Cicatrizes e vísceras de Marina Abramovic

 Foto: performance AAA AAA, por Marina Abramovic e Ulay. © VBK, Wien, 2011

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“Não estou interessado no seu rosto. Estou interessado nas suas cicatrizes.” O fotógrafo italiano Marco Anelli acalmou Marina Abramovic com essa frase, antes de uma sessão de fotos, como ela relembra em seu livro de memórias. Marina é o mais famoso nome da arte performática mundial, mas isso não a impede de confessar que está interessada, sim, em parecer bonita. Admitir as próprias inseguranças, falar de seus fracassos e expor o coração partido é o que torna “Pelas Paredes” (José Olympio, 2017) tão especial. Ao mostrar seu lado mais frágil, a autora parece se tornar íntima do leitor, uma espécie de amiga imaginária.

Em 2015, quando esteve no Brasil para participar da retrospectiva de sua obra, (Terra Comunal, no Sesc Pompeia, em São Paulo) uma jornalista do El País a criticou por usar “botox, muito botox, apagando completamente suas feições faciais”. Mas vestindo Sônia Pinto ou Givenchy e sempre com o cabelo impecável, Marina é rebelde demais para se moldar às expectativas dos outros em relação a como uma artista deve se comportar. Se ela quer ficar bem na foto (literalmente), ela consegue. Há quem pense que isso seja um sinal de fraqueza. Mas bancar o próprio desejo não é algo típico dos fracos.

Ela também está interessada nas próprias cicatrizes. Na performance “Thomas Lips”, de 1975, Marina se cortava com um estilete, desenhando na própria pele uma estrela de cinco pontas. Um ano antes, deixou diversos objetos, entre os quais uma pistola carregada, disponíveis para que o público interagisse com ela. “Estava preparada para morrer”, lembra.

Um livro de memória se difere de uma biografia, principalmente, porque se sustenta com menos atenção aos dados, nomes de pessoas e lugares, enquanto ganha em profundidade com o olhar que só o autor pode lançar sobre seu passado. Só alguém corajoso para conseguir vencer a tentação de revisitar o que viveu apenas para pisar nos inimigos e exaltar a própria trajetória. Marina consegue esse feito, com a mesma coragem que usa para encarar a patrulha do botox ou se colocar na mão do público, enquanto há uma arma por perto.

Num do trechos mais aguardados, ela narra sua história com o artista alemão Ulay, seu parceiro de performances e namorado durante 12 anos. Ainda nos bons tempos, os dois, foram para o interior da Austrália e conviveram por meses com uma tribo aborígene. Entre eles, a artista descobriu o conceito revolucionário do agora. “Para eles não existe passado, a história nunca aconteceu, está sempre acontecendo”. Não sem demonstrar uma ponta de desapontamento, ela remete a essa viagem como uma aventura das mais incríveis, mas admite que Ulay se misturou melhor aos membros da tribo, chegando a receber um nome novo dado pelos aborígenes. Ela, não.

Ulay e Marina viajavam numa van, com um cachorro de estimação e quase nenhum dinheiro. Ele dirigia, ela fazia suéteres para que aguentassem o inverno. Ele cuidava das contas e dinheiro veio a ser um problema entre os dois, logo após a separação e décadas mais tarde. O tema espinhoso também está no livro.

O casal planejava se casar depois de dar uma volta, ao mesmo tempo e em sentido oposto, na Grande Muralha da China. A ideia era fazer os votos, ao se encontrarem após a longa caminhada. Porém, a burocracia insana do regime chinês fez o processo se alongar tanto que, quando, finalmente, conseguiram licença para a jornada, a relação dos dois já estava no fim. Partiu dela a ideia de colocarem um ponto final no alto da muralha. O começo e o término da relação é cultuada por fãs no mundo todo, mas a forma como Marina a expõe arranha o romantismo devotado a eles. Uma das exigências do governo chinês era que ambos fossem acompanhados por guias oficiais. Ulay traiu Marina (lembre-se eles ainda não tinham terminado) com a guia e teve um filho com ela.

Mais do que em seu rosto ou suas cicatrizes, Marina está interessada nas próprias vísceras. Com a autoindulgência permitida pelo tempo, ela poderia dar a entender que não se importou muito. Ao contrário disso, porém, dá detalhes de como essa e outras traições de Ulay fizeram com que se sentisse pouco e pequena. Mais tarde, já no fim dos seus 60 anos, outro relacionamento de 12 anos, com o escultor italiano Paolo Cavenari, terminou graças a traições. De novo, ela contou o efeito nocivo disso em sua autoestima. O único saldo positivo foi em seu trabalho: o sofrimento, segundo Marina faz parecer, é bom companheiro para a arte.

Foi em busca de cura para seu coração partido que ela esteve diferentes vezes no Brasil, entre 2012 e 2015, atrás de diferentes líderes espirituais. Em suas peregrinações, visitou um xamã e presenciou cirurgias espirituais, num processo que foi documentado no filme Espaço Além, do diretor brasileiro Marco Del Fiori.

Aos 70 anos, Marina chegou ao ponto de narrar seus sucessos e fracassos com o mesmo entusiasmo. Ela se recorda do triunfo inigualável na Bienal de Veneza de 1997, na qual ganhou o Leão de Ouro, e da performance A Artista está Presente, de 2012, recorde de público no MoMA. E também faz questão de lembrar do Instituto Marina Abramovic, que conseguiu bater a meta de captação no Kickstarter, mas não deve sair do papel, porque o valor levantado não cobre o orçamento final.

Marina conta que estava deprimida pelo término do relacionamento com Paolo, quando um amigo foi à sua casa e começou a confiscar tudo o que pudesse ser usado num suicídio: comprimidos, facas, cordões. Ela ficou horrorizada por alguém do seu círculo de amizades poder ter pensado que ela pudesse conceber essa ideia. Matar-se nunca foi uma opção, especialmente, por sua vocação artística e porque seus pais, membros e combatentes do regime comunista iugoslavo, a ensinaram a ter a disciplina como um valor primordial.

Nessa mesma época, um psiquiatra receitou antidepressivos, mas ela preferiu lidar com a tristeza, a correr o risco de se tornar menos criativa. Marina vê os altos e baixos não como momentos distintos, mas como evolução da sua jornada, duas partes do mesmo processo, opostos complementares, causa e consequência, que ajudam a criar performances (e livros) dos mais emocionantes.

Autor
Eu escrevo. Sou jornalista, autora de cinco livros e aspirante a blogueira. "O Último Kibutz" (Simonsen, 2017) é meu primeiro romance.

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