Mármore: uma demonstração de personalidade

 Marcante-Testa – Another Venice. Veneza, 2017 © Carola Ripamonte

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A história da teoria arquitetônica, fundamentada desde seu nascimento nos princípios da técnica, da funcionalidade e da beleza, mostrou-se sempre inquieta em relação ao uso dos materiais que a compõe. Para alguns críticos, é a materialidade o fator fundamental na criação de um discurso simbólico. De ares monásticos e associado a eventos solenes, o mármore, rocha natural de origem calcária, carrega no grafismo de seus veios e amêndoas, cores e texturas de grande carga compositiva e estética. Presente na construção de grandes catedrais góticas ou ainda em palácios venezianos do século XII, apresenta historicamente o apelo da nobreza e do trabalho artesanal.

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Carlo Scarpa – Restruturação do Palazzo Querini Stampalia. Veneza, década de 1960 © Cristiano Corte

Aos arquitetos italianos, portanto, resta a intimidade no trato deste material por conta das grandes frentes de extração existentes ao longo do país. Destaca-se nesse contexto, a região de Carrara, de onde são extraídas rochas de fundo perolado, recheadas de veios acinzentados que levam o mesmo nome de seu local de origem e podem receber diferentes classificações de acordo com variações de tom ou quantidade de veios. Dos grandes exemplos italianos de aplicação do mármore, destaca-se a obra do arquiteto veneziano Carlo Scarpa, reconhecido pela excelente composição material em seus projetos.

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John Pawson – Farini Bakery & Café. Milão, 2016 – 17 © Max Gleeson

Em suas obras, por exemplo, o mármore é transformado em elemento construtivo, ou seja, anteparos, vedações e elementos de passagem. Subversão esta que já havia sido experimentada de forma mais pura no projeto do icônico Pavilhão de Barcelona do arquiteto alemão Mies Van der Rohe, prematuro minimalista que deu as bases para que arquitetos como americano John Pawson pudessem, através da nobreza do material, conferir robustez e sobriedade a seus projetos.

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Mies Van der Rohe – Fundació Mies Van der Rohe. Barcelona, 2011 © Pepo Segura

O tratamento de superfícies através de pedras preciosas como o mármore tem, portanto, encontrado grande respaldo na arquitetura contemporânea. Seja através do uso sistemático de seu grafismo, seja na composição cromática de determinada obra. Em território nacional, durante uma mostra de arquitetura de interiores em 2016, o arquiteto londrinense Guilherme Torres, em sua sala para um Editor, utilizou grandes paredes em mármore, com paginação específica, nos tons de verde esmeralda, âmbar e rubi, compostas com piso de carvalho europeu, iluminação difusa, obras da fotógrafa havaiana Christy Lee Rogers e mobiliário assinado por seu estúdio.

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Gio Ponti – Villa Planchart. Caracas, 1955 © Victor Pastore

Assim, após uma breve observação sobre o uso minucioso do mármore na composição de um projeto de arquitetura, vale ressaltar que sua aplicação é garantia de longevidade. O uso de materiais naturais confere ao projeto classe e refinamento devido à aceitação de suas particularidades. Assumir a potência visual de um material como o mármore é, acima de tudo, uma demonstração de personalidade: impetuoso, original e nobre.

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Guilherme Torres – Sala do Editor. Curitiba, 2016 © Denilson Machado/MCA Estúdio

 

Autor
Arquiteto e Urbanista graduado pela UFPR, com formação complementar em Ciência da Arquitetura pelo Politécnico de Milão e Design de Exposições ainda pela Universidade Federal. Pós-graduado em Design Estratégico pela PUCPR, prestou consultoria sobre peças de mobiliário, objetos e obras de arte para escritórios de Curitiba e hoje, gerencia o próprio negócio. Inquieto e obcecado.

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