Onde você vai morar em 2050?

 Coco Capitán – Gucci Garden, Milão

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1.

“Eu também enrolo serviço. Cigarro, hoje, raramente. Mais fácil parar de três em três horas pra ferver água e encher a caneca de chá. Papel em cima da mesa por um ano pegando luz e poeira. Entre um livro e outro, um rabisco aqui e ali. Só mais um pouco: hoje não dá mais. Nem nessa semana, nem nesse mês. O papel se assentou na mesa e ficou, sem sair do lugar. E de repente a matéria precária do trabalho começa a se constituir disso também, do tempo que se imprime nas coisas.” — Nota #1, Sobre chegar ao Almeida e as tentativas inúteis de preencher vazios e mimetizar matéria, Daniella Domingues.

Desde que me propus a escrever este texto (Setembro de 2017) até a madrugada de hoje, alguns meses se passaram, já estou no futuro daqueles dias. Este é um registro do painel “Onde você vai morar em 2050?” com interferências minhas, referências que recolhi de lá pra cá. Parte da série Arquitetura para não arquitetos, realizado pelo GUAJA no casarão da Rua Sapucaí, CASACOR 2017, em 29 de agosto daquele ano, onde ouvimos Ana Paula Baltazar, Carlos Teixeira, Facundo Guerra e Fernando Maculan. Uma conversa sobre as vidas cada vez mais nômades e minimalistas, as cidades cada vez mais dinâmicas, e a arquitetura indeterminista e híbrida.

“Bem vindo ao ano de 2050. Bem vindo à minha cidade, ou eu devo dizer, à nossa cidade? Eu não possuo nada. Eu não tenho carro, não tenho casa, não tenho nenhum utensílio, roupa ou sequer privacidade. E viver nunca foi tão bom.” Num mundo onde a experiência supera a posse e o consumismo, como será a cidade do futuro?

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2.

Em 1889, Michel Verne, filho de Jules Verne, considerado o pai das histórias de ficção científica (o que é diferente de futurismo), publica numa edição do “The Forum”, o texto In the Year 2889. O autor leva o público leitor a uma viagem no tempo através de um dia na vida de Mr. Fritz Napoleon Smith, no século 29. Após o café da manhã, os leitores se deleitam ao imaginar Smith sair de casa num carro aéreo — um veículo que viaja através de tubos de vácuo.

Em 20 de Fevereiro de 1909, no Le Figaro, Filippo Marinetti publica o Manifesto Futurista. Em seguida, Giacomo Balla, Umberto Boccioni, Carlo Carrá, Luigi Russolo, Gino Severini, Guillaume Appollinaire publicam manifestos sobre a pintura, poesia e escultura futurista. O movimento se formou de ideias radicais que exaltavam a beleza da máquina e a nova tecnologia do automóvel, com sua velocidade, seu poder e seu movimento, em parte introduzidas em programas fascistas. Um dos principais objetivos era a destruição de todos museus e bibliotecas que conservavam a cultura do passado, da harmonia, da imitação.

Vitória de Samotrácia, Museu do Louvre, Paris. “Depois de dez meses em restauro, custo de €4 milhões, parte financiado via crowdfunding.” — Foto: Publico-PT

No final da década de 50, Yona Friedman e Constant Nieuwenhuys, arquitetos húngaro-francês e holandês, questionam a produção em massa, o urbanismo moderno e o individualismo através de projetos de cidades utópicas: propõem estruturas urbanas que sugerem uma construção mais coletiva das cidades, abertas à intervenção.

Nos anos 60, o Archigram, grupo de arquitetos ingleses, assume a tecnologia como grande benefício para a cidade e explora a ideia de nomadismo através de módulos urbanos móveis, no intuito de criticar o modo de vida cristalizado e instigar novas possibilidades em espaços abandonados nas cidades. Assumidamente utópicos, esses módulos se deslocam e se instalam em lugares sem nenhuma infraestrutura, podendo inclusive plugar-se a outros módulos urbanos.

Ron Herron, 1966 — Walking City, Archigram

As ideias da coletividade ou a destruição dos museus permaneceram no campo lúdico; mas em parte, as utopias se concretizaram. Ainda que as decisões de como se construir as cidades tenham estado sempre nas mãos de poucos, nós nos tornamos majoritariamente urbanos e completamente dependentes da tecnologia. Consumimos a velocidade das coisas e experimentamos agora a forma como a urbanidade, tal como foi produzida, influencia nossa vida social e consequentemente, nossa saúde física, mental e espiritual.

Em 2011, o filme argentino Medianeras questiona a contemporaneidade hiper conectada, e põe nas mãos dos arquitetos e incorporadores a responsabilidade por seus efeitos colaterais.

¿Cuando seremos una ciudad inalámbrica? ¿Quiénes habrán sido los genios que taparon el río con edificios y el cielo con cables? Tantos kilómetros de cables, ¿sirven para unirnos o para mantenernos alejados, cada uno en su lugar? La telefonía celular invadió el mundo con su promesa de estar conectados siempre. Mensajes de texto, un nuevo lenguaje adaptado para diez teclas que reduce una de las mas hermosas lenguas a un primitivo, limitado y gutural vocabulario. El futuro esta en la fibra óptica, dicen los visionarios. Como gran cosa prometen que vas a poder subir la temperatura de tu casa desde tu trabajo. Está claro, está previsto que no haya nadie que te espere con la casa calentita.

