Dos embates estruturais e reais do não amor

 Foto: Kristopher Roller / Unsplash

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Viver é correr riscos. Essa assertiva é do senso comum e a constatação é, por certo, universal, além de óbvia. Se assim não fosse estaríamos ainda em cavernas batendo pedras para produzir fogo a nos aquecer.

Entre os maiores riscos que a vida oferece está o acometimento do não amor e, aqui, trata-se do amor romântico entre uma mulher e um homem e/ou pessoas do mesmo gênero. O não amor é uma sentença a que se pode travar por estrutura mesmo. Está na raiz da falta que nos inscreve no mundo simbólico. Falta essa que não se refere à presença ou ausência do mesmo sexo ou do sexo oposto, mas ao que o outro está impedido estruturalmente de suprir ou aplacar em nós.

Ao longo da história, inúmeros autores — dos gregos, passando pelos clássicos, aos modernos — se debruçaram empenhados no exercício inglório, teórico e fantasioso de conceituar o amor.

Em tempos de desvios e deformações morais, do descompromisso com o desejo e da ausência de ética nas relações, pensar o amor é romper as fronteiras da estrutura faltante e incompleta que constitui o sujeito e acrescentar a este o peso de uma sociedade que caminha a passos largos para a desqualificação dos reais valores que constituem os relacionamentos.

Sim, mas, é possível amar tantas vezes quantos forem os encontros ao longo da vida. E, sim, também devemos considerar que todo o tempo idealizamos e transferimos ao objeto amado o que de fato não lhe pertence, mas o que de nós o outro espelha sem o saber.

São dias confusos esses. O amor parece não dar conta da demanda moderna. Gêneros se liquefizeram. Sob as mulheres ainda pesam as desigualdades, a preponderância do patriarcado, a discriminação social e no trabalho, os abusos, os crimes, as violências, as desfaçatez e desqualificações vigorosas.

Ao não amor resta, portanto, terreno fértil. Cada qual pouco sabe do caráter indissolúvel e da extensão da falta que carrega, cada qual precariamente se abriga das guerras entrecruzadas. Mas, todos, ou os que mantêm a atenção sobre o desejo, buscam o encontro: este que movimenta e põe de pé a máquina humana, mas que também é causa e efeito de um mundo em transe que não corrobora para a viabilização do amor.

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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