A falácia da nova economia

 Foto: Ian Dooley/Unsplash

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Economia compartilhada, colaboração, organizações em rede, novos modelos financeiros… De alguns anos para cá, tem se tornado cada vez mais popular a busca por novos paradigmas econômicos que possam remodelar o modo como nos organizamos em sociedade. Uma mudança urgente, em tempos de colapsos políticos, econômicos, ambientais e sociais. Mas a triste verdade é que estamos andando a passos lentos, e as histórias de iniciativas que buscam transformações profundas, acabam por se tornar episódios isolados, como o seriado cult engolido por um roteiro mais seguro de uma TV aberta qualquer. Porque será que, mais cedo ou mais tarde, o novo é engolido pelo sistema antigo e não se espalha com a força de transformação que tanto almejamos?

Vejamos a economia compartilhada. Parecia genial, uma revolução capaz de sacudir o capitalismo, diminuir nossos danos ambientais, promover conexões sociais. Não precisaríamos mais de comprar e acumular, e as tecnologias poderiam nos conectar em rede promovendo a troca e o aproveitamento de tudo aquilo que é subutilizado. Pegamos como exemplo a maioria dos aplicativos de carros (Uber, Cabify, 99pop). Nascidos sob o guarda chuva do compartilhamento, tais soluções na verdade pouco tem a ver com pessoas compartilhando e sim com uma nova versão do bom e velho táxi, mas agora com app no celular, menor preço, cartão de crédito, água e balinha. A ideia disruptiva por trás da economia compartilhada se tornou um grande negócio tradicional, que sim melhorou nossa vida como consumidores e prestadores de serviço um bocadinho, mas é ineficaz na transformação econômica que precisamos.

Tudo bem, nem só de Uber e Airbnb vive a economia compartilhada. Mas, a verdade é que as soluções que realmente nos colocariam para compartilhar tempo, recursos e serviços, de um modo ou de outro acabam em sua maioria subutilizadas, desvirtuadas ou engolidas. Eu mesma tentei usar o aplicativo couchsurfing, no qual as pessoas oferecem seus sofás de graça para viajantes. Mas a impressão que tive é que as pessoas achavam que o aplicativo era uma espécie de Tinder, e tive poucas experiências satisfatórias com uso do aplicativo. (every app is a dating app?)

E os casos são muitos. Organizações em rede que acabam em tiro, porrada e bomba, ou viram uma grande comunidade hippie que na falta de verticalidade travam decisões simples e não andam para frente. Novos modelos financeiros altamente inclusivos, mas que não pagam as contas no final do mês. Iniciativas de transição que ressignificam a vida de comunidades, mas se isolam e não incluem o velho mundo.

Otto Scharmer, autor da Teoria U, sugere que novas iniciativas são como sementes para o futuro que quer emergir. Mas como qualquer semente, para brotar, virar árvore e constituir uma floresta, é preciso de boa qualidade do solo. E nosso solo está cansado, mal drenado e viciado. Nosso trabalho enquanto líderes é trabalhar com a recuperação do solo, lidando com aquilo que está abaixo da terra e não visível a olhos nus. Ou seja, precisamos atuar na criação de infraestrutura e espaços dialógicos para restaurar a qualidade dos campos sociais que fazemos parte.

Mais do que compartilhar, precisamos de equilíbrio entre dar e receber. Mais do que horizontalizar, precisamos resgatar nossa capacidade de criar hierarquias saudáveis. Mais do que transcender, precisamos incluir e pertencer. Mais do que empatia, precisamos criar espaços de atenção generativa capazes de potencializar o que quer emergir. Mais do que propósito pessoal e projetos individuais, precisamos conectar agentes com visão comum para transformar sistemas em conjunto. A verdade é que o segredo não está em mais novas iniciativas, mas em arar o solo, para que essas sementes dêem frutos e novos caminhos sejam possíveis.

Autor
Publicitária, escritora e facilitadora criativa, me dedico a estudar e viver a transição para uma nova economia a partir da criatividade humana. Com seis anos de experiência em processos criativos, desenvolvi projetos com criação e gestão de marcas, projetos criativos, e criação de ambientes colaborativos através de espaços de conversas de qualidade e pensamento disruptivo. Trabalho com conhecimentos e ferramentas advindas da Teoria U, Design Thinking, Comunicação Não Violenta, Thinking Environment, Transition Design, Art of Hosting, Transition Towns, Economia Colaborativa, Criatividade Quântica e Constelações de sistemas

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  1. Acho que um bom ponto pra se pensar é que estamos construindo modelos de negócios que não se sustentam porque o driver da mudança, a meu ver, está em hackear a inovação e levá la até onde de fato a mudança deva acontecer: dentro das empresas e instituições públicas e privadas.

  2. Marcelle, que texto maravilhoso. Mais uma vez reforça o que eu acredito: a única mudança possível é interna. Temos que mudar a nós mesmos, sermos mais férteis, empáticos, colaborativos. Não tem jeito de criar coisas assim se nós também não formos assim 🙂

  3. Marcelle, entendo o objetivo do texto, jogar luz sobre a suposta falsa ilusão de uma nova economia que demora em emergir. Se buscarmos na história, a vida de modelos econômicos durou mil anos em média: era agrária, era industrial. Hoje, de fato, vivemos essa transição. E faz quantos anos? 10? 15? Que a olhos nús, pode não ser muito clara, mas, o modelo distribuído já é realidade. A curva de transição ainda não se tornou exponencial, mas está caminhando. Vamos olhar o copo cheio!

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