É só mais um ano para o bem ou para o mal

 Foto: Ian Schneider/Unsplash

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Não há clichê maior do que a constatação de que o ano voou. Aí chegamos, uma vez mais, e rapidamente, ao ponto recorrente: o ano voou. Reflexões sobre o tempo nas suas variáveis objetivas e subjetivas são previsíveis, como presumível é a conclusão: o ano voou.

Em uma corrida frenética, como um surto coletivo, todos revisitam os meses corridos e, imbuídos da melhor projeção, miram a vida em perspectivas.

Não há um distanciamento racional, não nessa época. A lógica é a da pieguice — que não beira a conotação pejorativa — mas que a ascende à realidade icônica de todo fim de ano. A sensação inconfessável é de que muito deixou de ser feito, e que o realizável foi à custa do alto custo que a vida impõe.

A proximidade do Natal — e seus símbolos nostálgicos — embaçam qualquer possibilidade de juízo isento da mais barata emoção. Não se trata exatamente do juízo final, mas é o que acomete minimamente os afeitos à sensibilidade. Dramatizamos dores, exaltamos com dignidade as duras conquistas, lembramos com orgulho das superações e acreditamos que no próximo ano serão corrigidas rotas e, se por pouco, não contornamos a tal felicidade, não perdemos nada por montar o circo da sorte mais uma vez.

À flor da pele, surrada por absoluto contágio dos que proximamente a mim fecham para balanços e retrospectivas, também me misturo aos lugares comuns. Muito improvável que passe ilesa, ao largo da virada, sem meter-me em confabulações. À essa altura, parece-me que as mais robustas ideias do princípio do ano diluíram-se sem que me desse conta ou sem a minha lúcida permissão.

Já deveria saber que o tempo é um só. O mesmo tempo que se sonha é o mesmo tempo que não se cumpriu o sonho. O mesmo tempo que se ganha é o mesmo tempo que se perde. À despeito, o tempo seguiu levando profundas experiências, não importa se vividas na dureza do real ou na suspensão do imaginário.

De fato, não nos enganemos. Todos farão planos, promessas irrealizáveis, serão cuidadosamente mais condescendentes e generosos, compartilharão ofícios e saberes, exercitarão a empatia (essa agora em moda). Muitos aguerridos acreditarão na possibilidade de se humanizarem mais (já que o mundo não se assegura tão humano). De toda sorte, são válidas as mais nobres intenções. Sabemos que o que é velho não fica novo.

Quando amanhecer o primeiro raio de sol do novo ano, curve-se ao tempo. Projetos não cairão do céu como passe de mágica, Deus não descerá à terra, provavelmente não haverá um encontro com Jesus, milagrosamente o dia não irradiará mais focos de luz.

Você, suas escolhas, suas mais íntimas e depuradas considerações sobre o futuro representam a grande revolução. A sua grande revolução. Respire fundo, aprume o corpo e não olhe para trás. É só mais um ano.

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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