A luz que entra pela janela I

 A primeira luz – @ogatodorme

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“sempre gosto quando é tão cedo que a luz que há não dá conta de colorir os móveis e objetos do lado de dentro. talvez culpa do meu astigmatismo, vejo preto-e-branco e esfumado, como se eu acordasse num filme antigo ou numa fotografia de feira de antiguidades. nessa hora penso na minha vontade de fazer um cômodo ou mesmo uma casa toda assim, sem-cor, só luz e sua ausência. uma instalação de um espaço que se insinua, sem a saturação ou a definição. a primeira luz.” @ogatodorme

Ao ler este compartilhamento no Instagram, me emocionei com a sensibilidade da descrição e pensei comigo: eu também tenho vontade, Carol. Fora todas as outras instalações que já pensei em fazer para mapear e poder sempre vivenciar outras impressões sobre a luz, a escuridão e seus efeitos no espaço… O esfumaçado sim, se dá por conta do seu astigmatismo, que realmente deixa tudo desfocado. Mas o preto-e-branco, se estamos falando da primeira luz, filtrada pela cortina, acredito que ainda possa ser a sua visão escotópica a funcionar — já vivi situações parecidas. Diferente da visão fotópica, ela acontece em situações de quase escuridão, em baixos níveis de luminosidade, ativando apenas os bastonetes — receptores responsáveis pela identificação de contrastes/diferenças de brilho. É por isso que, quando acordamos à noite e não acendemos a luz, apenas enxergamos tons de cinza. Observe e constate isto quando tiver oportunidade.

Assim como a Carol relatou, me pergunto: quem mais observa o espaço em que se encontra? Quem acordou pela manhã e ficou a observar o cômodo onde estava? Notou aquele raio de luz a entrar pela cortina entreaberta do quarto? A cor da luz, as texturas e cores dos materiais revelados em comparação ao que não estava sob ele? Observou a difusão de luz graças à cortina branca de pano, constatando gradientes e diferentes níveis de luz? Viu o espaço pulsar a cada vez que uma nuvem passava na frente do sol? Projeções de luz e sombra, reflexos, cores, figuras desfocadas e dinâmicas em função dos movimentos da cortina ao entrar da brisa? Diferentes tons das paredes à medida que o tempo passava? Ou ainda, viu a noite virar dia, acompanhados de tons claros, rosados e amarelados, ou viu o dia virar noite, admirando nuances alaranjadas, avermelhadas e azuladas do lusco-fusco? E quem observou tudo isso em outros espaços? Com outros estímulos externos aos demais sentidos, como o cantar dos pássaros, uma música, um cheiro de café que era feito na cozinha, cheiro de chuva?

Se você não teve nenhuma experiência parecida, se nenhuma lembrança lhe veio à cabeça ao ler o que escrevi, arrisco dizer que não viveu. É impossível não admirar e não se inspirar com estes fenômenos — esses pequenos e simples momentos nutrem a nossa alma, nos conectam com a natureza e a nossa essência. Assim como é impossível dissociar a experiência do espaço da experiência da luz.

Abrir a janela e ter uma vista, um horizonte, um jardim ou o céu para observar, assim como todos os seus efeitos dentro de casa, de um local por onde está a passar ou do espaço de trabalho é um privilégio dentro de centros urbanos densos como BH. Muitas vezes dominados e ditados pelo mercado imobiliário, que por sua vez aproveita a existência de códigos de obras antigos e/ou superficiais, assim como planos diretores e leis de uso e ocupação do solo que não consideram o macro — como, por exemplo, o direito ao acesso integral à luz natural — sofremos com o que o outro, principalmente aquele que constrói, considera qualidade.

Vivemos em regiões onde topografias são ignoradas, como em alguns bairros onde as pessoas estão acostumadas a abrir suas janelas para “palafitas” de concreto, espaços vazios, ignorados e sem aproveitamento. Ou ficam lado a lado com seus vizinhos, mantendo janelas ou cortinas fechadas para ter privacidade — e pagam caro por estes tipos de moradia. Outras vezes, pela falta de opção ou condições financeiras, muitas famílias se encontram em situações até mesmo insalubres, sem janelas, sem a entrada de luz, sem tantos outros aspectos, sem vida. Há casos onde um prédio sombreia o outro assim como outras moradas, muitas vezes anteriores a este edifício; onde os muros são mais altos que o necessário (falta segurança ou bom senso?); onde a opacidade das empenas cegas reflete, mais do que a luz que nelas chega, o descaso com que tratamos o “avistar a cidade” (viva o Cura! – Circuito Urbano de Arte); onde pátios internos, muitas vezes as únicas opções de abertura e acesso à luz natural de apartamentos, se voltam para cores cinzentas, monótonas e escuras, áreas de serviço de vizinhos, que nada refletem o céu ou a luz natural.

