A mulher selvagem no contexto urbano-urgente

 Foto: Dudu Obregon/Arquivo pessoal

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Não é tarefa simples manter desperto o arquétipo da mulher selvagem nesse contexto urbano-urgente que a maioria de nós vive. Ir em busca do sagrado feminino é um movimento de resistência. Vê-se, introjetada em cada ação minúscula, a vigência masculina. Em cada oferta de emprego, em cada relato de relacionamento abusivo. Reconhecer e honrar a ancestralidade quando se acorda buscando o sol e o que se vê é a grade da janela, quando se põe o pé pra fora de casa e é no asfalto que a gente pisa. E mais: de noite, quando a gente busca a lua em meio aos vários prédios, e não consegue achar, é realmente um exercício que exige empenho. Talvez a importância e a força do feminino venha com naturalidade pra algumas mulheres, talvez não.

Nem toda mulher quer ter filhos. Eu era uma delas. Em alguns momentos quis sim, quis muito, sonhava ver o homem pelo qual estava apaixonada brincando sorridente com nosso filhinho. Com o tempo, fui me envolvendo em teorias, me aprofundei em estudos antroposóficos, linhas pedagógicas alternativas, atividades educacionais. O peso da responsabilidade de criar um ser humano seguro, corajoso e saudável começou a existir. Fui estudando maravilhosos partos naturais, partos orgásmicos, partos com hipnose. O peso de tomar, desde o início, as melhores decisões pra vida do meu filho começou a existir. Fui estudando pós parto, puerpério (estado físico e emocional que a mulher entra logo após o parto — que algumas pessoas dizem durar 40 dias, outras dizem durar anos), amamentação. Quanto mais eu me aprofundava na realidade das mulheres, mais eu afastava aquele “sonho” de mim. A vida real de uma mulher que se torna mãe é bem diferente do que o senso comum — blogs, vlogs, instagrams e páginas românticas do facebook — mostra por aí. Eu não queria aquilo pra mim.

Quando li o clássico da Clarissa Pinkola Estés Mulheres que correm com os lobos algo em mim mudou (meio que) pra sempre. Em especial o conto do “Barbazul”, que aborda — entre outras mil coisas, a opressão à intuição feminina — e passei buscar conexão com mulheres que me inspiravam, que me fortaleciam, que se fortaleciam, enfim. Passei a me conectar com mulheres que se uniam mensalmente em dia de lua, a estudar ritos, chás, banhos. Trocamos mensagens, áudios, nos apoiamos, procuramos ser naturais em tudo o que é possível e respeitamos quem não faz escolhas como a nossa.

Todo parto vem com um luto e é um pouco complexo entender (e assumir) isso. Em nenhum caso a criança que nasce era a que você achou que ia nascer. Ninguém sabe quem é realmente aquela pessoa dentro da barriga. Sempre que nasce um bebê, morre um bebê — aquele projetado, aquele imaginado. E ainda que seu bebê nasça perfeitamente, você vai chorar — em algum momento, (talvez) em muitos momentos. O parto dói, independente da escolha que você fizer. Vai doer na hora, vai doer depois. E nesse momento morre também a mãe, a que você achou que ia ser, a que acharam que você ia ser. E vai chorar, porque tem aquele lindo e maravilhoso bebêzinho saudável e ainda assim uma tristeza estranhíssima tomou conta de você. Sofrer é natural, é orgânico. Todo mundo passa momentos de tristeza. Em outro conto do livro, “La llorona”, Estés diz que as lágrimas fazem com que a barca da vida continue navegando, fluindo — e quem não chora deixa a barca encalhar.

O lado bom de tudo isso é: quando nasce uma mãe, nasce uma maravilhosa rede de apoio, que, coincidência ou não, é majoritariamente formada por mulheres. Claro que ela também tem suas falhas e é sempre bom lembrar que, quanto menos expectativas, menos decepções. Mas, ainda que essa maravilhosa rede de apoio exista, provavelmente você não vai saber o que fazer em inenarráveis situações. Você não vai saber o que fazer quando por sabe-se lá qual motivo seu bebê chora ininterruptamente. Você pode ler sobre livre amamentação, como amamentar sem ferir os mamilos e como remediar se eles ainda assim machucarem. Você pode estudar quais vacinas são realmente indispensáveis, quais são as reações que essas vacinas causam e tem ainda que ficar atenta às datas delas. Pode estudar saltos de desenvolvimento, pomadas, fraldas, roupas. Rompimento dos dentinhos. Viroses. Consistência e periodicidade do cocô. Pode ser que você estude as milhões de formas de introdução alimentar, e as possíveis alergias que seu filho pode ter. Opções de escolinhas, babás, unschooling, creche parental. Pediatras, acupunturistas, homeopatas, osteopatas, alopatas, terapeutas holísticos.

