Nunca demolir, reconhecer a cidade, projetar infraestruturas, assumir novos papéis

 Tour Bois Le Prêtre, dos arquitetos franceses Anne Lacaton, Jean-Philippe Vassal, and Frédéric Druot. Foto: Philippe Ruault via Metropolis Mag

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“Quando me dei conta, e acreditava que estava preparado para avançar, os bombeiros já haviam definido a altura (70m), os consultores ingleses a modulação dos pilares (3 automóveis) e os engenheiros a espessura das lajes (35cm). Com o núcleo central imposto pelas normativas de segurança (2 escadas e 4 elevadores), a largura do edifício saiu do esforço possível que a laje poderia suportar (27m).

Será que a arquitetura das torres é sempre assim, tipo ‘Big Mac’? Siza construindo ao lado, mais esperto, me confirmou que sim. Mas de nada serve lamentar-nos.

A silhueta foi imposta e Alberti (firmitas, utilitas, venustas) definitivamente enterrado. Restava-nos a arquitetura da pele (Herzog tinha razão).”

Eduardo Souto de Moura, em Edificio comercial y de oficinas Burgo Empreendimento (El Croquis Editorial, 2009)

Na indústria da construção civil, a definição de programa, tipologia, tecnologia construtiva e padrão de construção é realizada predominantemente pelos incorporadores e corretores de imóveis. Volumetria, padrões de circulação e aberturas decorrem quase diretamente das legislações de regulação urbana e prevenção e combate a incêndio. Ao arquiteto reserva-se a tarefa de dar um bom aproveitamento da disposição em planta — pré-definida pelo corretor e baseada nos modelos pré-existentes que são exemplos bem sucedidos de venda — e definir os materiais das fachadas — a arquitetura da pele — a partir de uma reduzida paleta que associa custo compatível com o empreendimento e a expectativa de representação social necessária para a boa comercialização do produto. Em alguns casos, ao trabalho do arquiteto se antecipa a participação de publicitários, convocados a pensar a fachada dentro das tendências de moda. Se arquitetos e mercado imobiliário coexistem há tempos, as variadas contradições e tensões nesta complexa relação tampouco são novidade.

Desenho de L. B. Alberti, 1420

Nesse contexto é possível diferenciar, de um lado, condicionantes que podem ser entendidos como pragmáticos, cujos fundamentos são mais facilmente aferidos por se tratarem de definições que se dão — ou deveriam dar-se — em instâncias técnicas — projetos de arquitetura e engenharia, técnicas construtivas, custos de implantação, custos de comercialização, tempo de planejamento e construção — ou legais — restrições de legislação de uso do solo, prevenção e combate a incêndio, impacto ambiental, entre outras; e de outro lado condicionantes cujo valor ou precisão são intangíveis, que podem ser denominados de não-pragmáticos. Estes decorrem de preconceitos e formulações parciais sobre o mercado por parte de seus agentes e resultam na criação de valores não-intrínsecos ao objeto.

Tais valores, em geral, se orientam pela necessidade de diferenciação e representação social que o produto pode proporcionar a seus compradores. Uma das maiores contradições do mercado imobiliário pode ser visualizada pela metáfora do arquiteto-equilibrista: por um lado, o edifício deve sempre trazer aparentes novidades; por outro, deve construir uma imagem reconhecível. A novidade se faz através dos mesmos mecanismos de indução das transformações do gosto, de obsolescência programada e de criação de valores de signo e diferença que orientam a moda e a decoração, neste caso, porém, aplicada a produtos um tanto mais caros, mais duráveis e com mais responsabilidade em relação à cidade. Em aparente oposição a essa cultura do novo, há uma busca pela repetição de padrões.

Esse paradoxo revela o mais profundo conservadorismo dos mercados, que nunca correm riscos. Ele se sustenta na ideia de que é infinitamente mais fácil convencer alguém a consumir um produto que já conhece do que algo totalmente desconhecido, o que tem gerado a esmagadora maioria dos edifícios das nossas cidades grandes e médias, definidos por volumes prismáticos de grande compacidade, com uma compartimentação interna que repete a subdivisão espacial da casa burguesa, com clara diferenciação entre os setores social, íntimo e de serviço.

