A luta quixotesca da Moinhos

 Don Quijote de Johann Baptist Zwecker, 1854

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Em 2016, o cearense Nathan Matos, que começava um doutorado na UFMG, decidiu encarar o desafio de abrir uma editora em Belo Horizonte. Agora, às vésperas de comemorar o segundo aniversário da Moinhos, ele contabiliza 45 livros de crônica, poesia, conto e romance publicados em parceria com a cofundadora Camila Araujo. Entre os títulos publicados, estão Como e porque sou romancista, de José de Alencar, Últimas peripécias, de Filipe Pinho, e Bienvenidos, de Susana Berbert.

Foram cinco anos de aprendizados, sendo dois na Moinhos, para o editor que começou a carreira como hobby e foi transformando, aos poucos, o que era feito informalmente em carreira profissional. “Eu comecei a produzir livros de outras pessoas porque achava que os livros delas teriam que estar no mundo, e daí me vi no melhor trabalho do mundo, fazer algo que eu gosto”, conta.

Agora, o editor organiza a segunda edição de Pensar Edição, Fazer Livro, evento que ocorre em 26 de maio na Academia Mineira de Letras no qual editores, livreiros e jornalistas terão a oportunidade de discutir alguns aspectos da produção editorial, como tradução, divulgação e o relacionamento com livrarias. O encontro é feito em parceria com Ana Elisa Ribeiro, professora do CEFET-MG, e com o Grupo de Pesquisa em Escritas Profissionais e Processos de Edição.

Nesta entrevista, ele fala sobre as dificuldades e vantagens de se ter uma editora, sobre o papel do independente no mercado editorial e as dificuldades de fazer o livro chegar ao leitor.

Flávia Denise: Qual é o papel de uma editora numa cena literária como a brasileira?

Nathan Matos: Eu sempre pensei que a posição de uma editora, independente do local em que se encontra, deve ser contribuir com a sociedade. Deve produzir obras que ajudem a esclarecer determinados assuntos e, mais do que isso, criar ações que possam ajudar a construir uma sociedade “melhor”. A ideia que se tem das editoras é que elas publicam livros apenas para “ganhar dinheiro”. Eu entendo que essa seja uma “ideia fixa” de muitos e muitas que desconhecem o mercado, porque estão acostumados a irem até as livrarias e encontrar mais facilmente livros que vendem algumas milhares de cópias.

Mas, talvez, seja necessário ampliar o olhar e perceber que ao lado de editoras totalmente comerciais existem aqueles que possuem um olhar mais preocupado com o bem-estar, digamos assim, do meio em que está inserida e acaba por apostar em obras de autores e autoras estreantes, de apostar em livros que trazem temas que são pouco estudados ou pouco divulgados apenas porque “não se consegue vender” tais livros.

As editoras independentes, eu colocaria assim, tem um papel importantíssimo, pois acaba criando um “mercado paralelo” ao que já está instaurado no país. Há quem diga que a formação das pequenas editoras independentes nesta última década contribuiu diretamente para que mais feiras de literatura pelo país pipoquem, para que mais obras que teriam difícil difusão ganhem as prateleiras de algumas livrarias. Pensando assim, eu acho que o papel de uma editora é esse, sempre encontrar em que local está o furo, achar aquela obra que possa contribuir para tentar virar esse jogo já instaurado no meio.

E por que abrir uma editora nos dias de hoje em Belo Horizonte?

Eu não saberia responder a essa pergunta de maneira específica. No caso da Moinhos, casa em que sou editor, ela nasceu simplesmente porque aqui resido. Se eu estivesse em qualquer outra cidade do país, talvez, eu teria aberto uma editora de qualquer forma. Mas abrir uma editora nos dias atuais acho que é um pouco do que disse na primeira pergunta, é tentar contribuir mesmo com o que está a nossa volta.

Qual é a maior dificuldade em manter uma editora?

Eu mudaria a pergunta para o plural, na verdade as dificuldades são muitas. Apesar de estar editando há cerca de seis anos, uma coisa que pode atrapalhar a manutenção de uma editora, mais do que distribuição ou qualquer outra coisa, é não ter um plano de negócios bem pensado. Digo isso porque comecei a editar por hobby, literalmente. Eu comecei a produzir livros de outras pessoas porque achava que os livros delas teriam que estar no mundo, e daí me vi no melhor trabalho do mundo, fazer algo que eu gosto. Mas, depois de um tempo, você percebe que você precisa pagar aqueles papéis que chegam por debaixo da porta e vê que não pode viver se iludindo e achando que o hobby vai te manter, não. Infelizmente, a gente acaba tendo que colocar os pés no chão e perceber que o que se tem é uma empresa. É fato. Assim como o livro é um objeto de arte, para mim, ele também é um produto. Tem que se ter isso bem definido. Ao mesmo tempo, não pode deixar que aquilo que lhe levou a editar desapareça. Para mim, uma das maiores dificuldades é ter a consciência de que eu edito livros não apenas para pagar contas, mas porque gosto, porque amo o que faço e porque quero trazer muitas coisas novas para o mercado editorial, seja nacional, seja estrangeiro.