Não vai conseguir ir ao cinema. Nem sair pra jantar. Nem ter um almoço sossegado. E talvez, por mais estranho que seja, você nem queira nada disso — mesmo estando exausta. Vai ter que escolher cadeirinhas de alimentação, cadeirinhas de transporte, carrinhos. Você vai passar noites sem dormir — talvez (e provavelmente) muitas. E dias também. Não vai conseguir assistir um filme inteiro. Nem aquele vídeo maravilhoso de 48 minutos que não-sei-quem postou. Pode ser que você fique apavorada com o jeito que a visita que chegou na sua casa tá carregando seu bebê e também com novecentos milhões de palpites que as pessoas vão começar a dar. Vai ter que repensar todos os móveis e decoração da sua casa pra eles não racharem a cabeça do seu neném em duas. Você vai procurar planos de saúde que ofereçam pronto atendimento no hospital mais perto da sua casa. E quem sabe até você dispense essa rede de apoio, por não sentir compartilhar isso (ou lo que sea) com quaisquer.

Pode ser também que você se frustre porque não tem como fazer todas essas coisas com perfeição. Pode ficar extremamente ansiosa por não ter a capacidade de entender a sua angústia e a angústia do seu bebê. Você vai se revoltar com o tanto que é organicamente despareada a relação bebê x pai, comparando bebê x mãe. Isso se não for mãe solo. Se você estiver amamentando seu filho no peito você provavelmente vai ter tanta fome que vai levantar de madrugada só pra comer. Ah, talvez também, passe a ter acesso a umas memórias que nem sonhava existir. Traumas, medos e quem sabe umas coisinhas gostosinhas. Um monte de coisa começa a voltar, transmutar, renascer e morrer. A maternidade é um mergulho profundo em si mesma. É navegar por mares nunca antes visitados. Alguma coisa te segura firme, quando você acha que não tem mais energia pra mover um único dedinho, algo te renova — uma força estrutural te segura, te empurra, te ampara.

Nem sempre o amor acontece à primeira vista. Com filhos também é assim. Pode ser que você se apaixone desde o primeiro instante, sim. Mas pode ser que esse amor te exija tempo, dedicação, e (muita) paciência pra acontecer. Mas ele vai acontecer e, nessa hora, você começa a chorar também suas alegrias. E ainda que essa alegria demore a chegar a mulher selvagem dentro de você ficará lá, de mãos dadas, te apoiando, te fazendo seguir em frente ainda que você não tenha a menor ideia de como está conseguindo fazer tudo isso.

A maternidade foi e é uma chance de começar tudo de novo. Uma chance de oferecer tudo de si, se partir em duas (ou milhões) e continuar inteira. É ter esperança no mundo e ter, realmente, a chance de construir um presente e um futuro cheios de empatia, de segurança, de confiança, de beleza. Ajudar a estruturar uma sociedade mais bela, mais humana, mais orgânica. Uma escolha que deve(ria) ser feita com consciência, leveza, independência e integridade.

Quando uma mulher desperta, ela se estrutura, ela ampara outras irmãs, empodera uma amiga, que empodera outra e assim, assim como no filme La belle verte, da cineasta Coline Serreau, aos poucos vai surgindo toda uma sociedade de mulheres despertas, de mães amparadas e empoderadas, de sacralidade feminina. Um elo de irmandade universal, de serviço, de bem estar.

Autor
Alice Leão é mãe do Bem, professora de yoga, doula, comunicóloga, pesquisadora do mundo da obstetrícia, ativista de naturebisses e bruxarias com amor. Fortalecedora da rede de sacralidade feminina, esportista nas horas vagas e completamente obstinada em fazer do mundo um lugar melhor. (Foto: Lina Mintz)

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  1. Lindo e emocionante o texto. Ele fala da realidade da gestação, sem romantismo, mas com uma delicadeza e verdade que vai ajudar muitas mulheres a se sentir a todas as mulheres que deram a luz a não se sentir orfãs, estranhas e culpadas e também da descoberta do sagrado feminino que vem para nos tornas mais livres e empoderadas de nós. Tenho 54 anos e em Janeiro fui avó de um lindo menino chamado Miguel, que me trouxe ainda mais conexão com essa “missão” de ser mulher e fez com que eu descobrisse um filha que ainda não conhecia. Mãe…frágil…forte…cíclica…simplesmente MULHER. Obrigada Alice por sua sensibilidade e amor que sempre transborda!!!! Hari Om!!!

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