“A maternidade deveria ser citada no currículo​”​

 

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A frase do título não é minha. Foi dita há cerca de 13 anos pela cantora e compositora Fernanda Takai, quando nasceu sua filha Nina. Na época eu não imaginava que também teria a felicidade de ser mãe. Ainda assim, sua declaração me intrigou. E muito. Não pelo fato do currículo, assim como é concebido, ser um acessório dispensável no mundo artístico (e a reflexão ter sido feita por quem não faz uso dele).

É que ali, talvez pela primeira vez, me dei conta do quanto a vida e a carreira de algumas mulheres no meu entorno floresceram justamente após o nascimento de seus filhos. A começar por minha própria mãe, referência profissional positiva para mim ainda hoje. Mesmo concursada e dotada de estabilidade, ela decidiu ingressar em uma faculdade poucos anos após o nascimento da sua terceira filha, que aqui vos fala. Sua decisão a fez crescer consideravelmente na carreira até assumir um expressivo cargo de liderança, que ocupou até a aposentadoria.

Mas o curioso dessa história é que seu desenvolvimento ocorreu, especialmente, graças a habilidades que transcenderam sua área de atuação, como a capacidade de negociação e o estímulo à autonomia da equipe, por exemplo. Esse legado foi valioso para que ela soubesse, inclusive, lidar com situações desafiantes que viveu em seu dia a dia profissional e cujas soluções não encontraria em nenhuma cartilha técnica. “Vou repetir o que sua avó falou quando eu fui mãe: ‘quando a gente olha pra trás nem sabe como deu conta. Parece que a maternidade dá uma força pra gente’”, disse minha mãe no auge do meu puerpério.

O que aprendi com a maternidade

Também não sei ainda como damos conta, mãe. Mas o que minha intuição assopra, com ares de certeza, é que o motivo desse estado de flow, tão positivo se aplicado ao dia a dia das organizações, vem justamente da maternidade e das inúmeras capacidades que a mulher desenvolve, na prática, por amor e necessidade. Como superpoderes, mesmo. Empatia, olhar humano, senso de justiça, dinamismo, organização, resiliência, determinação, paciência, sensibilidade, gerenciamento do tempo e, sobretudo, coragem. Apenas para dizer algumas.

Ninguém passa impune por essa experiência visceral, única e peculiar. Afinal, antes de tudo, profissionais são pessoas, que levam consigo todo o repertório de sentimentos, aprendizados, dores, crenças, lições, amores. Mas já há quem consiga atestar tudo isso na prática. Um estudo realizado em 2018 pelo Career Builder com 2.138 gerentes, por exemplo, constatou que dois terços deles consideram as habilidades adquiridas por mães (e pais) muito relevantes para o mundo do trabalho. Outro estudo, desta vez da Regus, mostrou que a maternidade é positiva à carreira das mulheres. Dos 26 mil executivos entrevistados mundo afora, 65% disseram que a presença de mães no ambiente corporativo pode aumentar a produtividade, a criatividade e melhorar o relacionamento com os clientes.

Mães + profissionais = soft skills

O mundo tem girado um bocado e hoje o próprio mercado já reconhece o valor das chamadas soft skills, conquistadas pela experiência materna e apontadas como as vedetes entre as habilidades requisitadas para o futuro (breve). Por isso, talvez a frase da Fernanda Takai nem causaria tanto impacto se dita hoje, o que entendo ser positivo até. Iniciativas ao redor do mundo reconhecem em mulheres que se tornam mães muito além de seus nomes, idades, contatos pessoais, formações, empresas onde trabalharam e atividades que desempenharam, o que normalmente se limita a estampar o curriculo vitae tradicional.

Nem tudo são flores, frutos e rebentos. Sei bem. Infelizmente muitas empresas não veem com bons olhos esse “estado interessante”, como bem definiu o compositor Nelson Cavaquinho ao se referir à gestação. Tanto assim que algumas mulheres abrem mão de viver a maternidade para ter mais condições de crescer profissionalmente. Fato: metade das profissionais que se tornam mães perde o emprego até dois anos após a licença maternidade, de acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Outro ponto: mães também são humanas e, naturalmente, erram. Portanto, não pretendo aqui romantizar a maternidade e fazer generalizações ao assegurar que todas as profissionais se tornam melhores após terem filhos. Afinal, regras guardam suas exceções. Mas prefiro, sim, sintonizar meu radar no dial de mulheres que tiram o melhor proveito desse revolucionário aprendizado da vida e no de empresas que crescem mirando melhores dias. Compartilho, então, algumas ações brasileiras. Ainda são poucas, mas minha intuição de mãe diz que podem crescer. Bastante.

Filhos no currículo

A consultoria Filhos no Currículo orienta empresas a promover a retenção e a atração de talentos, promovendo uma cultura de diversidade. Tudo isso para valorizar as famílias e um ambiente de confiança para profissionais com filhos. 

Contrate uma mãe

Idealizado por profissionais de RH, inovação e comunicação, o site Contrate uma mãe funciona como uma rede de apoio para a recolocação de mães no mercado de trabalho. As candidatas podem cadastrar seu currículo na plataforma, que tem parceria com várias empresas.

Rede Mulher Empreendedora

Muitas mulheres optam por empreender. Outras escolhem esse caminho por não conseguirem se recolocar no mercado de trabalho após a licença maternidade. Seja qual for a motivação, a Rede Mulher Empreendedora é uma iniciativa direcionada às mães que desejam abrir seu próprio negócio.

B2 Mamy Aceleradora

Ainda na vibe do empreendedorismo, a plataforma B2Mamy Aceleradora conecta mães a ecossistemas de inovação. “Nosso propósito massivo transformador é formar mulheres líderes e livres economicamente e prover dados para que o mercado reaja positivamente a esse novo status quo”, diz a missão da empresa.

Real Maternidade

O site Real Maternidade fornece conteúdos para munir mães de informação e conhecimento relacionados à maternidade e ao mundo do trabalho. Vídeos, posts, entrevistas, além de histórias reais e inspiradoras recheiam o portal.

Autor
Sou jornalista por formação, curiosa por natureza. Observo tendências com a mesma atenção que dedico à prosa antiga, lenta e saudosa. Sou otimista. Talvez por ser mãe de um pequeno, que me transforma e tem muito a me ensinar. Gosto da diferença de ideias, do diálogo, da troca, da soma (ou da multiplicação). Rascunho ideias, insights, sentimentos. Algo que ajuda a entender o mundo ou a torná-lo melhor. Com o tempo, finalmente percebo: o que parecia tão meu encontra vozes irmãs. Uma cumplicidade que diverte e traz conforto. Que seja esse o sentido (se é que é preciso ter um).

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