Dulles) e Louis Kahn (Kimbell Art Museum, Biblioteca do Exeter College). Elaborou, inclusive, o projeto de iluminação do Parque do Aterro do Flamengo a convite de Lotta de Macedo Soares.

Após anos de prática profissional, Kelly publica um ensaio que rompe com a crença da iluminação uniforme como única solução e discorre sobre diferentes qualidades da luz, alinhadas à percepção do espaço pelo observador, definindo três efeitos básicos da iluminação. “Luz ambiente” fornece iluminação geral dos arredores, garante que o espaço circundante, seus objetos e as pessoas sejam visíveis. Facilita a orientação geral e a realização de atividades. Apesar de prezar por uma distribuição uniforme, se diferencia da abordagem quantitativa por não ser o objetivo final da iluminação, mas apenas uma base para um projeto mais abrangente.

“Brilho focal ou destaque” tem a função de ajudar a transmitir informações espaciais através da distribuição de brilho do espaço, ordenando a variedade de características contidas em um ambiente. As áreas que contêm informações essenciais podem ser enfatizadas por uma iluminação acentuada, enquanto que informações secundárias podem ser atenuadas aplicando um nível de iluminação menor. Isso facilita que o ambiente visual seja facilmente reconhecido em termos estruturais.

“Jogo de brilhos” resulta do entendimento de que a luz não só chama nossa atenção para a informação, mas também pode representar a informação por si só. Isto aplica-se sobretudo aos efeitos especulares que as fontes de luz podem produzir em materiais refletores ou refrativos. Além disso, a própria fonte de luz pode ser considerada um componente do espaço. O “jogo de brilhos” pode adicionar vida e atmosfera aos espaços.

Ainda nos anos 50, Kelly escreve sobre o impacto da luz nas pessoas e apresenta o termo lighting design como a aplicação da luz enquanto arte e ciência: “Trabalhar com a luz é trabalhar com mágica – exige (1) um olho treinado para reconhecer valores reais e relativos; (2) experiência e conhecimento dos efeitos culturais e psicológicos da luz sobre as pessoas; (3) experiência e conhecimento de técnicas físicas. Iluminação é arte e ciência.”

Sua metodologia de aplicação prática indica que a luz artificial também pode ser manipulada para criar um ambiente inspirador ou tedioso, conforto ou desconforto. Efeitos planejados, hierarquizados e associados às qualidades da luz somam aos espaços construídos.

Integração entre luz natural e artificial no projeto para o Kimbell Art Museum, EUA. Louis Khan e Richad Kelly. Robert LaPrelle. © 2013 Kimbell Art Museum
Croqui de Richard Kelly com a solução de integração — claraboia + refletores/filtros difusores, também suportes para os projetores de destaque.

Na década de 70, o arquiteto William M. C. Lam desenvolveu um vocabulário de termos para discussão do ambiente luminoso, acompanhado da elaboração de dois critérios principais para o design de iluminação qualitativamente orientado, aprofundando ainda mais a discussão iniciada por Kelly.

“Necessidades funcionais para a realização de tarefas” no ambiente visual trata da análise dos usos e atividades que vão ser abrigadas pelo espaço a fim de atribuir prioridades, de acordo com as características das pessoas que vão fazer uso do espaço, com que frequência, localização do espaço, influência da luz natural, se outras atividades vão acontecer em conjunto. Neste critério, Lam introduz o conceito de performance, de abordagem quantitativa, e sugere a revisão de normas de iluminação de acordo com a observação das tarefas realizadas nos espaços e não com a tipologia do espaço.

“Necessidades biológicas” no ambiente visual resumem as demandas psicológicas daquele que percebe o espaço e dizem respeito a requisitos inconscientes que são fundamentais para avaliar uma situação emocionalmente. Considera a sensação de bem-estar e a observação do entorno, que acarretam em avaliações e respostas emocionais ao ambiente.

No segundo critério estão a necessidade de orientação; a segurança física; o relaxamento do corpo e da mente; os ajustes do relógio biológico; o contato com a natureza, a luz natural e outros seres vivos; a definição de território individual – aspectos ainda considerados de maneira relevante em qualquer projeto nos dias de hoje.

Nas décadas de 80 e 90, Jan Ejhed e Anders Liljefors desenvolveram a teoria de iluminação V/P (Lighting Visually and Physically – ensinada no Departamento de Iluminação da KTH / Royal Institute of Technology, em Estocolmo). Ela esclarece e relaciona os aspectos visuais e físicos da luz e da iluminação, reforçando ainda mais a necessidade de uma abordagem qualitativa da prática de iluminação e o entendimento da experiência visual do espaço.

