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Eu não era feminista. Nunca precisei ser. Cresci numa família muito equilibrada nesse sentido. Perceba a utilização do pronome demonstrativo que por muito pouco não assume a função restritiva. Então casei com um cara seguro de si e orgulhoso de mim, um desses homens que te colocam no jogo de igual pra igual. Eu não sei o quão raro isso é, mas reconheço a minha sorte. Pari dois meninos e mais uma vez fiquei numa posição confortável. E vamos combinar uma coisa? A gente não consegue se engajar em cada luta que acha justa e válida como se não houvesse amanhã. A causa precisa te causar.

Eu sempre soube das atrocidades que geral da mulherada sofre. Eu sempre tive consciência da falta de respeito e da sacanagem de violação de direitos e vidas de mulheres. Mas ficava ali, acenando da sacada.

Pode ser que eu tenha uma certa dificuldade com o tom. Acredito que até mesmo pelo caráter inerente de luta pela sobrevivência, o discurso feminista em geral, me parece por vezes árido demais, quase agressivo. E ainda existe outra coisa que me incomoda, uma espécie de “purismo” de bitola muito estreita que determina quem pode e quem não pode fazer parte da turma. Se você não vai à praia de biquíni e fica desconfortável com a sua barriga mole, você está cuspindo nas conquistas de direitos que tivemos, se pondo a serviço do discurso perverso da misoginia e confirmando o ideal midiático de juventude e beleza. Não, pô! Apesar de saber como a banda toca eu tenho a opção de escolher como exponho ou não o meu corpo. Isso não precisa ser visto numa perspectiva política assim como o fato de eu não gostar de coentro não é. Percebe?

A reprodução automática de padrões prescritos a gente sempre vai fazer, em maior ou menor escala, aqui ou acolá. Nós estamos no mundo e somos determinantes e determinados por ele. É infantil pensar que o modelo estabelecido é completamente exterior a você, e sempre ditado pelo outro impiedoso. Existe aí uma espécie de simbiose intrincada de corresponsabilidade. O que está ao nosso alcance é a tomada de consciência e o reconhecimento do inimigo para evitar cair na arapuca. Agora, caiu em tentação? Não se livre do mal. Aprenda com a queda, sacuda a poeira e advirta o colega. Não é feio reconhecer que você tem seus deslizes vez por outra. Triste é passar a vida inteira tentando encaixar num personagem com um só ângulo de visão (“o certo”) e todo paramentado no discurso vazio.

No ano de 2016 a cantora Madonna foi eleita a mulher do ano pela Billboard. O discurso dela ao receber a premiação foi icônico e de uma importância absurda pra mim. Sabe aquele momento que você escuta a campainha da vida? Soou alto. Dentre muitas coisas admiráveis e corajosas que ela disse, Madonna contou que Camillie Paglia, escritora feminista, a acusou de fazer com que as mulheres retrocedessem ao se objetificar sexualmente. A cantora questionou se deve existir essa relação estreita entre o feminismo e a negação da sexualidade (contém doses de ironia, ok?). Com aquela conhecida atitude desafiadora, ela resolveu a querela se definindo como uma feminista diferente, uma feminista má. Material Girl a serviço da sua própria sexualidade, baby.

Esse é o meu ponto. Por não me acomodar perfeitamente no viés feminista (ou aquele registrado no meu imaginário), me tornei uma feminista acomodada, estranha à causa pelo manjado mecanismo de defesa. Antes que me rejeitem, rejeito eu. Essa divisão entre mulheres que prestam e as que não prestam para a evolução da caminhada é, além de perversa, paradoxal em si. O feminismo deveria ser o lugar mais seguro do mundo para todas as mulheres.

Tenho pensado sobre o meu posicionamento desde então e observado que sou e sempre fui feminista sim, só que à minha maneira. Acredito que cabe somente a mim escolher o meu modo de atuação desde que minhas ações busquem promover e suportar à próxima.

Tenho feito escolhas de apoiar (intelectual, financeiro e propagador) iniciativas de mulheres que estão no fronte, que se organizaram e tem a precisa fluidez na causa. Isso não me faz menos importante porque não existe lógica hierárquica aqui. Tenho lido mais livros escritos por mulheres, escolhas feitas intencionalmente. Tenho pensado muito, muito, muito, antes de fazer algum juízo de valor negativo a respeito de outra mulher. Estou escrevendo esse texto. Tenho buscado ser cuidadosamente mais empática com as outras. Quando cruzo olhares com outra mulher na rua procuro abrir um sorriso, comunicação não verbal de “tamo junta, colega”. Se a timidez permite, planto um elogio bacana durante uma conversa casual. Acredito na importância e na força desses gestos, mesmo assim pequenininhos. Percebe que você também pode escolher a sua forma de entrar na luta? E se vierem falar que isso não é suficiente ou que você é uma feminista de boutique, responda como a diva: “F*** You”!

Seja o seu feminismo roxo ou cor-de-rosa, só tenha em mente uma coisa: nunca diminua outra mulher para se sentir melhor. Essa é a maior trucagem que o patriarcado arquitetou para nos desbancar: a rivalidade feminina. Se estivermos num constante embate umas com as outras, se nos boicotarmos sucessivamente, a paz reinará no mundo posto. Se a gente conseguir seguir essa regrinha capital como uma espécie de primeira emenda da constituição americana, estou certa de que estaremos ladrilhando o caminho no qual o feminismo há de se tornar inútil já que estaremos ocupados com o nosso propósito primeiro de ser humano.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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