Mergulhar, para nunca mais voltar

 

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Quero falar da morte sob a perspectiva literária, na tentativa de torná-la mais palatável. Se possível, subverter o real insuportável por algum lirismo. Descobri que estejamos ou não preparados para a morte a vida segue impassível sem ouvir meu testemunho dessa dor que atravessa o corpo e se aloja.

O sol não só nasceu no dia seguinte à perda como foi implacável e viril. Sequer reparou que o coração batia golpeado. A vida dele ainda vibrava em mim. Mas a quem importa, senão ao enfrentamento de uma equivocada convicção de imunidade?

Súbita foi a morte, não menos fugidia sua compreensão. Vi em estado de levitação que o corpo descia, colocaram terra, muita terra em cima, fecharam a cova, como quem dá de comer aos urubus. Era preciso resistir e tocar a terra com meus pés. Sequer tive tempo de espantar os urubus que me espreitavam sem que soubesse e convidados fossem.

Era dia ainda, o sol seguia castigando. Fomos ali tocar a vida e almoçar. Mesa bem-posta, em uma cabeceira vazia, para uma refeição de família, que jamais experimentara perda igual. Sem ele, pela primeira vez, comemos mudos.

“Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida. Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou”. É da pena de Wislawa Szymborska, poeta polonesa que se adiantou a mim por anos.

Foi escavando que cheguei a ela e à definição da morte como um mergulho para uma profundeza de nunca mais voltar, mas que aponta para o renascer quando e onde eu possa capturar. Sem mais temer, o que se preservou permanece intocável e, por eterno, sagrado.

Se me acometesse igual inspiração literária por competência ou imaginação, traria para a aventura de escrever a certeza de que apesar de inscrito o luto, leve levo o luto. Para além do espírito alquebrado, continuamente digo “não sei”. Mas Wislawa sabe que em “nosso plano para o amanhã, a morte tem a última palavra, sempre ao lado do ponto”.

Ponto. A aventura da inspiração pode ser letal, mas trespassada pelo amor. Agora eu sei.

Antes do ponto final, com todas as licenças poéticas devidas, e com o súbito da morte ainda a soprar a nuca, peço a poeta iluminada que me deixe sussurrar brandamente ao meu irmão: “Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso? Fiquei muda de surpresa. Escuta, como seu coração dispara em mim”.

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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