Sobre maternidade, feminismo e resoluções de ano novo

 Foto: Nicole Adams

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Nossa! O tempo voou, o ano novo está aí e já estamos no nosso terceiro café. Em nosso primeiro encontro falamos sobre o “Foco Triplo” e sobre como ele pode ser uma ferramenta fundamental para a abordagem infantil no âmbito escolar para despertar nos pequenos autonomia e escolhas conscientes. Já no segundo encontro, conversamos sobre o incrível Paulo Freire e suas pioneiras ideias subversivas que acabaram por influenciar diretamente o nascimento da Escola da Ponte, que traz em seu projeto pedagógico a disrupção da compartimentação que permeia modelo educacional tradicional.

Hoje, estou aqui pra falar contigo sobre uma mulher incrível cuja trajetória venho acompanhando há um bom tempo. Negra, nigeriana, escritora e feminista, Chimamanda Ngozi Adichie, despontou na imprensa internacional depois de, em 2012, protagonizar uma célebre conferência no TED que já rendeu quase 1,5 milhões de visualizações: “Todos nós deveríamos ser feministas”.

 

O discurso de Chimamanda é tão forte e coerente que foi incorporado na música “Flawless” lançada em 2013 pela cantora americana Beyoncé e, com isso, ganhou ainda mais notoriedade.

Créditos: MTV

Autora do singelo livro de quase oitenta páginas e de leitura fácil — “Para educar crianças feministas: um manifesto” — Chimamanda me inspirou a escrever para passar adiante uma lista de valiosos conselhos e dicas que ela dá a uma amiga grávida sobre como criar sua futura filha, atenta à fundamental presença da mulher como ser social nessa realidade machista tremendamente complexa.

Apesar do regionalismo africano ditar o rumo da prosa, os conselhos são universais, devendo inspirar não só as mães nigerianas, mas todas aquelas que esperam que seus filhos e filhas cultivem valores sociais de igualdade, sem distinções de gênero de qualquer espécie.

Antes de tudo, a autora traz a premissa que deve nortear todos os conselhos que se seguem: “eu tenho valor, eu tenho igualmente valor e ponto final.”

Sugere que a ferramenta para colocar em prática a premissa é fazer a seguinte pergunta: podemos inverter os papéis e ter os mesmos resultados?

Por exemplo: as pessoas acreditam que, diante da infidelidade do marido, a reação feminista de uma mulher deveria ser deixá-lo. Mas, perdoar também seria uma escolha feminista dependendo do contexto. O mesmo aconteceria se você dormisse com outro homem? Se a resposta é sim, e por isso você decide perdoar, sua decisão pode ser uma escolha feminista, porque não reflete a desigualdade de gênero.

Lamentavelmente, porém, na maioria dos casamentos a resposta a essa pergunta seria negativa acompanhada daquela ideia repugnante de que “o homem é assim”, o que significa que os padrões sociais estabelecidos para eles são mais baixos.

Vamos à lista de conselhos de Chimamanda para criar crianças feministas:

1. Seja uma pessoa completa

A primeira sugestão que a autora deu a sua amiga foi: seja uma pessoa completa!

A maternidade, sem dúvidas, é uma dádiva, mas não se defina apenas por ela. Seja uma pessoa completa, com seu trabalho, seus afazeres e suas responsabilidades. Vai ser bom para sua filha ter esse referencial. Nas primeiras semanas da maternidade, seja boa com você mesma, peça ajuda. Essa história de “supermulher” não existe! Criar os filhos é questão de prática — e de amor.

Permita-se falhar. Não pense que precisa saber de tudo. Leia livros, jogue no Google, pergunte aos universitários, vá por tentativa e erro. Mas acima de tudo, foque em ser uma pessoa completa. Tire um tempo para si, atenda as suas necessidades pessoais — sem essa de pensar que você “dá conta de tudo”. Apesar de nossa cultura enaltecer as mulheres superpoderosas, raramente questionamos a premissa desse suposto enobrecimento. As tarefas de cuidar da casa e dos filhos, de dedicar ao emprego e ainda se embelezar trazem essa ideia já socialmente estabelecida de que mulheres dão conta de tudo. Mas não precisa e nem deve ser assim: o trabalho com a casa e os filhos não deveria ter gênero. A pergunta que deveríamos fazer não é se a mulher dá conta de tudo, mas sim como contribuir para o casal em suas obrigações tanto no trabalho quanto no lar.

2. Façam juntos

Seguindo essa linha de raciocínio, Chimamanda já dispara a segunda sugestão com a seguinte frase: “Façam juntos”.

