Mapa mundi da fermentação

 

Receba artigos sobre diversidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

A primeira palavra de um texto parece um parto.

A iminência do salto, o triz de um instante, o impulso que vibra. O ritmo, o pulso, a pulsão. Fermentar é tudo isso. Pequena parte de vida à favor da vida.

Antes de um vinagre vir a ser vinagre em seu devir probiótico, um processo natural precisa acontecer.

Bananas maduras com manchas escuras, despencadas do cacho (aquelas da xepa) são ótimo ambiente das bactérias acéticas.

Cultivo e cuidado. Risco e manutenção.

A fruta vai decompor, a polpa encorpada vai desidratar, a água ao fundo do pote e as bolhas gasosas aparecerão.

Contínua força. Diferença na repetição.

Multi camadas; um campo de micro comunidades, transformando açúcar em energia. Enzimas, ácidos, vitaminas, as medicinas existem e decodificam através das lentes, dos reagentes, os carbonos em ação.

Contração e expansão.

Neste fluxo, a terra tem sido terra, célula que respira.

No princípio, o verbo e a vontade de mudar.

Unicélula agregada aos milhões.

Desejo direcionado para a multiplicação. Ação e reação, química. Metáfora e metabolismo.

O alcalino que acidifica.

O sabor da fermentação pode confundir. O azedo nem sempre é estragado.

Surgem os aromas complexos.

A arte da quebra de moléculas e o exercício sensorial para reconhecer as várias tonalidades dos tipos sortidos de queijos e vinhos entre outros alimentos que se revelam com a presença poética dessas culturas de seres vivos, assumem a alquimia das experiências sofisticadas mundo à fora. Por dentro, as simbioses.

Cada continente com seus microbiomas abundantes, receitas ancestrais de alimentos nativos ou estrangeiros, iogurtes nômades, ovos centenários, algas, fungos fluorescentes, leveduras mágicas da transformação: Cerveja, koji, tempeh, cachaça, cauim, puba, pão. Lista imensa que vai além da linha dos trópicos, mapa mundi da fermentação.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se