Marielle, presente! — um manifesto

 Marielle – Mujer, de Joana Ziller

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Amanhã, dia 14 de abril, será o marco da passagem de 1 mês desde a execução de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro e representante de importantes movimentos sociais, e do motorista que a acompanhava, Anderson Gomes.

Quem mandou? Quantos mais? Até quando?

Seguimos sem respostas, mas com a esperança de que a voz de Marielle ecoa cada vez mais forte entre nós.

Convidamos nossa comunidade para criarmos juntos um manifesto — com versos, textos, ilustrações — como forma de mantermos vivas as lutas e as memórias de Marielle. Presente.

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferente das minhas…”.
É a frase de Audre Lorde, feminista negra do século passado.

É triste que tenhamos esperado até o assassinato político da maior líder negra do Brasil para que nos indignássemos com essa sociedade, que falhou. Que saibamos que o racismo institucional que puxou esse gatilho,

Marielle era mulher política, com visão crítica e sede de mudança. Não tem como continuarmos olhando para o passado, queremos justiça, o fim dessa guerra do Estado contra a população negra. Queremos mulheres negras em todos os lugares desse país que é delas. Agora mais do que nunca, é hora de escutar as mulheres negras, respeitar o seu luto, e entender, que são elas as pessoas com o maior poder de transformação dessa sociedade. Que da tentativa de calar uma Marielle tenham nascido várias, que mulheres conheçam sua história e continuem o seu legado. Para elas, as mulheres negras, mães, serão todos os meus votos.

— Bela Bordeaux

Que o sangue dela respingue em você e te manche as roupas.
Que a voz silenciada se transforme em gritos na noite.
Que a morte de Marielle valha a vida roubada, tantas milhares de vidas roubadas.

Com amor (e dor),

— Nadiella Monteiro Jardim
#mariellepresente

Mulher, luta, resistência, coragem.
Patriarcado, luto, silencio, medo.
Um disparo de morte que simboliza muitas mortes,
um sopro de vida que precisa ser continuado.

— Marcelle Xavier

Jejun. Falta apetite. Apatia.
Vômito. Arroto. Indignação.
Morder e ser mordida.
Mastigar. Engolir a seco. Amordaçar.
Amor? Não.
Jejun. Falta apetite. Ilusão.
Um Copo de cólera.
Um Copo d’água.
Um Copo d’Aguardente. Limão. Açúcar.
Um morro arde azedo em marcha ré.
Um luto. Uma luta.
Uma marielle.
Despejo. Desrespeito. Desespero.
Repetindo esse
Catar feijão carioca. Feijão verde. Feijão vermelho.
Cozinhando uma nação inteira
em panela de pressão.
Couve. Farofa. Carne de porco.
Feijão preto. Arroz branco.
Arroz queimado. Feijão branco.
Gambiarras mamelucas, cafuzas, mulatas
reforçando tempos de exceção.
Falta laranja pra digerir esse
engasgo, embriagado, exterminado,
perguntando, lá no fundo,
num trago,
se, mesmo assim,
passarão.

Mariellefrancopresente.
Quatorzedemarçode2018.

— Laís Velloso,
Comências. Fragmentos de panela n.XIV [luto]

Me perdoa, Marielle.

Peço perdão por todos nós, como nação, como brasileiros.
Perdoa por não termos compreendido que não era sobre combate à corrupção.
Não era sobre eleição, apenas.
Não era sobre gostar mais ou menos de um partido. Nem era sobre partido.
Não era sobre provar-se certo.

Era (é) sobre abrir precedentes.
Era (é) sobre enfraquecer a democracia.
Era (é) sobre um projeto de poder que está disposto a engolir tudo, a não ter lei, a permitir que tudo aconteça para que os mesmos de sempre, sempre, estejam nos lugares de sempre.

Perdoa porque, como país, não soubemos entender.
Perdoa porque estávamos preocupados demais em fazer tocar as panelas, porque tocar panelas é sempre mais simples do que tocar as pessoas, ou tocar nos pontos que fazem doer o que precisa ser discutido.

Perdoa, porque nos distraímos em nossas próprias brigas e agressões.
Perdoa, porque provar-se certo se tornou mais importante do que nos provarmos juntos.

Perdoa, porque, como nação, permitimos o seu assassinato.
Nos descuidamos. Nos descuidamos de você. E de todos os pobres, de todos os pretos, de todos os favelados, de todas as minorias.
Demos o aval para que armas fossem levantadas.
Demos o aval para que os incomodados te retirassem.

Perdoa por termos deixado que você morresse.

Nós não temos a menor ideia sobre o que estamos fazendo.
Nem sobre o que estão fazendo de nós.

— Maria Luiza Tavares

Assassinar uma mulher, negra, defensora dos direitos daqueles que não têm espaço para fala, daqueles que não têm voz, no mês em que se procura discutir a posição da mulher nessa cultura, nesse país, nesse mundo em que vivemos é uma afronta (afrontar = atacar de frente, ofender, ter a petulância) e não uma covardia como [email protected] de bom coração estão falando.

Porque covardia pode ser um ‘comportamento que denota falta de coragem’ ou ‘violência contra o mais fraco’, quanto à coragem ou a falta não vou nem comentar porque esse ser que a matou é desprovido de qualquer virtude.

Marielle não era ‘mais fraca’, nós mulheres não somos fracas, os negros e as negras não são @s mais [email protected], é preciso acabar com esse sentimento. Ainda somos @s [email protected] ouvidos e com menos espaço na mídia, nas ruas, no mercado de trabalho, mas somos FORTES e [email protected] seremos mais ainda!

Que a semente chamada Marielle Franco se fortaleça, crie raízes e seja de fato um motivador para que nossas ações tragam resultados de amor, de união, de sabedoria e de consciência de um mundo melhor que começa a se manifestar agora! Aqui e agora!

— Clarissa Cruz Viana

um dia antes da execução de Marielle, na Academia Mineira de Letras (AML), aconteceu um encontro da Psicanálise com a literatura. o tema era “o feminino, seus corpos e mundos”. escolheram Guimarães Rosa pra pensar “o demônio do feminino em Grande Sertão: Veredas”.

cangaceiro, homem comum, Riobaldo preconizava que a tudo carece de coragem, muita coragem.
carecia de coragem e Marielle sabia disso. apagaram-na.!

— Adriana Barbosa

Tenho pensado muito sobre Marielle, sem saber exatamente o que dizer. Doeu.Mas não concordo que uma parte nossa morreu, como andam dizendo. Não há tempo para lamentar. O assassinato de uma guerreira, representante de tantas minorias, acordou as leoas. Se a motivação exata e os autores do crime ainda são mistério, fato é que essa bala acertou em feridas abertas da desigualdade social e entre gêneros, raças e orientação sexual. Mataram uma representante dessas gentes. O assassinato de Marielle desperta um em nós instinto de sobrevivência. Se querem nos calar, gritamos. Se querem nos tirar de cena, ocupamos espaços. Se querem nos matar, vivemos. O feminino do luto é luta.

— Flávia Ayer

Sobre a morte: os olhos que aparentemente se fecham no mundo continuam abertos dentro da gente. 🌷

— Lucas Ávila

 

Autor
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