Quebrando muros e (re)construindo pontes: uma reflexão nada inédita sobre os novos rumos da educação

 Foto: Cel Lisboa

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Orações coordenadas e subordinadas, totalmente descoordenadas e insubordinadas em minha cabeça; a “fórmula de Bhaskara” com suas equações cheias de raízes (seriam essas como as do feijão ou da cenoura?); Hess e Newton com suas leis nada jurídicas; e a história, com suas datas indecoráveis e seus fatos indecorosos?

Este era o meu pensamento no colégio. Não assim tão claro e nem tão crítico, mas, desde sempre, inconformado.

Na verdade, ainda que reconhecidamente uma boa aluna, não via muito sentido em todos aqueles conteúdos desconectados e pouco práticos. Matérias organizadas num pesado e indigesto cronograma anual, num modelo que condiciona o estudante a ser um “aluno nota 10”, incentivando a competitividade e desestimulando a cooperação entre os pequenos indivíduos em formação.

Hoje, há anos fora do banco da escola, percebo que minhas boas notas eram muito mais um reflexo da habilidade humana de reproduzir informações que fruto de um processo de assimilação e construção de conhecimento.

Já pensou nisto?  Pois é!

Vira e mexe vejo gente se queixando que o ensino regular, com sua metodologia compartimentada, parece não atender à necessidade de uma sociedade cujo conhecimento mostra-se cada vez mais multidisciplinar e conectado.

Crianças, adolescentes e mesmo nós adultos, que crescemos acompanhando o avanço exponencial da tecnologia, não sentimos que o modelo de aprendizagem a que fomos – e ainda somos – submetidos satisfaça nossos desejos de aprender e muito menos utilize nosso potencial cognitivo de maneira produtiva e eficiente.

A educação pode e deve sim encontrar novas direções, mas nada acontece de diferente quando continuamos fazendo o mesmo.

Já até virou clichê, mas vale a pena repetir: é preciso romper com os modelos convencionais há tanto ultrapassados em busca de uma nova escola, que se organize em torno dos valores e dos interesses que unem as pessoas naquele espaço compartilhado.

E justamente por ser um espaço compartilhado, é preciso que o ambiente escolar seja terreno fértil para o reconhecimento dos alunos enquanto indivíduos atuantes na comunidade e no contexto social em que estão inseridos.

É necessário criar vínculos, fortalecer valores comuns, construir pontes. E por falar em pontes…

A Escola da Ponte: liberdade e cidadania.

A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, é o nome de um livro concebido pelo educador e escritor Rubem Alves sobre a inovadora Escola da Ponte em Portugal, descrita por ele como “um único espaço partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciado o fim de uma disciplina e o início de outra”.

Inserida no sistema público de educação e situada em São Tomé de Negrelos, próximo à cidade do Porto, a Escola da Ponte não adota um modelo tradicional de séries ou ciclos. Lá, o aprendizado é pautado pela confiança entre aluno e professor: não há salas de aula tradicionais, horários cronometrados, grade curricular ou provas.

Os estudantes de diferentes idades se agrupam a partir de interesses comuns para desenvolver projetos específicos de estudos. Os grupos se formam e se desfazem de acordo com os temas discutidos e com as relações afetivas que os estudantes constroem entre si.

Toda sexta feira tem assembleia na Escola da Ponte. Neste dia, os educandos e educadores vão ao auditório dialogar sobre como foi a semana e discutir propostas sempre pensadas para o aperfeiçoamento da escola. De crianças a adultos, todos têm igualmente direito a voz. Todos opinam.

Nessas assembleias se expõem problemas e se encontram soluções. Nelas, os alunos são os responsáveis por estabelecer suas regras de convivência, numa lista de “Direitos e Deveres”, cabendo também a eles estipular a forma como serão tratadas eventuais desobediências, numa espécie de Tribunal composto por eles próprios. Na parede há murais com os dizeres “Eu já sei” e “Preciso de ajuda”, em que os estudantes ofertam e solicitam auxílio – os que já aprenderam e se sentem aptos, ajudam aqueles que tenham alguma dificuldade. Forma-se aí a “Comissão de Ajuda”.

Até as avaliações seguem outra sistemática: professor e aluno definem, em conjunto, a forma como o conhecimento adquirido será avaliado. Para demonstrar o aprendizado, tudo vale – uma apresentação, uma conversa, um experimento – de tal maneira que o processo avaliativo não tolha o desejo de aprender do aluno.

Como se vê, em seu plano educacional[1], a Escola da Ponte integra e corresponsabiliza todos os envolvidos da comunidade escolar na sua construção, a partir da perspectiva de que o indivíduo se faz no coletivo e o coletivo se alimenta e se completa com a singularidade de cada um. A ideia é estabelecer um programa de forma personalizada para cada estudante, em diálogo com o que ele – em sua unicidade – deseja descobrir sobre o outro e sobre o mundo em sua volta.

Assim, o percurso educativo do aluno se faz a partir de um conhecimento cada vez mais aprofundado de si próprio e de um relacionamento solidário e empático com os outros. Remetendo-me, aliás, à abordagem da inteligência emocional de Daniel Goleman mencionada em nossa conversa anterior a criança tem toda capacidade de se autodesenvolver quando é estimulada a aprender na medida de sua necessidade, interesse e capacidade de assimilação.

“As crianças que sabem ensinam as crianças que não sabem. Isso não é exceção. É a rotina do dia a dia. A aprendizagem e o ensino são um empreendimento comunitário, uma expressão de solidariedade. Mais que aprender saberes, as crianças estão a aprender valores. A ética perpassa silenciosamente, sem explicações, as relações naquela sala imensa.”

