Olhar atento, forma impecável

 Mônica de Aquino

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É bonito perceber como Mônica de Aquino lê e traduz o mundo. A poeta mineira, de gestos mínimos e atenção máxima, absorve seu entorno com tamanha especificidade que, à primeira vista, pode soar como desencanto. Ledo engano. Como assinala o poeta Edimilson de Almeida Pereira na apresentação do premiado Fundo Falso, “Mônica de Aquino consegue cerzir um corpo poético que — sem rejeitar a exibição das lutas da poeta na tela do poema — aponta para o embate solitário do sujeito com a linguagem como origem do que fomos e ainda seremos. Antes que se pense, aqui, numa poética que abdica da esperança, vale assinalar que o rigor adotado por Mônica de Aquino dialoga com um cenário pleno, formado pela natureza e pelo envolvimento do clã com seres pulsantes intimamente relacionados à nossa humanidade”. Fundo Falso, segundo livro de poesias inéditas, foi vencedor do Prêmio Literário Cidade Belo Horizonte, em 2013, colocando-a em destaque na cena literária nacional. No início deste ano, uma versão revisada foi lançada pela Relicário Edições.

O livro é dividido em sete partes que correspondem às divisões temáticas: “A memória das mãos”, “A dor como método”, “Água-forte”, “Quarto de espelhos”, “Corpo sem pausa”, “O efeito da quebra” e “Matéria bruta”. Em cada uma delas, uma mistura curiosa de violência e beleza se apresenta – como já sugerem os títulos –, marcando de modo singular o trabalho da autora. A reflexão delicada que os poemas, quase sempre curtos, oferecem contém uma espécie de senha constante, elemento que se repete várias vezes, refratado em distintos assuntos: a destruição é o motor desse livro. A condição feminina, as frustrações amorosas e os jogos do desejo, as leituras do mundo e da tradição, a linguagem mesma, enfim, com que se constroem os versos.
Seu primeiro livro de poemas inéditos, Sístole, (Bem-te-vi), foi lançado em 2005. De lá para cá, Mônica, que tem formação em Direito, não parou de escrever, tendo sido publicada em meios eletrônicos e impressos. No ano da publicação de Sístole, participou de O Achamento de Portugal, organizada pelo poeta Wilmar Silva e publicada pela Anome em parceria com a Fundação Camões. No ano seguinte, seus poemas figuraram a antologia catalã Panamericana, poetas americanas nascidas a partir de 1976, organizada pelo poeta espanhol Joan Navarro e publicada na revista eletrônica série Alfa. Suas poesias marcam presença, ainda, em antologias como Roteiro da poesia brasileira: anos 2000 (Global, 2009) e A extração dos dias: poesia brasileira agora (Escamandro, 2017). Já teve poemas publicados em páginas eletrônicas do Brasil e do exterior e em periódicos como o Suplemento Literário de Minas Gerais e a revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional.

Autora de seis livros infantojuvenis, a poeta agora gesta um novo livro, fruto da experiencia que vive atualmente, em que se prepara para viver a maternidade. A ideia é lançá-lo logo após o nascimento de Manu. Para a Coluna, Mônica de Aquino selecionou dois poemas: um deles retoma a figura de Penélope, presente em Fundo Falso (a poeta dedica otros tantos poemas à essa figura mítica). O outro, inédito, integra a série sobre a gravidez.

Literatura em primeira mão

255 batimentos por minuto
[poema sem título para plaquete em processo sobre a experiência da gravidez]

seu coração move o meu,
multiplicado.

Como houvesse dentro um gato
à espera,
sobreposto.

Como houvesse dentro um lobo
que transmuta o corpo
em noite e faro.

Como houvesse um pássaro
que inventa um ninho
sobre o voo.

170 vezes bate o seu coração-asa.

A ele minha pulsação se dobra,
somada mais uma vez a frequência.

Como houvesse um coração
em cada palavra.

Pulsa a placenta sob a máquina,
outro coração que te abriga.

Enquanto você guarda pai e mãe
nas batidas, duas vezes mais rápido
calcula:
o tempo do que renasce.

Somamos os três o coração
de uma ave.

Como um cão que a perseguisse
– e que a ela se soma –
enfrento todos os nomes

o ritmo inventa este jogo de encaixe
do som vem o rosto, a carne, os gestos.

Tão rápido o fluxo
preciso fazer-me pequena
para acompanhá-la
filha de novo, aguardo

Você tão frágil, peixe doméstico
dentro das margens-correntezas
da mãe-aquário-mar-aberto.

A vida se espalha no que é violência
e canto
sinto o coração oceânico do mundo
-baleia, lento, movendo as águas
o amor, as escolhas

tudo é espera
e só o seu coração acelera
o silêncio

Penélope paciente
[Poema do livro Fundo Falso]

Com muita disciplina de gestos
faz da espera um projeto abstrato

resistência, desafio aos dias.

O que há de concreto é a luta
entre fio tesoura pano

entre planos e recusa de escolhas
Ulisses vira uma ideia.

É a si que Penélope espera.

Escute com a voz da autora:

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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