Nos meados do século 20, mesmo período de início das férias pagas, a média da jornada semanal de trabalho caiu de 70 pra 40–45 horas. Uma das utopias Situacionistas da época, década de 50, era de que o trabalho do homem (o homo-laber) em pouco tempo seria inteiramente realizado pela automação das máquinas tecnológicas, liberando-o para viver de forma criativa e lúdica (homo-ludens). Acreditavam que a humanidade já possuía elementos suficientes para conceber aos indivíduos tempo disponível e uma vida realmente livre, sem as preocupações monótonas do trabalho socialmente útil e necessário para obtenção da sobrevivência. Contraditoriamente, em 1969, no Japão, foi reportado o primeiro caso de morte por excesso de trabalho. Em 1980, o termo karoshi (que pode ser traduzido literalmente do japonês como “morte por excesso de trabalho”) já era encontrado nos dicionários Japoneses e espaços de trabalho, em vários lugares do mundo.

Manifesto, Cate Blanchett, 2015 — FUTURISM, Broker

Em 2013, Mita Duran, publicitária indonésia de 24 anos, twittou pouco antes de morrer “30 hours of working and still going strooong”. Já em 2017, o ex-executivo do Facebook, Antonio Garcia Martínez, de 40 anos, largou o Vale do Silício para se preparar para a revolução tecnológica, refugiado num terreno de cinco hectares no meio da floresta em Orcas, uma pequena ilha na costa do Estado de Washington, próxima da fronteira norte do país. Na maiorias dos casos, entretanto, não são a tecnologia ou as substâncias psicoativas os fatores fatais — mas o estresse e competição no contexto do trabalho. A real causa patológica da morte da publicitária indonésia não foi sobrecarga de informação, mas a pressão neoliberal que faz a combinação de trabalho e redes sociais tão exaustiva. É o que vem no pacote das tais férias pagas.

(The Everyday and Beyond – Krzysztof Gutfránski)

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3.

No entanto, grosso modo, podemos dizer que o mundo melhorou. A média longevidade ampliou-se muito; as tecnologias diminuíram o trabalho braçal, os meios de comunicação encurtaram a distância entre as pessoas; e pensamos com muita seriedade na possibilidade de construirmos cidades e civilizações em outros planetas. Habitar o Universo.  —  O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa, Ciro Pirondi.

Facundo fez um depoimento sobre São Paulo, sobre movimentos que acontecem ali e se repetem num cenário global. Há um redimensionamento de identidade das cidades que começam a se destravar para as pessoas, o que tem mudado positivamente as possibilidades de vida urbana. As festas de rua, a comida barata, a imaterialidade e o espírito de compartilhamento da nova geração refletem a mudança de mindset das pessoas — de suas demandas, seus credos, suas vontades, e o modo de vida (diferente do de seus pais e seus avós) que estão de acordo com quem elas são. A cidade originalmente surge como um projeto para o futuro, mas vale notar que é moldada a serviço do homem. Se nós estamos mudando, os espaços nos acompanham. É certo que, quantitativamente, até 2050, nós, urbanos, seremos o dobro do que somos hoje. Precisamos especular como seremos no futuro.

Grandes tendências de comportamento, como a mudança de mindset do individual para o coletivo, e do mercado, como a economia compartilhada, estão promovendo o fim do monopólio de mercado e construindo o monopólio social. O protagonismo está dando lugar à vontade de simples execução de um projeto — o que é um indicador de uma forma coletiva de pensar, substituindo a competição agressiva. Hoje as pessoas querem estar onde todas as outras estão, e isso é possível pelas plataformas digitais que são parte integral do nosso cotidiano e operam com uma comunicação super aberta, horizontal, sem barreiras.

Isso se reflete também na produção de uma arquitetura mais humanista que vai, de propósito, na contramão das tendências de mercado para valorizar justamente o mais importante em uma moradia: muita luz natural (acredite, isso é revolucionário), permeabilidade real, gentileza urbana, incentivos para redução do uso do carro, uso verde, plantas facilmente conversíveis. São novos projetos pensados desde sua origem com o propósito de se criar espaços flexíveis, que dêem conta da mutabilidade e velocidade de transformação dos modos de viver, em resposta surpreendente às novas lógicas de configuração de vários aspectos da sociedade.

Edifício BsAs – Vazio S/A

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4. “Today is the tomorrow you worried about yesterday”

Futuro é isso: tempo impresso nas coisas. E se tem uma coisa que ninguém pode negar é que o que a gente escolhe, hoje, define o futuro de amanhã ou dos próximos 32 anos, até alcançarmos 2050. Sim, nós podemos dizer que no entanto, grosso modo, o mundo melhorou. Contraditoriamente, não diminuímos a distância entre ricos e pobres. Ainda vivemos num modo de produção capitalista, onde existem desigualdade social e uma sociedade patriarcal. Produzimos e distribuímos comida para 9 bilhões, ao passo que somos apenas 7,5, e ainda temos milhões de pessoas que passam fome no mundo. No Brasil, existe uma demanda de mais de 5 milhões de moradias, ao mesmo tempo em que estão vagas mais de 6 milhões de propriedades.