Foi assim que, visivelmente encantado, Rubem Alves constata no seu já citado livro que a Escola da Ponte, diferentemente de outras escolas, não tem a cidadania como algo a ser atingido, mas como uma prática diária e quase involuntária.

[1] Para saber mais: http://www.escoladaponte.pt/novo/.

Foto: Reprodução do Facebook/Escola da Ponte

Na Ponte, os educandos compartilham espaços, somam valores e multiplicam conhecimento. Estimula-se a autonomia e cria-se empatia, sendo o ensino um ato de colaboração mútua entre estudantes e professores, numa verdadeira expressão de solidariedade.

Um lugar que dá acesso a ferramentas para alcançar soluções em conjunto, que estimula a troca constante de saberes e a responsabilização contínua de todos os alunos com o seu próprio aprendizado e dos demais colegas. Os alunos são protagonistas na construção de sua própria educação, sentindo-se cada vez mais motivados a aprender e fazer novas descobertas.

Lá vive-se o que se aprende e aprende-se o que se vive. O conhecimento se constrói a partir da necessidade do sujeito, com base em sua realidade, sem deixar de lado os aspectos sociais, políticos e socioeconômicos.

Isso dialoga intimamente com a pedagogia de Paulo Freire, outro afamado estudioso e referência mundial quando o assunto é Educação. Ao tratar do desenvolvimento da cidadania e da autonomia do educando, o método freireano sugere que, no processo de alfabetização deve-se substituir a lógica do beabá pelas “frases inteiras”, utilizando-se das chamadas “palavras geradoras”, retiradas do universo do aluno, que servirão de base para o seu aprendizado. As crianças desenvolvem de forma autônoma a capacidade da escrita e da leitura, cada qual no seu tempo e no seu próprio ritmo de aprendizagem.

Afinal, é assim que se desenvolve a autonomia dos educandos: estimulando o autoconhecimento e o reconhecimento de sua realidade, para que eles mesmos possam descobrir suas competências e habilidades. Trata-se da educação como prática de liberdade que tão bem ensina Paulo Freire: aquela que busca formar alunos pensantes e não meros repetidores de uma série de palavras que muitas vezes não lhes fazem o menor sentido. Alfabetizar para que o aluno possa, a partir da escrita, compreender o seu cotidiano, suas atitudes e o universo ao seu redor e, assim, poder escrever a sua própria história. Essa “tomada de consciência” produz no ser social a busca dos seus direitos de forma consciente e libertadora.

Aprendiam, assim, que a escrita serve para dizer a vida que cada um vive.
Rubem Alves

Foto: Divulgação

O modelo ponteano, aliás, me remete ao que tem sido desenvolvido aqui em Belo Horizonte/MG, logo ali, no bairro Serra.

Formada em 2004 e influenciada por nomes como o já citado educador Paulo Freire e José Pacheco, coordenador da Escola da Ponte por mais 30 anos, a “Escola da Serra”[2] também se apresenta como uma escola liberta de convenções – não há uniformes, nem carteiras, nem séries, nem etapas, nem turmas, nem notas, nem aulas – em que “os alunos estudam intensamente, convivem de forma afetuosa e colaborativa, ampliam a sensibilidade, a criatividade e o autoconhecimento, vivenciam a democracia e, em decorrência da forma como se organizam as atividades diárias, desenvolvem a iniciativa, a independência, a habilidade de pesquisa, a autonomia e a solidariedade.[3]

Da compreensão de que os indivíduos são diferentes entre si e que não se desenvolvem no mesmo ritmo, do mesmo modo, de um jeito “programado”, em vez de séries anuais, a Escola da Serra adota os chamados Ciclos de Formação de três anos.  Este modelo organizacional assegura ao educando um período contínuo de trabalho ao longo do qual ele tem a possibilidade de desenvolver ideias e criar solo fértil para nele florescer.

Este exemplo mostra que as inovações educacionais não estão assim tão longe e nem são tão utópicas quanto podem parecer, me fazendo crer que a mudança que queremos acontece bem aqui, todos os dias, sob nossos olhos e ao alcance das nossas mãos.

Se a vida não segue padrões, o ensino também não o deveria.

A essência é conectar-se ao prazer de aprender, à compreensão dos valores e dos saberes populares. Pelo convívio social, o aprender a ser, a viver e a conviver – nestes locais, constrói-se, de fato, uma sociedade de sujeitos participantes, com valores democráticos, lúcidos em sua liberdade e educados na cidadania.

Vendo tudo isso, é difícil não repensar o método escolar tradicional em que nos formamos e a limitação deste sistema em nos tornar seres mais críticos capazes de compreender o todo ao nosso redor. Talvez estivéssemos próximos demais a um quadro negro para enxergar algo além de nós mesmos.

[2] Acesse o site da Escola da Serra

[3] Veja mais do Projeto Pedagógico da Escola da Serra aqui

Autor
Cresci cheia de perguntas sem nunca me convencer das respostas. Minha teimosa curiosidade e alma inquieta sempre me fizeram questionar o mundo e a forma como me ensinaram a enxergá-lo.  Desde esse tempo, aliás, flerto com a "Educação", questionando suas fórmulas comportamentais e acompanhando o movimento criativo que gira em torno das mudanças nesse espaço. De Cecília Meireles a Paulo Freire, da tabuada decorada da professora do primário às longas prosas nos cafés da tarde com o Vovô, sou um todo fragmentado, inteira na minha incompletude e certa de que a vida é mesmo feita de trocas: de afeto e de conhecimento.  Hoje, Eugênia, (re)construo o mundo sob a minha ótica - por vezes, meio míope – e o pincelo com minhas cores. Se meus devaneios e reflexões tocarem ao menos um de vocês, já terá valido a viagem.

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