Não peça ajuda ao pai do seu filho. O simples fato de encarar o cuidado do pai com os filhos como uma ajuda sugere que, muitas vezes, as próprias mulheres tratam desse assunto como exclusivo território materno, no qual os pais se aventuram corajosamente a entrar. Definitivamente, não é! Quando o pai “ajuda” a mãe a cuidar da prole, ele apenas faz o que deveria fazer.

O que observamos é que, por vezes, as mães se sentem tão atormentadas por um senso socialmente condicionado de dever perante os filhos, que são cúmplices na redução do papel do pai. A mulher, enquanto mãe, deve abrir mão do seu perfeccionismo e liberar espaço para que o pai da criança dê vazão à paternidade. Divida as tarefas entre o casal e abandone, de uma vez por todas, a linguagem da “ajuda”. Imagine quantas pessoas seriam hoje mais equilibradas, altruístas e colaborativas se os pais tivessem uma presença mais ativa durante a infância delas?

Imagem: Reddit

E ainda que o pai adote um papel genuinamente participativo na criação dos filhos, ele não merece elogios ou especial gratidão. Nem mesmo a mãe. Fiquem atentos: ambos devem ter igual responsabilidade com a criança que juntos colocaram no mundo.

3. Papéis de gênero são absurdos

A terceira sugestão é ensinar a sua filha que “papéis de gênero são completamente absurdos”. Dizer que o que ela deve ou não fazer pelo fato de ser menina é ofensivo, às vezes, à sua própria natureza. Entendam: saber cozinhar, cuidar da casa, lavar a roupa não são atributos contidos em um chip pré-instalado na vagina. Cozinhar, por exemplo, é uma habilidade que se adquire durante a vida, de acordo com interesses pessoais de cada um, que teoricamente tanto homens quanto mulheres estão aptos a ter ou não. O estigma das cores correspondentes a cada sexo também entra nessa história. A dualidade rosa-azul não tem razão de ser! As roupas infantis ideais são aquelas tomadas de cores. Todas elas. E bem vivas!

E os brinquedos então? Boneca pras meninas e carrinho pros meninos. Quantas meninas não teriam revolucionado o mercado predominantemente masculino, tornando-se engenheiras, físicas e pilotas de avião se não tivessem sido direcionadas a gostar de boneca? Colocar a “camisa de força” do gênero na criança limita o alcance de todo seu potencial. A filha deve ser encarada como indivíduo, com seus pontos fortes e fracos. Deve ser estimulada não a comportamentos de gênero pré-definidos, mas sim a buscar a melhor versão de si mesma a partir da identificação de suas melhores características e aptidões.

Ensine-a a rejeitar os estereótipos desde o início e a como ser autônoma. Conte a ela que ela pode ser e fazer o que quiser. Diga a sua filha que é importante fazer por si mesma e se virar sozinha. Deixe-a tentar. É tentando que se experimenta, que se aprende, que se empodera.

Imagem: blog Oxente, Menina

4. Estimule o gosto pela leitura

O quarto conselho — ensinar sua filha o gosto pela leitura — apesar de básico e unânime, é igualmente primordial para o despertar de uma inteligência feminista. Os livros vão ajudá-la a entender o mundo, questionar as relações e verdades pré-concebidas e inspirá-la a se expressar de forma mais autêntica. Se ela não se despertar para a leitura de cara, trabalhe com o sistema de recompensas: pague centavos por página lida ou ofereça um sorvete a cada livro concluído. O investimento valerá a pena!

5. Ensine a questionar a linguagem

Outro importante conselho que a autora traz é ensinar sua filha a questionar a linguagem, que acaba se revelando como um grande repositório de preconceitos, crenças e convicções. Chamar a filha de “princesa”, por exemplo, é algo complicado. Ainda que o uso da palavra venha carregado de boas intenções, “princesa” traz um pressuposto de fragilidade, da ideia que sua redenção se dará apenas com a chegada de um príncipe encantado.

Ensine sua pequena que as mulheres não estão dentro de uma redoma de vidro ou de uma torre alta à espera de ninguém. Não precisam ser defendidas ou reverenciadas, só necessitam ser tratadas como seres humanos iguais. Faça-a entender que muitos tentarão convencê-la que cavalheirismo e gentileza não necessariamente refletem machismo, mas ensine-a a negar e questionar as ações que se mascarem disso pois, em verdade, revelam a reafirmação da fragilidade feminina nas relações.

6. Nunca fale do casamento como uma realização

Eis a próxima sugestão de Chimamanda. O casamento não deve ser algo que a menina deve aspirar como uma conquista na vida. E infelizmente acabamos instigando nossas filhas com essa ideia, enquanto o mesmo não ocorre com os meninos. Isso, de antemão, já desperta nelas uma preocupação com o casamento que as acompanha por toda infância e juventude, o que, por parte dos meninos não existe simplesmente porque o estímulo em relação ao homem é reverso.

