Carnaval: um movimento de existência e resistência

 Foto: Bruna Brandão

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Que o carnaval de Belo Horizonte seria um carnaval de rua todo mundo já sabia, o que a gente não tinha tanta certeza é que em meio a tanto glitter trombaríamos com tanto empoderamento. Belo Horizonte é sim de rua e de luta. Uma garrafa de Catuaba proporcional a cada movimento, um pote de purpurina pra cada bandeira levantada e de cada sorriso a gente tira uma motivação ainda maior: mais verdade, mais vontade e mais lutas.

Vale ressaltar que todo esse carnaval que o mundo conhece começou por cá, fora do sambódromo, sem tanta pluma e quase gratuito: ouso dizer que desde as manifestações esse movimento começou nesse horizonte, os nossos ocupando o que é nosso. Se não fossem as bandeiras, talvez a gente não vivesse toda essa cor.

Vimos nesse último ano o maior carnaval desde o início, a gente entrou como o segundo carnaval mais procurado no Google (pelo Google Trends), o terceiro destino mais procurado do Brasil e, com toda a galera com quem conversei, como o carnaval mais lindo do mundo. Vimos de cima tapetes negros, rosas e amarelos, feministas, afeminados, de tudo que é gênero, raça, cor, voz e jeito.

Pra quem dizia que a folia sempre falou mais alto, no início já vimos que é mais que isso: machistas, homofóbicos, racistas e abusadores não passarão, não vamos jogar purpurina em blocos que não brilham por isso. Quem ouviu de um carnaval centralizado, viu esse ano que a festa ocupou os quatro cantos da cidade (não pela primeira vez), e até fora dela, o carnaval de Belo Horizonte não acontece só na Contorno, ele também é suburbano (sub+urbano), e em meio a tanta gente saindo de lá pra cá, a gente pode levar essa força pra longe, mas sempre perto de gente, que é o que a gente ama. Se você ouviu que “não é não”, é por que é, e nunca se viu um carnaval tão certo: talvez eu esteja errado, mas menos minas precisaram fingir namorar o amigo, tiveram de se esquivar de beijos forçados e por fim, a pochete virou uma belíssima amiga do rolê, uma marca surgindo por dia, e um senso de segurança maior pra gente pular carnaval, já que a gente não tem mar.

Talvez o meu maior amor com esse movimento sejam as ruas ocupadas quase 24 horas, não é todo dia que a rua está lotada 00h e que a gente “pode” andar de um lado pro outro sem tanta preocupação, mas todo dia de carnaval a gente (quase) pode. É trombar no bloco e ao invés de ofensa ouvir “tá tudo bem, é carnaval”, é se perder e ganhar um amigo até o fim do rolê, é fantasia, é vida, é tanta coisa, né? Tá tudo bem, é carnaval. Eu sei que essa fantasia não é eterna, mas que esse senso coletivo-empático-brilhante prevaleça.

Digamos que nos últimos tempos é que eu tenha me apaixonado por essa folia. Sou produtor cultural e os eventos privados sempre me cativaram mais. Mas desde que vi esse carnaval mais vivo eu tenho acreditado um tanto nessa festa mais plural. As ruas são os melhores palcos, e agora sim, é da rua pra rua. Os blocos muito grandes já não me pegam tanto, antes talvez a gente vivesse à sombra de todos esses gigantes que emergiram naturalmente. Hoje eu piro nesses blocos que ocupam as ruas dos bairros, em que a gente se vê do nada sendo molhado por mangueiras quase imperceptíveis nos portões das casas mais tradicionais, que a gente não se perde tanto e a cada esquina: um reencontro. O “fora temer” que incendeia um viaduto tradicional pela quantidade de carros, os peixes aéreos no Santa Efigênia, o tapete negro na principal avenida da cidade, o caminhão pipa, o samba, o axé, o nascer do sol, o grito de luta, é carnaval.