“Mas a sensibilidade à arquitetura tem também seus aspectos mais problemáticos. Se um único aposento é capaz de alterar o que sentimos, se a nossa felicidade pode depender da cor das paredes ou do formato de uma porta, o que acontecerá conosco na maioria dos lugares que somos forçados a olhar e habitar? O que vamos sentir numa casa com janelas que parecem as de uma prisão, carpete manchado e cortinas de plástico?” Alain de Botton, em Arquitetura da Felicidade.

O que as janelas destes espaços permitem de vivências aos moradores, usuários e visitantes? É agradável estar nestes espaços? Como definir e estabelecer valor para o bem-estar em espaços construídos? Quais são os parâmetros? O que é bem-estar? E qualidade? É possível dizer que há um senso comum sobre qualidade da luz? O que as pessoas buscam? O que é planejado e o que é construído para elas? Depois que vão embora de um espaço, do que as pessoas se lembram?

Apresento alguns exemplos a seguir que, a meu ver, incluem algumas sutilezas de solução de projeto para as suas janelas e espaços, tornando a experiência espacial notável através da percepção da luz.

Na Casa Batló, construída em Barcelona, ao trabalhar um degradê de cores mais claras e mais escuras no revestimento das paredes do pátio interno do edifício, Gaudí equalizou a distribuição de luz para seus moradores: cores mais escuras foram escolhidas para a parte superior do fosso, onde existe uma claraboia e a quantidade de luz é mais intensa e abundante; a parte inferior do fosso recebeu cerâmicas de cores claras, que refletem mais a luz natural. Além disso, as janelas que dão para este pátio possuem dimensões diferentes — maiores nos pavimentos mais baixos, menores no andar superior.

Can Lis em Mallorca, projeto de Jørn Utzon, recebeu aberturas feitas em paredes grossas e chanfradas em seu projeto. Elas ajudam o visitante a não perder a vista (sudeste) para o mar. A profundidade das paredes evita que o sol entre diretamente nos espaços principais da casa e os chanfros ajudam a garantir o conforto visual de quem está do lado de dentro, olhando para o exterior — eles reduzem a percepção de contraste a partir do momento que a luz se distribui sobre suas superfícies, criando um gradiente do claro (exterior), para o médio (janelas) e para o interior mais escuro. Sem contar que outras aberturas permitem o sol entrar diretamente, desenhando a luz pelas paredes de pedra local em horários diferentes.

Estar da Can Lis; @Torben Eskerod

A Sweeney Chapel, em Indianápolis/Indiana, recebeu uma janela-instalação feita em prismas em vidro dicroico estrutural, projeto do escritório de James Carpenter. A equipe estudou a entrada de luz solar de forma a garantir a projeção de luz na parede de fundo do batistério. As cores projetadas graças ao vidro dicroico mudam à medida que a luz natural se move, por volta do meio dia até a tarde, percorrendo o espaço e a superfície. Além disso, as imagens e o movimento de nuvens e pássaros que atravessam o céu são projetados diretamente no espaço, assim como os movimentos de vento das folhas das árvores adjacentes, criando uma superposição de paisagem e céu. Pura poesia visual. 

Prisma da Sweeney Chapel; @ebachta via Flickr

Em Brasília, o Santuário Dom Bosco, desenvolvido pelo arquiteto Carlos Alberto Naves, se constitui de um grande vão estrutural de concreto com janelas-vitrais entre os arcos-pilares que encerram seu espaço, tingindo de luz e cor todo o seu interior. Seus efeitos, nuances e impressões são dinâmicos e acompanham a variação de luz ao longo do dia.

Santuário Dom Bosco, em Brasília; @Eric Gaba via Wikimedia

Por último, no Chichu Art Museum, localizado na ilha de Naoshima no Japão, é difícil dizer qual o princípio utilizado pelo autor Tadao Ando — se luz ou sombra. Percorrer suas rampas, observar suas aberturas para os pátios internos é um exercício de contemplação e meditação. Em outros momentos, o edifício abre as janelas para o mar e ilhas vizinhas, sem esquecer das salas dedicadas a diferentes artistas, como uma série de Water Lilies de Monet, iluminada exclusivamente com luz natural indireta. É possível sentir o cômodo pulsar a cada mudança das condições luminosas externas.  

Concordo que os exemplos citados são muito específicos — casas, museu, capelas. Mas pergunto: as soluções apresentadas seriam aplicáveis apenas a estas construções? Ou aplicáveis apenas a outras de pequeno porte ou especiais? Não há demanda por soluções diferentes das que temos e fazemos? Nunca há recurso para o desenvolvimento de alternativas que estimulem, pelo menos, a contemplação visual e a descompressão nos diversos ambientes por onde circulamos? Que estimulem a conexão com a natureza e com nós mesmos? É realmente preciso que as nossas janelas sejam sempre um vão na parede de vedação ou um grande pano de vidro que, inevitavelmente, será coberto por uma cortina, dependendo da sua orientação? O estímulo visual não é necessário?