Essas meninas, quando mulheres, se casarão assim com homens que não percebem a instituição com a importância que elas atribuem, tornando a relação conjugal automaticamente desigual, desequilibrada. Ao tentar manter essa troca desigual, seja por pressão social, seja pela ignorante importância que dá ao matrimônio, as mulheres acabam se frustrando constantemente, principalmente quando percebem que muitos maridos acham que, no fim das contas, estão lhes fazendo um grande favor ao ter lhes escolhido para casar.

E essa história da noiva jogar seu buquê às convidadas? Já pararam para pensar? Enquanto todas as solteiras, quase como que num protocolo, se digladiam para alcançar o arranjo de flores num dos momentos mais emblemáticos de uma festa de casamento, os homens permanecem onde estão, intocados com suas respectivas bebidas a tira colo e, como plateia, ensaiam sorrisos sarcásticos ao observar todo aquele circo se formar. Por que eles também não entram na roda? Afinal, eles, cedo ou tarde, não pretendem se casar?

Cantora Cher fala sobre casamento em entrevista à jornalista americana Jane Pauley, em 1996: “Eu amo os homens, acho que homens são legais, mas você não precisa deles para viver. Minha mãe me disse: ‘Sabe querida, um dia você vai sossegar e se casar com um homem rico’. Eu disse: Mãe, eu sou um homem rico.” Maravilhosa, não?!

Partindo dessa ideia, a autora questiona ainda o costume de incorporar o nome do marido ao da esposa após o matrimônio. Porque o casamento muda o status social da mulher e não muda o do homem? Que real vantagem a mulher tira dessa história toda se o mesmo não se nota do outro lado? Ora, numa sociedade justa não se deve cobrar das mulheres mudanças devido ao casamento que não se cobram dos homens!

A solução pra essa encruzilhada seria talvez a criação de um sobrenome completamente novo após o casamento, concebido pelo casal, em comum acordo. Talvez assim o matrimônio passasse a ser encarado pelas mulheres e pelos homens como um marco de vida com a mesma importância tanto pra um quanto pro outro.

7. Ensine a não se preocupar em agradar

Simples assim. Cobrar que as meninas sejam agradáveis, boazinhas e fingidas para passar uma suposta boa impressão é perigoso! Primeiro porque esse comportamento estimula a falta de voz ativa, a permissividade, colocando a mulher como alvo de constante abuso, que permanecerá calada por ter que agradar, ser boazinha. Segundo porque coisa igual não se ensina aos meninos. Terceiro, pois a menina deve ser ela mesma, plena em sua personalidade, consciente de seus desejos e, mais, da honestidade consigo e com o outro.

8. Esteja atenta às atividades e à aparência de sua filha

Incentive sua filha aos esportes, a ser ativa, corram juntas. Isso é importante não só por conta dos óbvios benefícios à saúde, mas porque pode ajudar com as inseguranças quanto à imagem do corpo que a sociedade lança sobre as meninas, principalmente na puberdade, quando as mudanças hormonais e estéticas começam a acontecer. A tendência da jovem nessa fase é largar os esportes, pois a percepção de si mesma pode atrapalhar nessa prática das atividades físicas. A própria autora, por exemplo, confidencia que deixou de jogar futebol após a puberdade porque os seios dela cresceram e a vontade acabou sendo escondê-los o máximo possível. Então adverte: tente fazer com que isso não atrapalhe sua filha.

Se ela, aliás, quiser se maquiar ou usar a roupa da moda, deixe-a. Se ela não quiser, deixa-a também. Criá-la como feminista não significa incentivá-la a rejeitar a feminilidade. “Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes”.

9. Não associe aparência à moral

Chimamanda segue aconselhando para nunca, em hipótese alguma, associar a aparência de sua filha à moral. Nunca lhe diga que saia curta é “indecente”. Associe a roupa à estética, à beleza, mas nunca à moral. Exemplo: se sua filha veste-se de uma forma que não lhe agrada, se limite a dizer que não gostou porque a roupa não fica bem nela ou simplesmente é feia, jamais que ela está se oferecendo, ou algo do tipo. As roupas não têm qualquer relação com a moral.

