Não quero dinheiro, quero amor sincero

 

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Era o ano de 90 e aquele jovem estava procurando desesperadamente um emprego. Casado de pouco, precisava de grana para manter o novo lar, mesmo contando com ajudas esporádicas dos familiares. Manter uma casa não era tarefa fácil, ainda mais que não tinha um emprego formal. Surgiu uma vaga para trabalhar no departamento de pessoal em uma renomada empresa do ramo da construção civil. Ainda era um cargo de caráter operacional e o salário não era lá grandes coisas. Vislumbrando ao menos uma renda fixa que fosse e uma possibilidade de crescimento profissional na firma, lá foi o jovem se candidatar ao cargo.

Apesar da inexperiência latente, foi selecionado para conversar com o gestor da área – prática àquela época comum – e se deu bem nessa entrevista. Muito bem. Logo nos primeiros dias ouviu que o que tinha pesado na escolha, foi a atitude, a gana pelo aprendizado que estava estampado na entrevista, pois se fosse para basear-se somente na experiência que o cargo demandava, sequer teria ido para a etapa de entrevista, pois os outros candidatos tinham experiência comprovada em carteira, como os anúncios de emprego anunciavam com tanta intensidade naquela época.

Ele fez jus à escolha: ficou trabalhando lá durante 4 anos. Ajudou a reestruturar a área, implantou as mudanças necessárias, subiu de cargo e saiu de lá coordenando todo um setor da empresa. Foi certamente um período de grande aprendizado. Para quem não sabia de nada, na sua saída já sabia de todas as responsabilidades inerentes ao departamento de pessoal e sobre como gerir pessoas. Investiu na sua formação acadêmica e já estava estudando administração em nível superior, como se chama isso por aí.

Foi sair daquele tão exitoso emprego e na mesma noite, na faculdade, viu um anúncio de uma vaga de estagiário que estava sendo oferecida pela própria instituição de ensino. No outro dia, pela manhã, voltou ao campus e procurou saber mais sobre a vaga. Qual não foi a surpresa quando encontrou um de seus professores na posição do responsável pela escolha dos candidatos e a respectiva seleção.

Conversou com ele. A vaga demandava um conhecimento de ACCESS: o dinossauro dos atuais Big Datas. O rapaz disse-lhe que não sabia ao certo do que se tratava, mas que fosse o que fosse preciso ele aprenderia. – Mas para semana que vem? o professor perguntou.

A aposta foi feita e o jovem candidato já estava pronto até para ensinar a linguagem computadorística para o seu professor. Ali permaneceu durante quase dez anos. De estagiário passou a coordenar administrativamente diversas áreas do setor e, por saber tanto sobre tanta coisa, foi agraciado com uma bolsa para fazer pós-graduação. Virou especialista aquele jovem que não sabia nada lá no início. E, assim sendo, habilitou-se para poder dar algumas aulas, aproveitando que já possuía habilidade que obteve pelas suas experiências profissionais, vastas, amplas, coerentes e corretas, como também uma atitude muito positiva com relação ao eixo ensino – aprendizagem, assim lhe diziam.

Talvez faltasse a competência formal, e um diploma de especialista poderia fornecer essa referida chancela. As aulas foram dadas em cursos de graduação essencialmente formais e institucionais. Acabou trilhando esse caminho da academia mesmo. Já em 99 estava dando aulas em diversas faculdades, centros universitários e universidades propriamente ditas.

Nessa trajetória não somente lecionou, como construiu, fortaleceu o saber de seus alunos, incentivando a aquisição de conhecimento formal, seja dentro da sala de aula, seja na porta da sala dos professores, nas cantinas, nos corredores, à entrada da faculdade ou até mesmo à saída, quando ele estava com pressa para algum compromisso, pois aparava e ouvia as demandas dos seus diversos alunos. Isso sem contar os whatsapps, as mensagens pelas redes sociais, telefonemas que recebia fora do horário comercial. Sempre fez questão de poder atender a todos, mesmo que isso demorasse um pouco mais de tempo.

Desde o início desta trajetória acadêmica percebeu que os alunos, em sua grande maioria, tem uma sede inesgotável de fazer com que seus projetos possam se substanciar, tornarem-se realidade. A bem da verdade a percepção sempre foi a de que os alunos entram nas faculdades para se formarem; mas o que querem mesmo não é o título, mas sim alguém que os oriente, os apoie, direcione mais assertivamente para que as suas ideias e os seus ideais possam se concretizar, pois é assim que eles poderão se sentir adultos, capazes, importantes para a sociedade.

E talvez por isso o rapaz nunca sentiu que fosse importante seguir e aprofundar-se na sua carreira acadêmica. É bem verdade que iniciou um curso de mestrado, mas que não foi terminado por diversos motivos. A não retomada deste processo lhe pareceu dispensável, uma vez que notava diariamente que a constante atualização pedagógica, conceitual, a escuta e a disponibilidade para com que os alunos vociferavam era sobremaneira contundente, em relação ao referido título, mesmo que este pudesse lhe fornecer qualquer tipo de garantia profissional, tal como mais tempo na carreira, mais tempo transitando dentro das instituições de ensino.

Ainda bem que fez esta opção. Nada contra aqueles que, ao colocar as suas alternativas na balança, sentem um peso maior em obter uma titulação que seja. Contudo, aquele já não tão jovem rapaz, que tinha o mundo a oferecer aos seus alunos, pela sua experiência e pela sua contínua atualização, preferiu o exercício mais empático e, contrariando todos os possíveis diagnósticos acadêmicos, escolheu o caminho do aprender fazendo, no caso dele, ensinar fazendo.

Para ele a missão educativa não se amparava em um título, pois no fundo não lhe seduzia a perspectiva cartorial, institucional tão somente. O que tinha para oferecer aos seus alunos era proximidade, era acompanhamento, escuta ativa, compreensão, acolhimento, instrução, companheirismo, era fazer com que seus alunos percebessem que não há nenhum obstáculo, nenhum degrau que possa separa o professor de si mesmos. E, para ele, um título não seria indispensável. Ensinar é uma vocação antes de qualquer coisa; e para o seu exercício não é preciso de um título que possa chancelar essa habilidade e essa atitude.

Passados quase vinte anos após ter entrado em uma sala de aula para proferir uma lição, aquele jovem não parece mais desesperado….. muito antes pelo contrário: todo o zelo, todo o carinho que despendera com os alunos lhe tem sido constantemente retribuído, através daqueles mesmos canais que anteriormente se comunicava com os próprios. E o que é mais emocionante: sempre de forma elogiosa, com muitas lembranças sensíveis, com palavras de reconhecimento e de alegria.

Parece jargão (e é), mas não se preocupar com os resultados, pelo menos no campo educacional, e sim com os processos, é uma atitude tão importante, é um propósito tão intenso e forte, que ao final das contas o que mais tem valia é o reconhecimento por ter compartilhado seus conhecimentos, a certeza de ter podido orientar os alunos por um caminho mais seguro, caminho em que ele poderá se identificar, se reconhecer, se tornar um ser humano coerente com os seus valores, com sua personalidade, mesmo que esta ainda esteja em formação.

Se há uma missão educacional neste mundo, certamente não é necessário algum tipo de título para poder afirmá-la; afinal, ter uma carreira de sucesso não significa que é necessário ter uma profissão. Ter uma carreira exitosa é ter reconhecimento por ter feito um bom trabalho, seja ele titulado ou não.

Autor
Professor, mentor, fomentador, estudioso, facilitador e interessado em empreendedorismo e coisas afins.

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