Além disso, realmente, é quase unânime que a palavra “distribuição” é o maior problema no Brasil, principalmente para pequenas editoras. Há uma dificuldade de se espalhar os livros por aí se você não tem uma distribuidora ou um representante comercial. Pouca gente sabe, mas conseguir uma distribuidora para levar seus livros até as livrarias pode ser uma verdadeira epopeia. Geralmente, elas não querem pequenas editoras, devido ao catálogo, que dificilmente terá saída. Mas se você consegue uma distribuidora, há um outro problema, ela não vai ser sinônimo de vendas.

Você precisa de alguém que vá até as livrarias, fale com as pessoas responsáveis pelas compras, tem de apresentar o catálogo, daí sim vai se conseguir criar um elo entre editora-distribuidora-livraria. Mas conseguir isso é difícil, porque pagar um representante e ainda ter que deixar boa parte do percentual da venda para essas duas outras envolvidas pesa muito, e uma pequena editora dificilmente pode conseguir manter isso. Para além disso, ainda acho que é preciso manter esse elo, porque isso é importante para o mercado do livro.

E quais são as partes boas?

Ah! As partes boas (risos), é ver o livro chegando da gráfica, é publicar alguém que você admira, ou ver a carreira de um autor ou autora que você pensou: “Essa pessoa vai longe, eu quero estar ao lado dela”. Ter a percepção de como as coisas se desenvolvem e como algumas ideias que você aposta podem dar muito certo, mesmo quando os descrentes falam: “Xiiii, isso aí não vai dar em nada”.

É participar de feiras, debates e conhecer outras pessoas do meio e perceber que há pessoas que realmente estão querendo mudar algo, que estão dispostas a atuar de maneira colaborativa, mesmo que algumas ainda achem que se manter isolada seja a melhor postura. Eu tenho percebido que, pelo menos entre as pequenas e médias editoras, as pessoas estão mais abertas a ouvir e a tentar. E isso, no meu entendimento, é o necessário.

Não se pode apostar apenas em projetos que vão dar certo “com certeza”. É preciso arriscar, é preciso publicar um feroês, das Ilhas Feroês, mesmo que ninguém nem sabia da existência desse lugar, quanto mais de um poeta de lá, e trazer ele ao Brasil para lançar um livro. E essas “loucuras” só são possíveis com parcerias. Por isso, eu quase sempre digo sim a vários projetos que me chegam. Quanto mais impossíveis melhor, até porque o meu lema é um verso de Orides: “Só existe o impossível”.

Vocês trabalham com uma linha editorial específica?

Eu posso dizer que a gente tem uma linha editorial em mente. Sabíamos que iríamos publicar autores e autoras estreantes, mas que queríamos resgatar algumas obras clássicas, como o livro do José de Alencar, que lançamos ano passado (Como e porque sou romancista), e também tínhamos definido que queríamos montar um catálogo recheado de livros traduzidos. Isso está acontecendo, lentamente, mas está.

O nosso primeiro poeta estrangeiro foi o Carl Johán Jensen, o feroês que citei, com tradução direta do feroês pelo Luciano Dutra. Agora, está chegando à casa a poeta portuguesa Adília Lopes. Então, para a gente, é um marco, é como um divisor de águas, como se diz por aí. Mas não sei se o intuito é manter ela tão específica, talvez, por enquanto, mas não quer dizer que ela vá se manter assim.

De nossos quase 50 livros publicados, em quase dois anos (completaremos agora em maio), dois gêneros se destacam, dois gêneros já ouvi dizer que as pessoas não leem e que não vendem: a poesia e o conto. Diria que 80 ou 85% do nosso catálogo é voltado para eles. Mas os romances estão surgindo, já há alguns publicados, e também, aos poucos, livros acadêmicos estão chegando. Como venho da academia, seria impossível me desvincular dessa produção. Esse ano, no segundo semestre, boas coisas acadêmicas irão ser publicadas, voltadas para a literatura, num primeiro momento, mas a ideia é publicar temas de áreas de humanas.