“Tente não associar cabelo e dor”, principalmente quando se está diante de um exuberante cabelo crespo, comum entre as nigerianas. Tive, diga-se de passagem, a oportunidade de ler o artigo concebido pela nossa querida colega Jessica Gomes, aqui mesmo, no portal do GUAJA, no qual ela fala bem das cobranças sociais em relação à aparência dos cabelos, das tentativas frustradas de tentar se enquadrar no suposto tipo de beleza que se valoriza: aquela retratada na televisão, filmes e revistas em sua maioria. A pele branca, o cabelo liso ou levemente ondulado, que cai ao invés de ficar armado.

Afirme e reafirme à sua filha o lindo, único e autêntico tipo de beleza que ela tem, como forma de incentivar sua alta estima e protegê-la para que não se sinta insatisfeita ao se encarar diante do espelho. Cerque sua filha de muitas tias, primas, amigas que você admire e ensine-a a admirá-las também. Cerque-a ainda de homens, inclusive os mais fanfarrões, para que ela tenha referenciais e desde cedo comece a criar novas alternativas para driblar investidas desagradáveis.

Mostre à sua filha que o uso seletivo da biologia como razão para as normas sociais em nossa cultura é inadequado e questionável. Há uma absurda tendência de usarmos a biologia para explicarmos os privilégios históricos que os homens têm, muitas vezes ligadas à suposta “superioridade” física masculina. Não há como discordar que em geral, os homens são fisicamente mais fortes que as mulheres, mas a biologia evolucionista jamais pode justificar, por exemplo, a promiscuidade masculina, mesmo porque, sob o ponto de vista biológico, as mulheres, pela alta carga hormonal que carregam, possuem necessidades de se relacionar sexualmente às vezes até superior a dos homens.

10. Fale sobre sexo

Com gancho nesse assunto, a autora sugere: converse sobre sexo desde cedo com sua filha. Apesar de ser no primeiro momento constrangedor, é extremamente necessário. Não a deixe pensar que o ato sexual é uma “mera ação reprodutiva controlada” ou algo que deva ocorrer somente sob o manto do casamento. Ora, isso é uma grande mentira embasada em questões eminentemente religiosas e culturais.

Diga a ela que o sexo pode ser algo lindo e que, além das consequências físicas — como o orgasmo ou até uma gravidez — também pode ter consequências emocionais. Faça-a entender que o corpo dela pertence a ela e somente a ela, e que nunca deve se sentir compelida a dizer “sim” a fazer algo que não queira ou que se sente pressionada a fazer. Falar “não” quando sentir que é o certo é motivo de orgulho e não de vergonha.

Advirta que o ideal é que ela espere se sentir adulta para se relacionar sexualmente com outras pessoas. Mas prepare-se se ela encontrar a maioridade para isso antes dos dezoito anos, não deixando de explicá-la sobre a responsabilidade tremenda que essa decisão carrega em si.

Mostre-a que sexo é natural, faça que ela se sinta à vontade ao tratar do assunto com você e estimule-a a lhe contar sobre as experiências sexuais vivenciadas. Estabeleça uma linguagem amistosa para tratar do assunto com ela, mas se certifique de comunicar com clareza, se valendo, por exemplo dos nomes biológicos dos órgãos sexuais — pênis e vagina — ao falar sobre. Não faça muitos rodeios. Se não se sentir à vontade com eles, use outras nomenclaturas, desde que estas não venham carregadas de vergonha. Aliás, se liberte das vergonhas que você herdou, por mais difícil que seja. A vergonha que se atribui à sexualidade feminina está ligada a uma questão de controle. Muitas religiões e culturas controlam o corpo da mulher, sem que isso se refira ou beneficie a ela mesma. A figura feminina acaba sendo reduzida a um acessório masculino, que deve se portar de modo X ou usar a roupa Y para ser respeitada, admirada ou elegível a um casamento.

Mais uma vez: jamais associe sexo e sexualidade com vergonha. Questões como virgindade ou menstruação, por exemplo, devem ser tratadas abertamente, de forma natural, afinal, reflete a mais pura biologia feminina. Os períodos menstruais são normais, orgânicos e a espécie humana certamente não estaria aqui se eles não existissem.

11. Apoie a vida amorosa de sua filha

Mais um sensato conselho de Chimamanda: dê suporte a sua filha nos romances que porventura a fisguem. Fique a par das pessoas que estejam ao lado dela e mostre-a que amar não é só doar, mas também receber. Geralmente ensinamos às meninas que um grande elemento da sua capacidade de amar está ligado a sua capacidade de se sacrificar, mas o mesmo não é ensinado aos meninos. Incentive-a a se entregar ao amor — pois isso é umas das maiores belezas da vida — mas faça com que ela compreenda que o relacionamento, para fluir, deve ser uma via de mão dupla e que ela também deve esperar receber amor, na mesma medida do sentimento que ela doou.

