O desnatal

 

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Muita gente não imagina o quão é difícil comemorar o Natal sendo uma pessoa LGBT. Ter que encontrar familiares distantes, ser alvo de olhares, críticas e indiferença. Para pessoas trans, o caminho pode ser mais tortuoso. Não foi o caso de Yasmin, que sempre viu na data um momento nostálgico se se lembrar de sua avó. Hoje, você vai conhecer um pouco da sua história e saber como a data se tornou sinônimo de acolhimento de pessoas que não têm para onde ir.

“É impossível pensar ou falar sobre o Natal sem me lembrar de minha avó materna. Ela começou toda a tradição de reunir minha família no dia 25 de dezembro. Eu nunca entendi muito bem o significado do Natal. Segundo a Bíblia, simboliza o nascimento de Jesus Cristo. Na prática, um dia de muita fartura e bebidas. Até aí tudo bem, até porque nunca fui religiosa. O Natal também traz um espírito de perdão, de dar amor e carinho. Eu também não via muito isso na prática. De qualquer forma, eu gostava muito da data, já que a minha família sempre foi muito festeira. Era uma desculpa para juntar todo mundo e festejar.

Foi assim durante muitos anos, até minha avó começar e ter problemas de saúde. Meus primos e irmãos, com o passar dos anos, foram constituindo suas próprias família e, consequentemente, se afastando. As comemorações do fim de ano foram ficando cada vez mais sem graça e desfasadas.

No ano de 2012 comecei um relacionamento onde a mãe do meu então namorado não me aceitava. Com isso, ele também não passava o Natal ao meu lado. Não que eu me importasse por ser Natal, mas queria a presença dele. Nessa época eu havia começado meu processo de transição e, claro, vinha muita insegurança. Minha avó faleceu em 2014 e, desde então, minha família não se reuniu mais. Após o término do meu casamento, voltei para a casa dos meus pais e nosso Natal passou a ser apenas eu, minha mãe e meu pai. Quando dava 22h todos já estavam indo dormir. Meu pai nunca foi uma pessoa que gostasse de festa, nunca foi muito carinhoso. Estava cada vez mais indiferente a este tipo de comemoração, mas ainda sentia a falta do almoço na casa da minha avó.

Independente de qualquer dificuldade que passei com minha família, não posso reclamar. Sou uma pessoa privilegiada por ter uma família que me aceita e me ama como eu sou. Essa realidade é uma exceção quando falamos de travestis e pessoas trans. É muito comum casos de pessoas expulsas de suas casas, na rua, trabalhando em outras cidades para tentar sobreviver. Muitas pessoas trans que eu conheço passam a data sozinhas. E aí eu pergunto: que espírito natalino é esse? O que faz as pessoas rejeitarem os que reivindicam o direito de serem quem são?

A partir do ano passado, entendi o verdadeiro significado do Natal: o de se doar. Faço parte do Transenem, um coletivo que busca dar suporte social e pedagógico para pessoas trans de Belo Horizonte. Desde 2017, é realizado o Desnatal, voltado para o acolhimento de pessoas trans que não são aceitas por suas famílias. Eu, no meu infinito privilégio, não imaginava o quanto essa data era tão triste e solitária para muitas pessoas. Levamos comidinhas, bebidas, muita música, amor. Embora ainda sinta falta da casa da minha avó, hoje acredito que descobri o que é Natal.”

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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