Anunciaram e garantiram, mas o mundo não se acabou

 

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Sim, 2018 foi de lascar. Voaram farpas para todos os lados e ainda trago algumas incrustadas na pele. Aperto e dói. Foi um ano particularmente sofrido, desses meio lama, meio lodo. Quando eu achava que estava desatolando, tomava outro escorregão feio. A alma colecionou hematomas roxos e amarelos convivendo em desalinho.

Debutei numa primeira experiência de “cyber linchamento” e provei de um gênero que eu não conhecia: o ódio pelo ódio vindo de uma matilha ávida. Assisti à toda uma presepada da mídia parcial e superficial. Falaram do meu texto de opinião (que hoje em dia parece ser algo impróprio ter uma) e citaram meu nome na rádio, na rede e no jornal sem sequer falar comigo. “Oi, o que você quis dizer quando escreveu isso?” Não, desnecessário. Formou-se uma espécie de “clube dos bons” sem perguntas e com sentenças. E isso por um tempo paralisou a minha voz e o meu desejo numa espécie de transe perverso. O tantão de afeto que eu acumulei durante o meu percurso pesou menos que a crueldade propositada. Revelou-se em mim uma espécie de traço sádico que me fez apropriar daquilo forjado pra me desmantelar. Fiquei atônita com a minha falta de auto generosidade e esse new fetiche com a chibata. A categoria do meu ano bateu os 6.5 de Richter.

Mas antes do ano acabar, eu que tenho horror aos clichés ordinários que habitam essa época, sou tragada por um deles. Acontece que durante esse processo de auto sabotagem, fiz todo tipo de sacanagem comigo mesma. Negligenciar qualquer comportamento que de longe parecesse saudável foi o meu modus operandi. E, num raro momento de bom senso, resolvi marcar uma hora com meu “doutor de senhoras”. Esse moço já é meu médico de longa data, mas não o via há quase três anos. Nesse dia a gente se olhou sob uma outra luz (aka pacote full de cafonices sazonal). Falamos da vida, de amores, da p*@&% da política, do futuro, de carreira, de desejo e recomeços. Falamos de tudo com um frescor de quem estreia e a bagagem de quem se despede. Num encadeamento de sentidos e sentimentos orientados por um desejo (mútuo?) de cura e autoconhecimento. Como companheiros de trincheiras e como se fôssemos amigos de dramas íntimos. Da competência profissional dele eu já sabia, da sua educação de lorde (ou de conde francês) também. Não tinha atinado ainda para o alcance da sua generosidade. Hombridade oceânica com que ele me acolheu ali de uma forma tão delicada. Essa consulta (com todos os sentidos que couberem nessa palavra) foi uma espécie de sopro de mãe no joelho ralado. Agora, pode vir qualquer Merthiolate porque a fé no ser humano por aqui está recauchutada e a casca formada.

E sabe o que vai ficar na batida da lata pra 2019? Só o melhor que o outro tem pra me oferecer. Quebrei o chicote, e ajustei o peso do afeto. As pessoas vão muito além de quaisquer limitação que a vida tenta impor. Quem tem altivez no espírito nunca vai se apequenar. Então pra abrir o ano com aquilo que a gente traz de melhor, a gratidão, quero compartilhar uma das histórias mais lindas e espontâneas que já ouvi e que o mundo virtual (o mesmo que me surrou) trouxe pra mim em forma de amigo e leitor:

“Amiga, os livros me salvaram! Órfão desde os treze, fui preterido por um casamento novo de meu pai, morei nas ruas por seis meses, depois em pensões. Conheci minha esposa, filha de protestantes que me amou e me acolheu! Formei em direito, psicanálise, letras e história! Sou investigador de polícia em São Paulo, beirando os cinquenta descubro todos os dias que fui longe! Meu primeiro autor foi Fernando Sabino aos doze, depois nunca mais parei de ler, mesmo em situação de rua! Nosso senhor Jesus Cristo me alcançou – adotei o presbiterianismo – e a literatura me salvou! Escrevo para agradecer sua atenção com esse menino assustado que ainda tem a capacidade de maravilhar-se diante de um livro aberto! Eu sei que estou diante de uma pessoa grandiosa, de coração generoso e escritora de sucesso! Deixo meu coração! Tive vontade de escrever isso pra você, assim do nada!”

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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  1. Mana parabéns 👏👏 Mais um texto gostoso de ler. Desejo que vc esteja cada vez melhor nos seus relatos, pois assim podemos desfrutar da leitura que nos trás contentamento. Um beijo cheio de carinho.

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