A autora aconselha também que os pais e mães, ao ensinar seus filhos sobre opressão, não tentem converter os oprimidos em santos. Nas palavras de Chimamanda, “a santidade não é pré-requisito da dignidade”. Pessoas moralmente desvirtuadas também merecem dignidade. A tendência é que os discursos sobre gêneros venham tomados da ideia de que as mulheres seriam moralmente “superiores” aos homens. Não são. Mulheres são humanas, tanto quanto os homens. A bondade e a maldade não comportam distinção de gêneros, são manifestações da natureza humana, não algo exclusivamente feminino ou masculino. Estimule sua filha a gostar de outras mulheres, a sempre ser empática com a situação de suas semelhantes. Incentive-a a uma postura feminista e reprima toda aquela porventura influenciada pelos tóxicos dogmas do patriarcado.

12. Ensine sobre diferença

A última sugestão da escritora é ensinar sua filha sobre a diferença. Torne a diferença normal e tente não atribuir juízo de valor a ela. A diferença é a realidade que permeia a existência humana e, ensinando-a sobre isso, você a prepara para sobreviver a um mundo tomado de diversidade. Ensine-a a nunca universalizar suas convicções ou vivências pessoais. Essas valem apenas para ela mesma e não para outras pessoas. Cada um percorre um caminho único, vive diferentes histórias, se relaciona com pessoas distintas e, a partir disso, vai moldando noções individuais acerca do mundo. Tal noção acabará levando ao despertar da sua filha para a humildade e para a empatia desde cedo.

Chimamanda finaliza a carta desejando que a filha da amiga “seja cheia de opiniões, e que essas opiniões provenham de uma base bem informada, humana e de mente aberta. Que ela tenha saúde e felicidade. Que tenha a vida que quiser ter”.

Foto: Loren Joseph

Percebem a tamanha importância desses sutis ensinamentos para a criação de uma menina para torná-la uma mulher consciente e independente? O empoderamento e o feminismo são, afinal, comportamentos que devem ser estimulados desde cedo, dentro de casa.

A tomada de consciência feminista, aliás, vem alcançando dimensões que extrapolam o campo da criação infantil, manifestando-se nos textões contendo narrativas de abuso que vêm inundando o Facebook, nos mais diversos movimentos sociais de protesto que invadem as ruas, nas denúncias que aportam nas delegacias num ritmo avassalador e até mesmo na arte contemporânea.

É o exemplo do painel concebido em dezembro de 2017 pela artista argentina Milu Correch na empena cega do prédio da garagem São José, no centro da cidade de Belo Horizonte. Na segunda edição do projeto CURA — Circuito Urbano de Arte, a capital mineira acabou, em seu 120º aniversário, ganhando de presente uma fantástica pintura, em proporções magnânimas (56 metros), de duas figuras femininas nuas dançando a liberdade como num ritual, mostrando a força e a potência da mulher.

Foto: @area.de.servico

Para uns, uma verdadeira afronta à tradicional família mineira, para outros, e espero que seja a maioria, uma conquista para o movimento feminista, um escancaramento de uma realidade por tempos esquecida e mascarada pelo patriarcado. Mirar os holofotes para as cruas curvas da mulher nua, em pleno centro de Beagá, mais que reafirmar a obsolescência do machismo, coloca o feminismo em pauta e traz esperança para um mundo em que a desigualdade de gênero não tenha passado de um pesadelo difícil de acordar.

Bem-vindo, ano novo! Que o poder e a voz ativa que a mulher vem conquistando a largos passos se expandam mais e mais, contagiando aqueles que ainda insistem em viver o indigesto machismo. E que essa consciência — sim! — desponte como um legado a ser passado adiante, cada vez com mais força, às futuras gerações.

Autor
Cresci cheia de perguntas sem nunca me convencer das respostas. Minha teimosa curiosidade e alma inquieta sempre me fizeram questionar o mundo e a forma como me ensinaram a enxergá-lo.  Desde esse tempo, aliás, flerto com a "Educação", questionando suas fórmulas comportamentais e acompanhando o movimento criativo que gira em torno das mudanças nesse espaço. De Cecília Meireles a Paulo Freire, da tabuada decorada da professora do primário às longas prosas nos cafés da tarde com o Vovô, sou um todo fragmentado, inteira na minha incompletude e certa de que a vida é mesmo feita de trocas: de afeto e de conhecimento.  Hoje, Eugênia, (re)construo o mundo sob a minha ótica - por vezes, meio míope – e o pincelo com minhas cores. Se meus devaneios e reflexões tocarem ao menos um de vocês, já terá valido a viagem.

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