Fora isso, nosso primeiro livro infantil está por chegar, lançamos agora o primeiro de não-ficção. Então, é isso, um catálogo está sempre em construção. Apesar de termos muitas coisas definidas, isso não impede de, no futuro, a gente publicar livros de gastronomia, música, cinema ou qualquer outra coisa. A gente só cresce enquanto editor se nos dermos essa possibilidade de aprendermos com todos os tipos de gêneros, de livros.

Que tipo de livros vocês sentem falta de ver no país?

Eu, particularmente, ainda sinto falta da literatura latino-americana. Isso é algo que tenho pesquisado há uns dois anos. Há muita, muita coisa de excelência “perdida” por aí e que deveria ser publicada no Brasil. E acho que o brasileiro precisa se reconhecer mais como um latino-americano, sabe, nós somos meio, como posso dizer, esquivos, talvez, desse pensamento. Parece que o Brasil, mesmo sendo o maior país da América do Sul, nesse sentido, quer viver ilhado, afastado dos outros países. Mas ainda bem que temos editores e editoras que curtem essa literatura e trazem elas para nós. Mas ainda estamos bem longe de chegar em um ponto que possamos conhecer mais a literatura do Peru, Colômbia, Guiana etc. Espero que a Moinhos contribua diretamente para isso nos próximos cinco, dez anos.

Como é o processo de aquisição de livros da Moinhos? O que vocês levam em consideração?

Eu sempre respondo a essa pergunta da consideração dizendo que é gosto. Não tem como fugir disso. Eu, a Camila (Araujo), que somos os editores, temos gostos particulares, mas são gostos específicos construídos pelas leituras que fizemos em toda a vida até aqui. Logo, quando há algo que nos interessa é meio que óbvio saber que aquilo do interesse da Moinhos. Contudo, é preciso pesar. Levamos em consideração a coerência da obra, a escrita, a possibilidade de crermos que aquele livro pode ganhar mais leitores e leitoras e nosso catálogo, nossa linha editorial.

O processo ele se dá, geralmente, pela chamada de originais que realizamos todo ano. Durante 30 ou 40 dias no ano, abrimos um período para que as pessoas possam enviar seus originais para que possam ser avaliados. Quanto aos livros de autores e autoras estrangeiras, sempre fazemos uma pesquisa para estudar a possibilidade de viabilizar certos livros ou projetos. Por exemplo, a nova tradução que o Leonardo Pinto Silva fez da obra de Ibsen, Uma casa de bonecas, só vai acontecer porque o próprio Léo fez uma ponte com a diretora Camila Bauer, que encenará uma peça que levará a obra em consideração agora em maio. A Camila já nos apresentou outro projeto, de um autor francês, que possivelmente vai nos levar a publicação de um outro livro teatral.

Assim vai, as pontes são importantes e necessárias para também se conseguir chegar a obras bacanas. A própria Adília Lopes, já era algo que eu nutria há muito tempo. Lançaremos Um jogo bastante perigoso, que nunca tinha sido publicado aqui. Na verdade, nenhum livro dela, exceto uma antologia feita pela Cosac Naify junto com a 7Letras. E conseguimos fechar esse livro e outros, nossa intenção com ela é trazer toda a obra da poeta, assim como a do poeta António Ramos Rosa, outro português. E assim vamos construindo o nosso caminho quixotesco. (rs)

Qual é, para você, o papel de um editor? Quais funções ele deve ter?

Acho que já respondi um pouco lá nas outras questões. Estar envolvido com o que faz não apenas no âmbito comercial, mas disposto a criar ações, eventos que contribuam para o meio que está inserido, o editorial, e também da sociedade.

Como você acha que o envolvimento do autor deveria ser durante o processo de publicação?

Deveria ser mais preocupado em entender o meio. Eu sinto uma precariedade muito grande ainda das pessoas que querem publicar um livro e não tentam buscar informações. Não admito muito quando a pessoa me diz que não sabe ou não tem onde pesquisar. Minha resposta tem sido: “Conhece o Google?”. Não quero ser grosseiro, não é isso. Mas acho que em tudo que fazemos, antes de querermos as respostas dadas de bandeja, não custa dar uma pesquisa, há sites, pessoas, que sempre estão falando das suas experiências.

Buscar conversas com o pessoal que já publicou, tentar entender o meio, quem é responsável pelo quê é importante, sabe? Há algumas coisas, que para nós são básicas, e o autor ou autora não sabe. Eu não tenho problema em explicar, nenhum. Mas é incrível como as pessoas ainda chegam despreparadas para a publicação de um livro.

