Outra maneira de contar — ou o que acontece quando não somos representadas

 Gif de Laura Salaberry

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Ainda ouvimos lá e cá, vozes questionando o que de fato querem nossas lutas. Que duvidam da construção de outro modo de agir, de construir o mundo. Vozes que gritam para não ouvir a mudança que vem aí.

O problema é que, essas vozes tentam incessantemente manter viva a estrutura que silencia mulheres, negros, índios, trans e tantos outros grupos minorizados. Porque elas não ouvem. Elas falham em enxergar o outro com empatia. Vêem nas diferenças algo maior e pior do que a humanidade que todos nós compartilhamos.

Desse entendimento vem um aprendizado importante sobre nossos esforços e resistências: entender o sentido da luta é tão importante quanto lutar. Seja para se unir ao fronte ou, pelo menos, para não criar barreiras aos nossos avanços.

Escolhi tornar prática, cotidiana, a noção de quão perigosa e danosa é a falta de representatividade. Aqui estão três casos que mostrar como a pluralidade (de pessoas e lutas) é o único caminho possível:

Quando nem minha câmera me vê

Há algumas semanas, gifs racistas fizeram o Instagram e outras redes sociais tirarem do ar a opção para seus usuários. Era o racismo escancarado, sendo espalhado para internet. Mas e o racismo escondido nas plataformas? Muita gente nem pensa nisso, mas você abre a câmera e ela pode simplesmente reconhecer seu rosto como um rosto. Foi o que aconteceu com Joy Buolamwini, estudante de pós-graduação do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A pesquisadora encontrou um empecilho ao testar suas teorias: o software de reconhecimento facial não reconhecia seu rosto. O problema eram os códigos, escritos por alguém que não ensinou o algoritmo a considerar uma variedade de tons de pele e estruturas faciais — como o nariz mais largo, por exemplo. O fato se agrava quando percebemos que códigos, na maioria das vezes, são compartilhados ao redor do mundo (não é preciso desenvolver um código novo se alguém já escreveu antes, certo?). Com isso, estamos espalhando um único jeito de construir novas tecnologias. E este jeito não inclui quem não é branco.

Um risco à nossa saúde

O problema se agrava quando olhamos para os dados da saúde. Infartos matam mais mulheres do que homens. E, ainda assim, quando paramos para imaginar uma pessoa sofrendo um infarto, imaginamos dor em aperto no peito e suor frio, sintomas manifestados tipicamente em homens. Quando é que estamos falando sobre o infarto com as mulheres? Quais políticas públicas contemplam a educação sobre saúde feminina? Encontrar uma solução parece um caminho ainda mais longo quando entendemos que a maioria dos procedimentos foram estudados usando o corpo de um homem médio como referência, negando ao corpo da mulher um espaço e limitando a qualidade da assistência médica que podemos receber. Isso sem mencionar o fato de que o corpo feminino ainda é tabu. Olhe para nossa menstruação. Existem países em que não se pode falar sobre isso em público. É como uma regra social que nos envergonha de um processo natural do corpo, tornam a experiência desconfortável pelo simples fato de existir.

Para repensar a política

Em uma conversa com Duda Salabert, descobri que a idade mínima para se candidatar ao Senado no Brasil é de 35 anos. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida das pessoas trans no país também é de 35 anos. Qual a chance de pessoas trans sequer sonham chegar lá quando ainda estão lutando pelo direito à vida? Um ciclo que se retroalimenta: quando mais longe uma pessoa trans está de ocupar a política, mais raras as políticas públicas voltadas para esse grupo.

Reconhecer a pluralidade — e fazer algo sobre isso

Entenda que não pode haver bandeira só. Não podemos seguir insistindo em um única forma de contar a história das pessoas. Luto por mulheres, mas também luto contra o racismo, luto contra a homofobia, contra a transfobia. Levanto bandeiras. No plural. Porque a luta não é sobre mim, sobre meus interesses, é sobre avanços coletivos. Quer impulsionar outras lutas? Comece conhecendo suas protagonistas aqui.

Autor
Sou mulher preta, comunicóloga, redatora e poeta. Especializada em Gestão de Marcas, com foco em Branded Content, sou cofundadora da navaranda - mulheres em rede, uma empresa criada para produzir experiências, encontros e conteúdos sobre diversos contextos do universo feminino: Ladies, Wine and Design BH, Museu das Minas e Saúde Sem Tabus são dos nossos projetos. [@jessicacagomes]

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