Mundo: começar do zero

 Foto: François Ronsiaux

Receba artigos sobre cidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Texto de Guilherme Wisnik
United Land, Imagens de François Ronsiaux

Destruição criativa

Como poderia um novo mundo ser criado sem a destruição de boa parte do que veio antes? Esse dilema moderno tem o seu arquétipo literário no Fausto de Goethe. Escrito entre 1770 e 1831, o livro atravessa, na própria história de sua redação, eventos históricos cruciais, como a Revolução Francesa, por exemplo. Assim, traduzindo literariamente a passagem do mundo estagnado do mercantilismo, com suas barreiras comerciais e seus monopólios, para a ampla liberdade do mercado sem fronteiras, a história épica de Fausto descreve um universo no qual os maiores valores positivos são a mobilidade e a transformação, guiados pela livre iniciativa e pela abertura de espaços para as novas construções.

Uma passagem crucial da obra ocorre quando Fausto e Mefisto se encontram no alto de uma montanha contemplando o espaço vazio e infinito a seus pés. Fausto então esbraveja de súbito, questionando furiosamente o fato de os homens deixarem as coisas tal como sempre foram. Em suas palavras: “Não é já o momento de o homem afirmar-se contra a arrogante tirania da natureza, de enfrentar as forças naturais em nome do ‘livre espírito que protege todos os direitos’?”.

Tornado um grande empreendedor da construção civil após o pacto com Mefisto, Fausto comanda grandes obras de aterro e terraplenagem, incluindo a construção de obras de infraestrutura em escala territorial como portos, canais e barragens. Seu objetivo é a ampla dominação da natureza através da criação de uma nova paisagem técnica homogênea, mobilizando imensas equipes de trabalhadores e máquinas. O sucesso pragmático dessas obras de planejamento vem acompanhado de um sentimento terrível, retratado nos personagens que acompanham os canteiros de obras e que descrevem aquelas atividades – “cavar e esburacar” o chão incessantemente – evocando “gritos de horror” que fendem a noite, apesar de, ao final, serem sempre saudados pela luz da manhã com o aparecimento de uma nova represa ou canal.

O primeiro episódio trágico da narrativa acontece quando Fausto lança sua mira furiosa sobre Filemo e Báucia, um casal de velhinhos que permanece, desde longa data, morando em um pequeno chalé nas dunas, onde oferece ajuda e hospitalidade a marinheiros náufragos e sonhadores. Ocupando uma pequena porção de terra em meio àquelas grandes obras, o casal se coloca como obstáculo no caminho expansionista de Fausto, que programa removê-los para construir ali uma torre de observação – do alto da qual ele e os seus possam “contemplar a distância até o infinito”. Contrariado com o fato de o casal de idosos não aceitar uma polpuda quantia em troca do terreno em que mora, Fausto ordena a Mefisto que os retire dali imediatamente, liberando a terra para que as obras possam prosseguir. No entanto, ao saber que Mefisto havia incendiado a casa, matando impiedosamente os velhinhos, Fausto, ultrajado, o chama de monstro e o expulsa dali. Antes de se retirar, o príncipe das trevas responde com uma risada, explicitando o fato de que “Fausto vinha fingindo, não só para os outros, mas para si mesmo, que podia criar um novo mundo com mãos limpas”.

O marco zero da era do pacto fáustico nas cidades, em termos históricos, é a Reforma de Paris conduzida pelo Barão de Haussmann entre 1853 e 1870. Nomeado prefeito de Paris por Luís Bonaparte durante o chamado Segundo Império francês, Haussmann governou a cidade com mãos de ferro, impondo um “urbanismo a golpes de martelo”, demolindo vastas áreas da cidade para reconstruí-las segundo uma nova feição moderna. Conhecido, por isso, como “o artista demolidor”, Georges-Eugène Haussmann foi o responsável pelas grandes obras que transformaram drasticamente a face de Paris, com a construção de um vasto sistema de avenidas largas (os bulevares) que erradicaram o aspecto medieval da cidade, tornando-a a “Cidade Luz”, um novo centro de cultura, lazer e consumo que desembocaria na chamada belle époque do final do século.

A Reforma de Paris, como se pode imaginar, foi extremamente violenta.

Calma, esse artigo do Wisnik para a PISEAGRAMA continua aqui 🙂

Autor
PISEAGRAMA é uma plataforma editorial dedicada aos espaços públicos – existentes, urgentes e imaginários – e além da revista semestral e sem fins lucrativos, realiza ações em torno de questões de interesse público como debates, micro-experimentos urbanísticos, oficinas, campanhas e publicação de livros.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express