Quanto ao envolvimento, acho que é isso, tentar entender bem o mercado. Não ter medo de perguntar, de mostrar que não sabe de nada. É importante entender para saber como se portar, no sentido de saber o que fazer. Não de mudar sua personalidade para agradar qualquer um, mas de tentar contribuir até mesmo nas vendas dos livros. Se grandes autores e autoras fazem de tudo para divulgar sua obra, porque um autor ou uma autora iniciante não o fará? Há pessoas, por exemplo, que acham que, porque o livro delas não está na livraria, não vai vender, que é “culpa” da editora, entre outras coisas mais. Mas isso tudo se deve a isso: ao desconhecimento.

Uma das grandes dificuldades do mercado do livro hoje é a distribuição. Como os livros da Moinhos encontram seus leitores?

Por enquanto, principalmente em nosso site. O livro impresso para chegar na livraria é complicado. Muita gente acha que é a editora que coloca os livros na livraria. Tá a gente coloca, mas só se a livraria nos quiser (rs). Eu não posso chegar lá e dizer: “Ó, tá aqui, coloca aí meu catálogo todo nas lojas todas de vocês”. Não é assim. A livraria tem que conhecer o catálogo, tem que estar disposta a fazer o pedido (em consignação, quase sempre). Se elas fizerem isso aí chegamos lá, o que não garante que vai estar em toda loja, como no caso de algumas grandes livrarias com mais de dez lojas.

Por isso a gente quis apostar nos ebooks. 95% das pessoas que conheço sempre me dizem: “Desiste disso, Nathan. Só dá prejuízo…”. Mas aí é que está (realmente dá, rs), se a gente não tentar algo, como eu posso dizer que eu faço algo para mudar? A gente entende que o ebook chega mais rápido, mais fácil ao leitor ou leitora, por isso apostamos no formato. Até pouco tempo, os books nossos eram vendidos com 30% do valor de capa do impresso. Repensamos, mudamos isso, baixamos ainda mais o preço, porque, estudando e pesquisando, vimos, soubemos, que a conversão do ebook para o impresso é grande. Ou seja, uma pessoa que compra o livro digital, quando gosta, geralmente compra o impresso, seja para continuar a leitura seja para dar de presente seja para guardar na estante. É fato. Não sou eu quem está dizendo. É só jogar no Google (rs). Isso é pesquisa, dados.

E, lentamente, a gente tem sentido isso. Depois que diminuímos um pouco mais o valor do livro digital as conversões aumentaram. Quase nada, é verdade, mas aumentaram. Para mim, mais do que o valor dessas conversões são os leitores e leitoras que estão conhecendo os autores e autoras da Moinhos. Estão conhecendo a editora. Isso é mais importante para a gente nesse momento. “Ah, Nathan, mas daí vocês estão indo contra o mercado que dá, no máximo, 40% de desconto no digital”. Eu me calo, porque se o mercado faz isso e está estagnado por isso, não seria uma boa hora para tentar mudar? De perder aqui para ganhar ali? Eu sempre repito, é necessário dar um passo para trás para dar dois para frente. Comigo tem funcionado.

Publicações da Editora Moinhos

Contos: Cada forma de ausência é o retrato de uma solidão, de Marco Severo (202 págs., R$ 38)
Não-ficção: Bienvenidos: história de bolivianos escravizados em São Paulo, de Susana Berbert (136 págs., R$ 38)
Ficção: Araruama: o livro das sementes, de Ian Fraser (228págs., R$ 42)
Poesia: Nona Manhã, de Carl Jóhan Jensen (72 págs., R$ 35)
Crônica: O gato na árvore, de Marco Antonio Martire (128 págs., R$ 38)
Romance: O abismo entre nós, de Cris Vazquez (200 págs., R$ 38)

Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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  1. Sou autor do livro “Poemas da meia-noite (e do meio-dia)” editado pela Editora Moinhos em 2017 e posso atestar o trabalho dedicado e paciente de Nathan Magalhães e Camila Araújo. Parabéns pela reportagem / entrevista. Desejo que a Editora Moinhos tenha longa vida e cumpra com seu destino de espalhar livros de qualidade com os melhores ventos por todo o Brasil. Espero, também, que os meus editores queiram continuar trabalhando comigo, pois o trabalho da editora é, simplesmente, excelente, não obstante todos os problemas que o Nathan revela em sua entrevista.

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