Vale frisar que essa é a visão do Cleu sobre o carnaval, e certamente temos centenas de outras visões também apaixonantes. Infelizmente ou felizmente, ele é tão grande que a gente nem vê o que acontece, mas o que importa é que aconteça. E isso aconteceu.

Bloco da Bicicletinha, 08/02, @Piranhas Bar

Talvez esse tenha sido um dos melhores blocos do carnaval. Como todo ano a concentração começa muito mais cheia do que o cortejo em si. No ano passado o bloco juntou 1,2 mil ciclistas e, esse ano, parecia ainda mais cheio. Os leds tomam conta do bloco como já é de praxe e talvez seja o rolê com mais gente conhecida por metro quadrado. Como sempre, o viaduto é a parte mais marcante do trajeto e o arrepio toma conta da gente. As bikes no ar, os gritos, o coro, a música, a loucura, tudo isso é muito característico da Bicicletinha. O carnaval ainda não tinha começado (que equivale a: trabalhar no dia seguinte) e por isso a gente terminou antes. Ter um bloco no meio do bloco foi outra ideia incrível, o Sopra que Sara cumpriu bem esse papel, misturar a vibe da Bicicletinha com o de blocos tradicionais. Um único erro do bloco: passar em frente a um hospital, de resto, avoa, o rolê foi até altas horas, regado a muito eletro na Avenida dos Andradas.

Ladeira Abaixo, 10/02, @Floresta

Em comparação ao ano anterior, o número de pessoas no bloco quase triplicou. Vale pensar sobre essa inversão de papéis que rolou: os blocos supostamente mais “cheios” ficaram mais vazios, e aqueles que sempre foram taxados como mais vazios, ficaram mais cheios. Esse foi o caso do ladeira abaixo. A bateria é bem conhecida e é responsável por muito dos carnavais mais animados da cidade, já o público não era o mesmo que se via antes, ele era mais misturado que o normal. E talvez essa quantidade excessiva de gente tenha impedido que o bloco chegasse no destino planejado (encontrar com o Bloco da Praia) e teve de terminar no meio da Francisco Sales. Nenhum problema muito grande, mas quem esperava um cortejo tradicional, pequeno e de galera conhecida, talvez não devesse ter descido a ladeira, ou devesse ter feito literalmente isso: o final do bloco foi foda, e no encontro na Raul Soares foi só derretimento. Ladeira acima, bichão.

Tico Tico Serra Copo, 11/02, @Floresta

Ouso dizer que o Tico Tico é o bloco mais querido dessa Belo Horizonte, muita gente vai só nele, muita gente vive o carnaval só pra isso, em resumo: bloco do coração. O bloco tem essa pegada mais cultural, completamente ligado a esses movimentos que têm emergido na cidade. Um ponto a se levantar é: as fantasias estavam do caralho. E a demora na saída do cortejo não estragou em nada a emoção que o bloco tem. O cortejo foi no Floresta e também passou por dentro do viaduto. Talvez esse seja um belo catalisador de emoções: é gente chorando de um lado, gente gritando de outro, gente pelada, mas sempre com essa sensação de pertencimento e de causa. A vibração na entrada do túnel foi incrível e os arrepios foram a marca do bloco. No final, o coro é de “vai Chapolin, joga água em mim” e muita água, muita gente molhada e muito encantamento. Melhor bloco.

Um textão do Marcos Coletta que resume histórias, vitórias e existências: aqui.

Angola Janga, 11/02, @Centro

O Angola, desde o ano passado, já havia se consagrado como um dos principais blocos da cidade. Nesse ano, ocupar a principal avenida da cidade teve um significado bem diferente: é resistência e resiliência. O Tapete Negro (forma que o bloco se refere ao cortejo) foi inexplicável, uma soma da dança, da bateria, dos gritos e de toda essa energia que o Angola carrega em si. Provavelmente ele tenha batido o número expressivo de pessoas do ano anterior (120 mil), era possível ver gente desde a Rua São Paulo até a Praça Sete, e foi lindo, foi emocionante. No trio, só minas negras falando/cantando, e no chão, o corpo de baile só de negros (ou pessoas que se reconhecem como tal) fazendo referência aos Orixás. É um momento de atividade a favor de representatividade.

