Música é Deus

 Foto: Enan Correia

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Foi com essa afirmação que Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, encerrou a segunda edição do Breve Festival, que aconteceu nos dias 25 e 26 de agosto no Mirante Beagá, em Belo Horizonte.

Não havia frase de efeito mais pertinente para por fim a dois dias de intensa celebração à música. Porque sim, o Breve teve outros atrativos, como uma feira de produtos diversos, praça de alimentação, bar de vinhos, ativações de marcas e a colorida instalação do Estudio Gaê, onde quase todo mundo aproveitou para fazer uma foto bem blogueirinha, mas sem dúvida a grande protagonista do evento foi a música. E isso foi algo lindo de se ver!

Foto: Phillipe Guimarães

Minha história com festivais começou com o Pop Rock Brasil em 1999. Os tempos eram outros e o formato do evento era engessado, dentro de um estádio, mas lembro que era algo pelo qual eu esperava o ano inteiro.

De lá pra cá, as atrações não musicais e as ativações das marcas foram ganhando força e eu vivi as mais diversas experiências em festivais como o Tim Festival, Planeta Terra, Rock in Rio, Lollapalooza, Popload Festival, Planeta Brasil, Sónar (Barcelona) e SXSW (Austin), mas foi agora com o Breve que me envolvi na curadoria musical de um festival pela primeira vez.

Com isso, fiquei especialmente atenta à reação do público diante dos artistas que eu tinha ajudado a escolher e é difícil colocar em palavras o prazer que senti ao ver o interesse das pessoas não só pelos artistas grandes mas também pelas atrações locais, e a comoção que a música nacional ainda (ou seria novamente?) é capaz de causar.

Foto: Enan Correia

Também me surpreendeu a atenção do público que, claro, em boa parte estava com o celular a mão, mas de fato assistiu aos shows, cantou junto e interagiu com os músicos. E ainda, o interesse de alguns dos artistas em prestigiar outros artistas.

No sábado, eu estava conversando com o Djonga quando ninguém menos que Mano Brown desceu da van e foi direto ao camarim do rapper mineiro cumprimentá-lo. Um pouco mais tarde, Djonga devolveu o prestígio tomando um whisky no “boteco do Mano Brown”, ambiente que o músico montou em cima do palco do seu show “Boogie Naipe”.

Foto: Enan Correia

Foto: Qu4rto Estúdio

Na sequência, Iza fez uma performance arrebatadora. Que mulher! E depois, foi para a o meio da galera dançar ao som de Pabllo Vittar e ainda levou seus dançarinos para uma participação especial no show da amiga durante a música “Open Bar”.

Foto: Phillipe Guimarães

O encerramento do dia ficou por conta do grande Dj e produtor Zé Gonzalez e seu projeto Tropkillaz (responsável, entre muitos outros, pelo beat de “Vai, Malandra”). E para quem não gosta dessa história de “final”, o after seguiu madrugada adentro comandado pelos djs das festas 1010 (BH) e Gop Tun (SP).

Foto: Qu4rto Estúdio

No domingo, foi a vez de Luedji Luna aproveitar e assistir aos shows de Rincon Sapiência, Caetano Veloso e BaianaSystem no meio do público. Depois de sua apresentação, Rincon a acompanhou e até Caetano assistiu a parte do show do Baianas da lateral do palco.

Foto: Enan Correia

Enquanto isso, eu corria de um lado para o outro para conferir as atrações dos dois palcos e nesse caminho encontrei várias pessoas curiosas por saber mais sobre os artistas que estavam tocando, gente bastante entusiasmada com os shows e músicos felizes da vida por estarem ali.

Tão felizes que muitos, como Dedé Santaklaus, Julia Branco e Ana Assis, do duo Loquaz, fizeram questão de levar suas mães para assistir aos shows. O Young Lights convidou até um bailarino de dança contemporânea para abrilhantar sua apresentação e, assim como a maioria dos artistas convidados, mostrou cuidado com a escolha do figurino e com a cenografia da apresentação. Tudo para que sua música pudesse chegar ao máximo de pessoas e brilhar da maneira mais intensa possível.