O princípio da organização interna do apartamento-tipo pode ser entendido como um núcleo duro do mercado. Toda a liberdade do arquiteto é, portanto, circunscrita ao desenho das varandas, que se plugam a este núcleo duro e pretendem produzir uma aparente singularidade do edifício. Mesmo em alguns projetos que supostamente promoveriam avanços em relação aos princípios de mercado, a variação mais significativa que se encontra, sob o ponto de vista tipológico e programático, não repropõe este núcleo duro, mas se limita à reinterpretação do elemento acessório — a varanda —, ora acrescentando-lhe alturas variadas, com pés-direitos duplos, às vezes alternados, ora desenhando estruturas em balanço, ora agregando-lhe novos equipamentos, como bares e churrasqueiras, ora transformando-a em jardins suspensos para torná-la mais adequada ao discurso de sustentabilidade ambiental, recém instituído como instrumento de marketing. Outro aspecto que formata a visão da média geral dos agentes do mercado é a estratificação sócio-econômica: é raro encontrar edifícios com alguma variedade de tipos, com áreas variadas e para público diversificado, como se fez amplamente na produção imobiliária residencial dos anos 1950 aos 1970.

Neste mercado em que o arquiteto tem a relevância de um traço — e remuneração proporcional à sua relevância —, algumas pequenas, mas importantes contrafações permitem identificar alternativas à massificação funcionalista que decorre das suas lógicas. A primeira delas é um exemplo que vem de fora. Quando tratamos do habitar em uma metrópole contemporânea, em que as densidades populacionais são altíssimas, o custo da terra, exorbitante e as infraestruturas, congestionadas, o que é mais escasso, e portanto se converteria no maior luxo possível, não são os materiais, mas sim, espaço: maior área construída privativa com qualidade ambiental, como defendem Druot, Lacaton e Vassal.

Tour Bois Le Prêtre, dos arquitetos franceses Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal. Foto: Philippe Ruault via Uncube Magazine

Os arquitetos franceses têm realizado intervenções em edifícios residenciais existentes salvando-os da demolição e potencializando as virtudes de uma época em que se construíam apartamentos com área privativa mais generosa do que atualmente. Ao introduzir novos elementos que ampliam a área construída de cada unidade, promover maior abertura e transparência das fachadas — o que melhora significativamente a qualidade ambiental dos espaços internos — e desobstruir a excessiva compartimentação original, promovem uma requalificação de fato, para além da mera renovação material dos edifícios. Urge trazer essa discussão ao contexto brasileiro, visto que as áreas centrais de nossas capitais têm uma grande quantidade de edifícios produzidos entre os anos 1940 e 1970 cuja renovação é iminente e urgente, e que podem ser salvos da demolição. A atitude de não demolir apresenta ainda forte preocupação ambiental, ao, por um lado, evitar uma grande geração de resíduos, e por outro, dispensar um enorme esforço e investimento para uma nova construção.

Um segundo exemplo importante é a iniciativa pontual de incorporadoras que investem em arquitetura. O representante mais conhecido desse pequeno grupo é a incorporadora IdeiaZarvos!, de São Paulo, que introduz preocupações incomuns na concepção de seus empreendimentos: o respeito aos bairros em que constrói, a geração de impactos positivos nos locais, a criação de pequenas praças e espaços públicos integrados aos edifícios, a racionalização no uso de recursos naturais, a racionalização dos elementos permanentes de estrutura e infraestrutura de modo a favorecer a transformação e criar real flexibilidade, e, mais importante, a opção deliberada por contratar bons arquitetos para desenhar seus edifícios. Ao fazer essa opção e ao utilizar isso como marketing e criação de diferença, a empresa se insere de maneira inteligente e sem ingenuidade no mercado, apropriando-se da lógica da diferenciação para transformar a arquitetura em signo, ampliar o valor e acelerar as vendas de seus produtos. Como consequência, gera alguns efeitos colaterais positivos que repercutem em qualidade para seus clientes e, mais importante, para a cidade.