Discutem a importância da visão central e periférica na percepção de contrastes e informação dos espaços; definem termos visuais como espacialidade, visibilidade e atmosfera; definem termos que caracterizam a experiência visual e explicam sua importância para a formação dos espaços, como nível de luz, distribuição espacial de brilho, sombras e reflexões, cor da luz, ofuscamento, entre outros. Associados a termos físicos da luz, dão embasamento à prática do lighting design e assim como para o controle da qualidade visual espacial, na busca de efeitos positivos e na prevenção de efeitos negativos perceptíveis ao observador.

De acordo com Ejhed, “quando se mede luz, mede-se radiação e o resultado pode ser sempre o mesmo. Mas a percepção, a impressão que se tem sobre a luz sempre será diferente dependendo da situação, do espaço e do observador. O resultado do design de iluminação é o que a gente vê. Designers de iluminação trabalham com o que é visível, e radiação não é visível”.

Seriam estes o mesmo espaço? Qual deles é mais claro? A simples variação de temperatura de cor da luz gera impressões diferentes sobre o cenário (crédito: Emelie Kullenberg e Hampus Åkerlind. Tese Artmospheres, 2011, KTH)

As investigações de Kelly, Lam e Ejhed, entre outros não citados, são um legado permanente para o embasamento do profissional dedicado à iluminação de arquitetura, assim como para o entendimento da profissão pelas demais disciplinas.

Deixam claro que a luminotecnia, prática iniciada no início do descobrimento da luz elétrica, tem uma abordagem desconectada do observador e de sua percepção, se restringindo a aspectos quantitativos e ao cumprimento de normas. Estas evoluíram ao longo dos anos e são importantes, pois definem aspectos mínimos a serem alcançados para uma qualidade mínima do espaço. Entretanto, não deveríamos restringir a experiência espacial (independentemente de sua escala), fundamental para o nosso bem-estar, a aspectos exclusivamente funcionais e operacionais – valorizados ainda hoje como suficientes no Brasil.

Esta discussão precisa ser ampliada e levada em consideração desde o início do processo de planejamento de qualquer espaço construído. O trabalho do lighting designer deve ser visto e reconhecido como uma importante colaboração para o alcance de um bem maior.

Como escreveu Lam, em 1977, “(…) Esperançosamente, o “design de iluminação” deixará de existir como uma disciplina isolada. O estado atual dos eventos aliena uma das ferramentas de design mais úteis e potentes do arquiteto. O design do ambiente humano é, de fato, o design da experiência sensorial humana – todo o design visual é, de fato, também design de iluminação e, quanto mais cedo for reconhecido no processo de design, melhor.”

Esta discussão deve ser estendida também aos profissionais que se apresentam como “projetistas luminotécnicos”, ou termos similares, ou que definem seu produto como um “projeto luminotécnico”. É necessário rever o uso das palavras consideradas para a denominação do seu trabalho? É preciso fazer uma reavaliação do seu papel junto à sociedade? Projetamos espaços apenas para o cumprimento de normas ou para o bem-estar das pessoas? Para prover quantidade ou qualidade? Se lighting design é uma disciplina multi e interdisciplinar, que busca resolver questões visuais, perceptuais e biológicas do ser humano com base na experiência espacial, que gera progresso e benefícios públicos, como sustentar uma denominação exclusivamente funcional?

 

Leitura complementar recomendada:

Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2017 para entendimento mais aprofundado dos ciclos circadianos.

– Handbook of Lighting Design da Erco, fabricante alemã.

– Ensaio escrito por Richard Kelly “Light as an Integral Part of Architecture”. College Art Journal, 12(1), 1952. Pp. 24–30.

– Livros de William Lam “Perception and Lighting as Formgivers for Architecture” (1977) e “Sunlighting as Formgiver for Architecture” (1986), disponíveis para download em sua página.

Autor
Mariana Novaes é mineira com raízes nordestinas. Arquiteta, urbanista e architectural lighting designer MSc. que viveu em Estocolmo, Singapura, RJ e voltou para Belo Horizonte. Grande entusiasta de vivências espaciais, busca dar voz à iluminação e ao lighting design(er) em seu trabalho, apresentando a importância da sua interdisciplinaridade na sociedade e no mundo. É sócia-diretora da Atiaîa Design, membro profissional e diretora de relações sociais da Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (AsBAI), membro do Encuentro Iberoamericano de Lighting Design (EILD), escritora da Revista L+D e responsável pela Comunicação e Parcerias do LEDforum. Foi premiada uma dos 40under40 lighting designers mais promissores da atualidade no Lighting Design Awards 2018. A Atiaîa Design foi homenageada no 16º Prêmio IMEC 2018 na categoria prestadora de serviços em lighting design.

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