Que comece o matriarcado: Mulheres se destacam no ecossistema de startups

 

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“Que comece o matriarcado”. A frase dita pela personagem Nairobi, na série La casa de Papel, ficou famosa como símbolo do protagonismo feminino. Esta mesma frase poderia também ser aplicada ao novo momento do universo das startups. Sim, nós estamos ocupando cada vez mais espaços que antes eram majoritariamente masculinos.

Este novo cenário ficou ainda mais evidente no último “Startup Awards”,  maior prêmio de empreendedorismo, inovação e startups do Brasil onde vi mais mulheres subirem ao palco. A Dany Junco, fundadora da B2Mamy — uma aceleradora que conecta mães ao ecossistema de inovação, venceu na categoria “herói/heroína do ano”. Nos últimos três anos, a empresa acelerou 170 negócios tocados por mães-empreendedoras que, juntos, faturaram R$ 2 milhões. Além disso, a B2Mamy inaugurou no final do ano passado o primeiro espaço exclusivo às mães-empreendedoras no Brasil num galpão de 400 m² na Zona Oeste de São Paulo.

Outra iniciativa reconhecida foi a Programaria que venceu na “categoria impacto social”. A startup oferece capacitação em programação para as mulheres de todo o país. Fundada pela jornalista Iana Chan, a empresa tem como principal objetivo quebrar o estigma de que mulheres não sabem ou não se interessam por tecnologia. Mas algo que realmente me pegou de surpresa foi compartilhar este mesmo palco com estas mulheres maravilhosas. Eu venci na “categoria profissional de imprensa” depois de 7 anos atuando no ecossistema de inovação. Era a minha segunda vez consecutiva entre os finalistas e novamente a única mulher na etapa final. Fiquei muito emocionada por ver tantas mulheres ganhando reconhecimento num mercado tão competitivo e muitas vezes machista –  sabemos que o preconceito não parte somente dos homens, mas também das próprias mulheres.

O sexismo ainda é um tema difícil no Brasil, sobretudo no ambiente tecnológico. No entanto, há pouco tempo conheci empreendedoras que estão apostando todas as suas fichas na inteligência artificial no combate à violência contra a mulher.  No Brasil, 1,6 milhão de mulheres são espancadas ou sofrem tentativa de estrangulamento anualmente. Os dados são de um levantamento do Datafolha encomendado pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A pernambucana Simony Cesar — que ficou este ano na lista Forbes Under 30, dos jovens mais promissores do Brasil — desenvolveu o NINA Mobile, tecnologia que nasceu para mapear e denunciar os casos de assédio que acontecem no transporte público. Já Gabryella Corrêa, idealizou o aplicativo Lady Driver, depois de ter sofrido assédio de um motorista que ela chamou pelo aplicativo.  No ano passado a empresa arrecadou R$ 2,5 milhões, que estão sendo usados para investimentos em tecnologia, ações promocionais e expansão para outras regiões. Em operação desde março de 2017, o Lady Driver se diferencia dos concorrentes por aceitar apenas motoristas e clientes mulheres. Atualmente, possui uma base de 45 mil motoristas cadastradas, mais de 1 milhão de downloads e faturamento de R$ 10 milhões em 2018. A Lady Driver foi eleita pelo jornal Financial Times o maior app de transporte feminino do mundo.

Apesar de estarmos conquistando lugares que antes não existiam para nós, ainda hoje somente 30% de todos os negócios privados do mundo são operados ou têm como idealizadora uma mulher, e menos de 10% das empresas lideradas por mulheres recebe investimento externo. Por outro lado, um estudo recente da The Boston Consulting Group (BCG), revela que apesar de menos investimentos, faturamos mais em nossos negócios. Segundo a pesquisa, para cada dólar de financiamento, as startups com mulheres fundadoras geraram 78 centavos, enquanto as fundadas por homens renderam menos da metade disso (31 centavos).

Em termos globais, no ano passado tivemos o melhor período da história para fundadoras pelo mundo. Em 2018, havia 15 unicórnios (empresas com valuation de 1 bilhão) com ao menos uma cofundadora à frente do negócio. Já no último ano, foram 21 startups lideradas por mulheres que atingiram o status de unicórnio. As informações são da base de dados americana Crunchbase.

A minha previsão para 2020 são mais mulheres ganhando destaque no mercado. O principal desafio é superar os estereótipos sobre a capacidade e o papel das mulheres em diferentes esferas da sociedade. Não teremos qualquer avanço enquanto esperarmos que as mulheres deixem o trabalho ao ter filhos — se fizerem isso por obrigação e não por escolha. Ou se aceitarmos que elas optem por um emprego ruim e mal remunerado para conciliar a vida profissional com os cuidados da casa. Há muito que avançar por parte das empresas, das leis e da própria sociedade como um todo, mas seguiremos lutando.

Autor
Jornalista e comunicadora de empresas disruptivas e startups. Nos últimos anos fiz a comunicação de grandes empresas de tecnologia como Google Apps For Work (atual G Suite), a escola de programação francesa Le Wagon e a aceleradora Startup Farm, considerada uma das mais prestigiadas aceleradoras da América Latina. É empreendedora na área de PR, consultora de comunicação e colunista do Portal Startse. Escreve sobre empreendedorismo e apoia projetos de inclusão da mulher na tecnologia.

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