Precisamos falar sobre o Nobel

 Escritor Jacques Fux. Foto: divulgação (Editora José Olympio)

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Ele não foi o último, mas deu o que falar: a nomeação de Bob Dylan a Nobel da Literatura conferida pela Academia Sueca foi cercada por polêmicas. Em tempos de redes sociais, não houve escapatória: todo mundo deu pitaco. Textos, teses, artigos foram escritos defendendo ou defenestrando a escolha. Bafafás à parte, Dylan levou o prêmio em 2016, não compareceu à cerimônia, entregou seu discurso meio ano após o evento e foi, entre outras coisas, acusado de plágio por uma jornalista que comparou citações feitas pelo (compositor? Escritor? Multiartista?) americano sobre Moby Dick. Segundo ela, Dylan conferiu trechos ao livro que jamais saíram de Herman Melville, mas de apostilas e sites de notas sobre resumos de obras. Plágio ou citação, seu discurso ganhou forma e matéria, tendo sido transformado em livro para colecionador, vendido em edição limitada a módicos US$ 2.500.

Pulemos agora para 2018, Brasil, Minas Gerais, capital, mais precisamente para dentro da cabeça do escritor e matemático Jacques Fux. O mineiro, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura logo em sua estreia, pesquisador na Universidade de Harvard, e que no ano em que Dylan escreveu seu nome na história do Nobel de Literatura, foi vencedor do Prêmio Manaus de Literatura e finalista dos prêmios APCA e Barco a Vapor, lança seu quinto livro mantendo uma característica que o aproxima de Dylan em ao menos um ponto: a capacidade de gerar polêmicas em torno de sua literatura. Ironia, sarcasmo e humor judaico são fortes aliados da sua escrita, amparada por um domínio raro das formas e do estilo a que se propõe. Considerado por críticos como adepto da autoficção (ele nega o rótulo e entende que escreve ficção), Fux dá a impressão de que seleciona os temas de seus livros, os olha à distância como quem desvenda uma equação matemática dificílima e, ao mesmo tempo, óbvia. Parte então para a ampla pesquisa, aprofundando-se do assunto para depois se aproximar e se fundir ao texto. O resultado é uma equação formada por referências literárias que se unem à própria narrativa e servem para “resolver o problema” (ou ao menos trazê-lo à luz), que no seu caso é o próprio universo literário e seu domínio.

Por tudo isso, seu mais recente livro me parece dos mais radicais. Nobel, que tem lançamento marcado para 10 de abril no projeto Sempre um Papo, é um discurso. Um longo discurso, próprio da Academia a que se refere. Ao longo das 138 páginas, acompanhamos um escritor judeu no púlpito da Academia Sueca no momento que ele recebe o prêmio máximo da literatura. Fux se mantém fiel ao seu estilo de contar histórias, de escrever ficção: abusa de referências históricas, confunde-as com a loucura do personagem (que novamente traz o seu nome), deita e rola no limite do bom senso, dá as mãos à ironia, abraça o sarcasmo e parece se divertir a cada frase. O personagem, se assim podemos chamá-lo, parece não ter filtros e encara os nobres cavalheiros imaginários à sua frente com certa arrogância, aquela que muitos tentam esconder em tempos em que é preciso ser vigilante para não cair nas armadilhas do mundo interconectado, que clama por discursos adequados, suaves e pouco comprometedores.

Se solucionar questões matemáticas exige persistência, rigor, conhecimento e lógica, entre outros requisitos, escrever exige tudo isso e uma boa dose de coragem. E se a vida não é ciência exata, Nobel não é um discurso pronto: é ponto de partida para discussões e análises, sobretudo, do que move o ato da escrita e da própria existência daquele que ousa escrever. Em Nobel, Fux nos entrega um livro em camadas, em que o desenvolvimento do raciocínio do autor-personagem é aparente, tal como os números dispostos em uma equação, que nos permite acompanhar o caminho percorrido para alcançar o resultado pretendido. A presença de textos extraídos de célebres discursos soma-se a citações de escritores, trechos de poemas, rodapés pouco conhecidos de autores. Vida e obra são colocadas em teste, assim como o limite entre a ficção e a realidade. Temas atuais, capazes de gerar, tal como a premiação de Dylan, textos, teses e artigos, vêm à tona em ângulos obtusos que causam, muitas vezes, arrepios e repulsas. Por fim — ou para começar — Nobel nos pergunta, a cada página: onde mora a liberdade do eu lírico em tempos tão sensíveis aos temas polêmicos?