Além de proporcionar acesso e conexão à natureza e à luz natural, janelas também desempenham um papel inestimável na sustentabilidade espacial, proporcionando ventilação natural e resfriamento noturno, controle de perda e/ou ganho de calor, controle solar, bem como a riqueza circadiana, sazonal, cultural e climática do contexto de cada edifício. Mesmo assim, muitas construções foram e ainda tem sido projetadas para ficarem fechadas e dependentes de equipamentos para garantir o conforto e bem-estar do ocupante.

Existe uma relação diretamente proporcional entre luz e saúde. Pesquisas apontam que a luz natural é a principal responsável pela sincronização dos ciclos circadianos, nosso relógio biológico interno, responsável pelo nosso pareamento com os ciclos de 24h de rotação da Terra, de luz e escuridão. Outras pesquisas indicam que, na presença da luz natural ferimentos se recuperam mais rapidamente, o sistema imunológico responde melhor, tumores regridem. A exposição diária à luz natural influencia a qualidade do nosso sono, assim como contribui para a performance de qualquer atividade cognitiva.

Trabalhar em um espaço onde há pouco ou não há acesso à luz natural pode ser bastante cruel. Há perda da percepção da dinamicidade da luz natural, da noção do tempo, e os ciclos circadianos podem sofrer “dessincronização”. Escritórios, escolas, hospitais, shoppings, indústrias e outras construções que possuem cômodos sem acesso ao exterior podem impactar negativamente seus ocupantes quando não proporcionam soluções de luz natural, como piora da qualidade do sono, risco de desenvolvimento de depressão e aumento dos níveis de cortisol no sangue.

Como um contraponto ao que foi compartilhado, trago novamente uma passagem do Livro Arquitetura da Felicidade, onde Botton refletiu: “Dotada de um poder que é tão duvidoso quanto, muitas vezes, inexpressivo, a arquitetura sempre concorrerá em desvantagem pelas riquezas da humanidade com demandas utilitárias. Como é difícil justificar o custo de colocar abaixo e reconstruir uma rua medíocre, mas que serve às suas finalidades! Como é espinhoso ter de defender, diante de necessidades mais tangíveis, os benefícios de realinhar um poste de iluminação torto ou substituir uma esquadria de janela que não se encaixa direito. A bela arquitetura nada tem a ver com as vantagens óbvias de uma vacina ou de uma tigela de arroz. A sua construção, por conseguinte, jamais será uma prioridade política, pois por mais que o mundo feito pela mão do homem pudesse na sua totalidade ser, por meio de incansável esforço e sacrifício, (…), ainda assim estaríamos frequentemente de mau humor”.

Por mais que eu entenda e até concorde com o que o autor diz, em parte, não consigo deixar de acreditar que a arquitetura, enquanto espaço vivencial associado à experiência da luz, é a primeira camada, o primeiro meio externo capaz de alterar os nossos estados internos, sendo responsável pela promoção de bem-estar e saúde, e por isto, deve ser sim vista como uma prioridade à sociedade. Isso está alinhado com o que a OMS (Organização Mundial de Saúde) diz em seus “Determinantes de Saúde”: se as pessoas são saudáveis ou não, é determinado pelas suas circunstâncias e estado do ambiente em que se encontram.

Como uma última provocação sobre qualidade, necessidades e vida nas cidades, compartilho uma fala do artista Olafur Eliasson em entrevista para a revista D/A do grupo Velux: “Talvez não devêssemos tentar quantificar tudo, mas apenas fazer algo pelo potencial de sentirmo-nos bem e felizes”.  

Autor
Mariana Novaes é mineira com raízes nordestinas. Arquiteta, urbanista e architectural lighting designer MSc. que viveu em Estocolmo, Singapura, RJ e voltou para Belo Horizonte. Grande entusiasta de vivências espaciais, busca dar voz à iluminação e ao lighting design(er) em seu trabalho, apresentando a importância da sua interdisciplinaridade na sociedade e no mundo. É sócia-diretora da Atiaîa Design, membro profissional e diretora de relações sociais da Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (AsBAI), membro do Encuentro Iberoamericano de Lighting Design (EILD), escritora da Revista L+D e responsável pela Comunicação e Parcerias do LEDforum. Foi premiada uma dos 40under40 lighting designers mais promissores da atualidade no Lighting Design Awards 2018. A Atiaîa Design foi homenageada no 16º Prêmio IMEC 2018 na categoria prestadora de serviços em lighting design.

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  1. Conteúdo super relevante. Eu, que moro num apartamento onde minhas janelas foram sombreadas pelo edifício construído ao lado, reafirmo a importância da luz natural em nossas casas. Acender luzes artificiais durante o dia não faz nenhum sentido, estando sentada diante de uma janela na cidade Rio de Janeiro em pleno verão. Mas, infelizmente, é uma realidade. Obrigada Mariana!

  2. Ótimo texto Mariana! É de uma sensibilidade incrível. Não há nada parecido com a luz da manhã, é a forma mais expressiva que o mundo tem de nos dizer: Mais um dia de vida!

    Parabéns.

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