Foto: Qu4rto Estúdio

E assim, com todo esse cuidado e prestígio, a música brilhou soberana no Breve e captou a atenção de todos os presentes em suas mais variadas vertentes, mesmo em meio a tantas boas distrações como conversas de amigos, bebidas, fotos e paqueras.

Nem mesmo os 30 minutos de chuva forte dispersaram o público. Pelo contrário, a aglomeração embaixo da tenda fez com que mais gente prestasse atenção no show da Julia Branco, que ao lado de seus escudeiros Luiza Brina e Chico Neves, não se deixou abalar pelos grandes pingos que invadiam o palco e fez uma apresentação poderosa.

No entanto, a maior prova do protagonismo da música foi o show da turnê Ofertório, de Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso, que mesmo com toda a sua sutileza (os quatro se apresentam sentados, não há bateria e Moreno chega a usar folhas de papel e um prato com uma faca como instrumentos de percussão) conseguiu fisgar o público do início ao fim, que se comportou de maneira exemplar alternando momentos de silêncio absoluto e de canto em uníssono (até o falsete de “Todo Homem”o público acompanhou).

Como recompensa, ganhamos de Caetano o título de melhor plateia do Brasil, o que de fato foi merecido, porque ver a um show desses com um público tão grande e diverso sem que nenhuma conversa paralela atrapalhasse foi uma aula de respeito à música.

Foto: Enan Correia

E para deixar o momento ainda mais especial, ele foi emoldurado pelo trabalho da artista Clara Valente, que foi responsável pela identidade visual desta edição e por um dos palcos mais bonitos que eu já vi nesses meus quase 20 anos frequentando festivais.

Outro fato que merece destaque é o de que toda essa “contenção”e contemplação desaguou, em seguida, na catarse coletiva do show do BaianaSystem, numa sequência épica de lavar a alma.

Ainda me recuperando fisicamente dessa sequência de 25 atrações e com um sorriso que insiste em não sair do rosto, fica aqui esse registro da segunda edição do Breve Festival, que eu definiria como um parque temático da música, onde as principais experiências foram realmente entregues em cima do palco, com cada artista explorando à sua maneira diferentes possibilidades, proporcionando momentos marcantes para o público e reforçando a importância dos festivais como vitrine para novos artistas.

Além dos nomes já citados, integraram o line up: Carne Doce, Dônica, Teach me Tiger, Julie & Gent, Devise, Daparte, Zeu, JP, Ed e Naroca, além da Disputa Nervosa organizada pelo Lá da Favelinha que agitou a galera no sábado e no domingo, botando todo mundo para dançar funk. Gênero esse que inclusive também marcou presença em outros shows, de Rincon Sapiência a Caetano Veloso, mostrando que já é impossível dissociá-lo da cultura brasileira.

É difícil dizer se a música ainda mantém o mesmo caráter transformador de décadas atrás e nem acho que a comparação se justifica, já que tanta coisa vem mudando desde então. Mas é certo que ao longo desses dois dias, a música nos lembrou de como nossa diversidade é linda e como cabem estilos, mensagens e crenças dentro do nosso Brasil. Além de ter deixado claro que seu poder agregador é mais valioso e necessário do que nunca nesses tempos conflituosos, polarizados e intolerantes em que vivemos.

Então se música é Deus, como disse Passapusso, só me resta pedir para que ela siga nos protegendo, iluminando e guardando até o próximo Breve, esse oásis de cores, união e adoração à música tão necessário que, como o próprio nome diz, passou como um sopro, mas pelo visto, veio para durar.

Amém.

Foto: Qu4rto Estúdio

Autor
Jornalista com especialização em crítica cultural pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona, já trabalhei na MTV Minas, na Globo SP e em diferentes produtoras de vídeo entre Belo Horizonte e São Paulo. Em 2014, criei a Chá Comigo, espaço que ganhou grande destaque pela comunicação e conceito diferentes de qualquer outra casa de chás. Mas, depois de três anos à frente do negócio, resolvi voltar com tudo para a área musical, minha grande paixão!

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