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Descansar do nomadismo num domingo ensolarado em c ASA.

((Ter casa)).

E rede para cochilar, uma janela com flores e ervas. Algumas na terra crescendo e as outras, secas ventando penduradas por fios de barbante. Flores não morrem. Nada morre, mas o tempo atravessa os corpos e modifica suas formas, cores e peso. Bouquet de buganvílias rosas ficam coloridas de antiguidade, sobre os veios das folhas, uma secura e muitas manchas.

Colônias e mais colônias de bactérias sobrepondo verdes, brancos, amarelos. Respiram.

Constroem suas comunidades nas cascas. Ao longo dessas superfícies, uma geografia imensa se mapeia. Um universo complexo, diverso e pulsante que vive da decomposição. No sofá cinza da mesma sala, um gato chamado paco espreguiça a coluna e estica as patas.

O silêncio de saber estar em silêncio e experimentar alguma escuta interior. Observar as vontades que aparecem pelas brechas do corpo e da mente quando se deitam, se encontram.
Assim se parece o descanso.

Mergulhar por dentro do desejo requer atenção, procurando as passagens secretas aos lugares onde habitam as paixões alegres. Encontrar suas vias de acesso. Pensamentos com voz própria dizem muito quando se aquietam. Batimentos cardíacos em seus ritmos variantes e a velocidade de
uma inspiração manifestada
no espaço das vísceras
expandindo, contraindo
são pontes para algum ponto.
De partida ou de chegada. Ambos, sem ambiguidades.

Mergulhar requer os recursos da respiração, percorrer profundezas, por vezes assombradas por outras tantas, luminosas, águas cristalinas. Respiro. Sossego.

Para perceber a fertilidade do adubo cultivado em casa e o perfume do manjericão que se alastra na terra, a receita lista contemplação e coragem.

Mergulhar, mas também subir até a superfícieno limite que o fôlego impõe, derivar na beira das águas calmas encostar nas bordas e avistar o infinito na imensidão com a chance de conectar o extremo fundo com as margens e o espelho de água que a superfície reflete.

O que aparece na prata brilhante da pele do mar?
Ilha, areia, terra em trânsito.

Entender que um avião sobrevoa o oceano e mil parafernalhas funcionam para isso acontecer. Mais de mil botões e números, para uma decolagem e voo. São vidas dentro de vidas. Células e sistemas coreografados para que um voo dê certo. Atravessar as áreas de turbulência.

Pouso.
Assim se parece o descanso.
Repouso.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

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