Que Dylan ilumine a sua leitura, leitores e leitoras!

Para saber mais sobre o autor e suas obras, acesse seu site.

Literatura em primeira mão

Conheça, em primeira mão, o início de Nobel, livro de Jacques Fux que será lançado em abril desde ano:

“Eminentes senhores da Academia,

Após anos de escolhas polêmicas, algumas vezes equivocadas e até vergonhosas, finalmente os nobres cavalheiros se redimiram e tomaram uma decisão acertada. Caríssimos, o vosso dever foi cumprido. Parabéns. Eu, sem dúvida alguma, sou merecedor incontestável desta premiação.

Sim, desde muito jovem devoto a minha existência à literatura. Não exatamente à leitura e aos estudos dos clássicos, o que é muito banal e nada inédito, mas à transfiguração desse meu eu, real e biográfico, em um eu ficcional e ventríloquo da memória e da obra dos outros. Em prol deste sublime momento, ilustres colegas, eu me dediquei a metamorfosear e a introjetar a vida e a experiência dos escritores que estiveram antes de mim neste púlpito. Eu sou todos eles. Sou, inquestionavelmente, “a obra de excelência numa direção ideal”, como bem vos instruiu Alfred Nobel em seu testamento, com a intenção de agraciar os heróis-vencedores deste Prêmio.

O propósito desta láurea é reverenciar aqueles que, a partir da arte, dignificaram e ampliaram a concepção da vida. Que vislumbraram algo de divino e de supremo nessa sórdida devassidão humana. Que coibiram os próprios interesses comezinhos para alcançar um outro patamar na pesquisa e na exploração da linguagem literária. Eu represento essa utopia. Sou o vosso protagonista. E sou também a vossa voz. Assim, com imensa alegria e orgulho, mas convicto de que a minha escolha foi correta, aceito humildemente esta honraria. Muitíssimo obrigado.

Acredito que muitos estejam incomodados com o início do meu discurso. Arrogante? Presunçoso? Falsário? Será que os senhores já estarão pensando em uma maneira de retirarem a minha condecoração? Afinal, desde 1901, que os laureados sobem aqui e dissimulam modéstia, surpresa e gratidão diante do Prêmio. Mas, sejamos honestos, não há mais tempo para sofismas: todo escritor é um amálgama de Narciso e Dorian Gray. Todo escritor é pedante, insolente, arrogante, vaidoso. Essa é sua essência. E, mesmo que ela seja velada, não há como escondê-la. Permitam-me, portanto, expor, escancarar e assolar o lado obtuso, clandestino, furtivo e maldito — mas essencial para a criação — da nossa casta de escritores.

Se a função da arte é desvelar a alma, as vicissitudes e a experiência humana, eu vos ofereço o seu âmago. Todos, todos que algum dia escreveram um livro sonharam com este instante de glória. Todos — até os que negaram — sentiram que foram reconhecidos e condecorados de forma merecida, ou criminosamente obliterados e perseguidos. Não há dúvida de que qualquer escritor, inclusive os de internet, tem certeza de possuir um dom extraordinário e sagrado.

Reza a tradição honrar e homenagear os que aqui estiveram. Aclamá-los como mestres, ídolos, fontes de inspiração e reverência. Colocá-los num patamar sacralizado e quase inatingível. No Hall da Fama e da Glória. Olímpicos. Mas concedam-me outra digressão. É no desvio, nos atos indecorosos, nos recalques obscenos, sórdidos, sorrateiros que repousa o verdadeiro autor e as suas mais sensíveis e honestas palavras.

Em meu discurso, farei questão de enaltecer os atos e os textos infames. Tudo que foi e é clandestino e vergonhoso. A infâmia, amigos, é um efeito com valor de sentido. É uma exaltação. Uma necessidade de dar atenção especial ao que não foi inventariado, mas ao que pode ser inferido, resgatado e recriado nas falhas, nas calúnias, nos esquecimentos. Àquilo que nem a própria ficção alcança.”

A voz do autor

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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