Unidos do Barro Preto, 12/02, @Barro Preto

Foi a primeira vez no bloco, uma vez que o bloco é no mesmo horário de outro queridinho da cidade: o Filhos de Tcha Tcha. Musicalmente (mas não só) ele é diferente de todos os outros blocos da cidade, além dos toques de maracatu que são incríveis e dão todo um toque no cortejo, ele também é dono de uma bateria impecável, diferente de outras, um pouco mais improvisadas (que a gente vira e mexe, nem liga). A fantasia é de barro, o percurso é irado e não é lotado. Foi um belíssimo acerto. Rola todo um sentimento de pertencimento à cidade, quando a gente passa por esses lugares menos comuns.

Bloco do Peixoto, 13/02, @Santa Efigênia

É sempre bom “encerrar” o carnaval no Peixoto, esse é um bloco super tradicional com um clima mais família, trajeto super very nice, e é um bom equilíbrio entre o cheio e o vazio. Esse ano ele fez o trajeto ao contrário e, desde a concentração, já podia se esperar a animação que o bloco sempre carrega. A bateria e o público é misto: a união de vários blocos fazendo esse contraponto universal. Os peixes no ar dão esse tom lindo e o foda do dele é o cortejo no meio do bairro, as mangueiras liberando água e lavando o espírito nas mãozinhas quase trêmulas cheias de histórias, os moradores das ruas por onde o bloco passam são parte essencial do cortejo. Um bloco que somou histórias e sensações.

Manjericão, 14/02, @Bairro Goiânia

O manjericão é um desafio, eu fui nos dois últimos anos e a sensação de conseguir chegar tão cedo no bloco é realmente gratificante, nisso a gente merece toda a energia boa que o bloco carrega no nascer do sol. Nem todo mundo parece tão vivo e é óbvia essa vibe de último dia do carnaval. Não é um bloco que dura tanto quanto os demais. Ele tem hora quase certa pra acabar e precisa acabar. Esse é um bloco que sempre descentraliza o carnaval, nesse ano levou pra Av. José Cândido da Silveira esse verde manjeriqueiro.

Depois da quarta de cinzas, o movimento não para, a gente vira o santo, encontra festas menores, gente que não quer que o carnaval nunca acabe, mas em meio a tudo isso, a gente encontra a certeza de todo esse discurso que nós temos pregado por ai. Não são as “autoridades” que vão acabar com a nossa festa, não é a segurança que vai nos deixar inseguros e muito menos o fato do carnaval durar só uma semana é que vai deixar essa verdade ir-se. Que o motivo pelo qual ele existe seja catalisador de milhares outros encontros no resto do ano. Que esse tal “tá tudo bem, é carnaval” seja só um “tá tudo bem, ano que vem que tem mais carnaval”. E que enxerguemos nesses gritos ainda mais chancelas pra abrir o espartilho, pra aflorar, pra reafirmar que gente é pra brilhar, pra justificar a “ozadia” e por aí vai. O carnaval acaba, mas a luta não. Até 2019.

Um salve especial à toda essa galera que faz carnaval, e a quem fez o meu nesses rolês: @thalesbuzelin, @glitch_pochetes, @adorofarm, @diwocollab, @led_cd, @natchem, @piresguilherme, @xthamyx, @juliaslins, @_aliciafp e à todos os re-/encontros.

Autor
Personagem daquela famosa (porém inexplicável) geração barra/barra: dj/ produtor executivo/ diretor de whatever na Perestroika/ micro-influencer/ social media/ designer/ colaborador de umas marcas maneiras/ publicitário sem faculdade/ louco do branding/ autodidata/ agitador cultural/ criativo experimental/ curioso das moda/ professor de mil tretas/ capricorniano/ ator/ além de vencedor de campeonatos informais de War. No instagram, um perfil de @cleudibilidade.

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