Uma terceira contrafação às práticas do mercado decorre justamente da qualidade do trabalho dos arquitetos envolvidos nos projetos que furam a lógica dominante, particularmente ao reconhecer a falácia do funcionalismo e reverter seus esforços para o projeto dos elementos permanentes — estruturas e infraestruturas — que a um só tempo consideram a cidade e qualificam seu entorno através da presença digna dos seus edifícios na paisagem, e criam suportes indeterminados que reconhecem a possibilidade de transformação dos espaços do cotidiano. Um bom exemplo dessa atitude é o Edifício Simpatia, projetado pelo Grupo SP — Alvaro Puntoni, João Sodré, Jonathan Davies — por estabelecer uma síntese ­virtuosa que inclui o reconhecimento do sítio, da topografia e da geografia, criar espaços abertos e com grande qualidade ambiental e urbana, responder às exigências contemporâneas de indeterminação e abertura ao usuário e apresentar um rigor construtivo que revela um consistente aprendizado com aqueles que lhes precederam.

Edifício Simpatia. Foto: Nelson Kon via ArchDaily

Por último, uma ação possível no contexto da produção imobiliária consiste da superação da prática reativa convencional de produção de projetos por demanda de incorporadores. Guardadas as raras exceções em que a arquitetura integra a pauta que formata os empreendimentos, em geral a prática de elaboração de projetos nesse contexto resume-se à formalização da legislação e à execução da respectiva aprovação legal do projeto junto aos órgãos competentes. Uma alternativa a essa prática reativa é o deslocamento do arquiteto de sua posição de projetista, prestador de serviços, para a de construtor ou de incorporador. Ao fazê-lo, o arquiteto assume para si uma porção mais significativa do poder de decisão — o que se reflete proporcionalmente na sua responsabilidade e na sua remuneração.

Um exemplo relevante é prática corrente na Argentina. Ali, um dispositivo legal denominado Fideicomiso permite que arquitetos comandem todo o processo de concepção, construção e comercialização de edifícios residenciais de pequeno e médio porte. Através da organização de grupos de proprietários ou investidores que financiam o processo de construção, conduzido sob a coordenação do arquiteto, amplia-se significativamente a diversidade da oferta imobiliária quanto à tipologia e padrão construtivo. Amplia-se, também, o campo de atuação dos arquitetos e consequentemente seu potencial de remuneração. O mais visível efeito desse sistema é uma qualidade consideravelmente superior da construção média nas cidades, o que contribui, somado a outros cuidados de planejamento no âmbito público, para garantir uma qualidade urbana bastante acima da média das cidades brasileiras.

Nos últimos anos, várias iniciativas de inserção não convencional do arquiteto no âmbito da produção imobiliária — seja na incorporação, na construção, na comercialização ou na organização de grupos de construção e condomínios — vêm permitindo criar meios para produzir edifícios que fogem da massificação orquestrada pelo mercado. Em um ambiente dominado por edifícios sem imaginação, cada iniciativa, por menor que pareça, cumpre uma função fundamental de abrir caminhos e demonstrar possibilidades para a construção de cidades melhores.

Autor
Carlos Alberto Maciel é arquiteto, mestre e doutor pela Escola de Arquitetura da UFMG, onde é professor de projeto. É um dos sócios fundadores do escritório de arquitetura ArquitetosAssociados, um dos escritórios brasileiros mais reconhecidos de sua geração, baseado em Belo Horizonte e responsável por diversas obras premiadas no Brasil e no exterior, como as Galerias Miguel Rio Branco e Claudia Andujar, ambos em Inhotim. É também sócio-fundador da OVO, empresa que procura introduzir valores da arquitetura na produção e no mercado imobiliário. Pensar a arquitetura como infraestrutura implica em reconhecer seu potencial de construção da cidade e sua abertura à transformação. Construções duram mais do que pessoas. Pensar sua permanência digna, ativando o espaço público e acomodando usos imprevistos é um modo de redefinir o potencial de novas estruturas e de edificações obsoletas como oportunidades para a cidade. Além de abordar esses temas na aula de abertura do curso, Carlos Alberto atuará como mediador em cada uma das aulas dos demais convidados, articulando os diversos conteúdos ao longo do curso.

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