Para que a ideia do compartilhamento englobe o mundo e transcenda do plano utópico para a vida concreta, é fundamental que deixe de ser excludente. E essa é uma questão pautada essencialmente no modo de produção atual.

Zbyněk Baladrán, To be framed (still), 2016.

Vivemos num modo de produção onde a moradia é pautada pelo valor de troca, vista como mercadoria. O movimento feminista conquistou o voto em sua primeira onda (no fim do séc. XIX, início do séc. XX) e alcançou o mesmo espaço do homem na segunda onda (a grande greve de 1968, e igualdade salarial na Inglaterra em 1970). Entretanto, ainda vivemos numa sociedade patriarcal, mantendo as hierarquias e os modelos de representatividade, sem qualquer valorização da diferença – o que aposta a terceira onda, não somente entre homem e mulher, mas entre toda e qualquer pessoa. São todos esses conceitos, tão intrínsecos há tantos, que moldam uma sociedade desigual, não apenas pautada num  problema de capital financeiro econômico, mas também social e cultural, que urge por mudanças profundas. Se isso não puder ser alterado, estaremos condenados a construir apenas mais uma utopia contemporânea, irrealizável para 2050.

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5.

“Pensamos que temos que tratar nossos lugares de habitar cada vez mais isolados, mais fechados, mais protegidos. Um lugar como esse a gente vê que existe um sentido de coletividade, um poder de vizinhança que permite que as pessoas deixem a porta aberta.”
Fernando Maculan, sobre o vídeo

Fragmentos
Aquele que “bricola”, ao contrário do arquiteto, não vai diretamente ao objetivo, nem busca uma unidade, ele age de forma fragmentária através das idas e vindas de uma atividade não planejada, empírica. A bricolagem seria uma arquitetura do acaso, uma arquitetura sem projeto, a arquitetura da favela. A forma final é resultado do próprio processo construtivo, o objetivo principal do construtor é criar um abrigo.
O abrigo é temporário mesmo se ele durar para sempre, a habitação é durável mesmo se ela desabar amanhã.

Labirinto
Na escala seguinte, o conjunto dos abrigos é o Labirinto. O labirinto-favela, espaço urbano espontâneo, é muito mais complexo, pois ele não é fixo, acabado, ele está sempre se transformando. Na favela as ruas (e todos os espaços públicos) são determinadas exclusivamente pelo uso. E a relação entre espaços públicos e privados também é outra — na favela esses espaços estão inextricavelmente ligados. Durante o dia as ruelas se tornam a continuação das casas, espaços semi-privados, enquanto a maioria das casas com suas portas abertas se tornam também espaços semi-públicos.

Rizoma
O crescimento rizomático das favelas forma novos territórios urbanos, fundamentado pelo conceito de comunidade. As favelas se desenvolvem como o mato que cresce naturalmente nos terrenos baldios da cidade, os barracos, como as ervas, aparecem discretamente pelas bordas e acabam ocupando todo o espaço livre rapidamente, são formações orgânicas. A favela seria a cidade-erva, seguindo o sistema-rizoma que é bem mais complexo. O gengibre é um rizoma, assim com a erva daninha. O sistema erva-rizoma é o oposto do da árvore-raiz pela sua multiplicidade, acentricidade e instabilidade (em movimento constante).

Tropicália, Penetráveis PN2, PN3 — Helio Oiticica

As três figuras conceituais, sucintamente aqui expostas, são ligadas entre si pela idéia de movimento das favelas. A estética resultante desses espaços — fragmentados, labirínticos e rizomáticos — é, consequentemente, uma estética espacial do movimento, ou melhor, do espaço-movimento.

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Essas são ideias exploradas por Paola Jacques Berestein, autora de Estética da Ginga — A arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica, de onde extraí os trechos acima, por acreditar serem essas as cidades mais dinâmicas, de arquiteturas indeterminista e híbrida, de produção baseada no valor de uso e formação uma sociedade menos desigual, onde coexistem coletividades e individualidades.

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6.

A conversa completa entre Ana Paula Baltazar, Carlos Teixeira, Facundo Guerra e Fernando Maculan, cujas contribuições guiaram esse texto, pode ser assistida aqui:

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7.

 

“Eu sou um emissário. Eu transmito.”

descreve Josef Beuys, sobre sua própria arte, considerada por ele como as antenas que transmitem suas inquietações criativas ao mundo. 

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Autor
"I am a lot sillier than I look. I’m unable to keep my mouth shut and so, as a result, am the content editor of GUAJA." (Meredith Talusan, editor senior da 'them') – Sou Arquiteta e Urbanista pela UFMG com formação complementada no Politécnico de Milão, gerente de conteúdo do GUAJA, e apaixonada por pessoas verdadeiramente obcecadas e constantemente curiosas pelo que fazem.

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