Nude como bandeira

 Kanye West durante a Yeezus Tour, em 2013. Foto: Wetpaint.

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Há alguns anos, em relatórios muitíssimo detalhados, os bastiões das tendências têm tentado eleger tons de cores como manifestações políticas dentro da indústria da moda. Em 2016, logo após as marchas feministas que sucederam a eleição de Trump, o Millenial Pink foi o tom escolhido pela juventude que queria retratar seus ideais em pussyhats e composições que contestavam tradições de masculinidade (um salve para a dobradinha Harry Styles e Alessandro Michelle). O vermelho, especialmente em tons monocromáticos, teve a sua vez ao longo de todo 2017, com uma insurgência no final de 2018 no embate entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. A Pantone elegeu o Living Coral para 2019 jurando levantar bandeira pela vida nos oceanos. Mas a gente sabe que há 2 dedos cruzados pelas costas: afinal, estamos falando de uma indústria de moda, bastante hábil em fazer com que símbolos se desconectem de seus discursos e figurem amarrotadas em antipáticos manequins da Forever 21. Há, contudo, um movimento cromático que tem perdurado a força de seu discurso: o nude.

Dos tons rosados aos mais terrosos, os nudes passaram de artifício de disfarce à demarcação de presença, especialmente entre a comunidade negra. Kanye West, mais uma vez, mostrou seu senso poderoso para capturar o zeitgeist e fez algumas experimentações bastante ousadas com as paletas terrosas na Yeezy, um gesto fortalecido pela batuta poderosa das irmãs Kardashian sobre o mercado da moda e da beleza. Com Kim como garota-propaganda e Kylie Jenner promovendo uma corrida alucinante em busca de lábios como os dela, as lojas ganharam um estranho movimento de pessoas que obsessivamente comparam os tons dos produtos com os da própria pele.

Coleção da Yeezy. Fonte: Elle.

Christian Louboutin também mostrou tino para a questão quando lançou coleções de suas sandálias e escarpins em 6 tons “de pele”, em 2013. Com 40 tons de base, Rihanna revolucionou o mercado da beleza com a Fenty Beauty e trouxe suas percepções para a SavageXFenty, sua linha de lingerie. Meghan Markle, a mais arretada membro da Família Real britânica, subiu ao altar com um visual que só fez ressaltar a sua pele, incluindo as suas sardas. Fazem apenas algumas semanas que comemoramos o lançamento de sapatilhas profissionais para bailarinas negras.

Então cá estamos nós, em 2018, catatônicos diante das promessas de Jair Bolsonaro para o nosso país, quando somos apresentados à Michelle Bolsonaro. A futura primeira-dama visitou Marcela Temer para decidir qual das residências oficiais da presidência a família irá ocupar, fazendo uma ode tocante às esposas-troféu de nosso país.

Foto: Jornal do Brasil

Dos cabelos caramelo e alisados à tatuagem com o nome do marido no pulso, todos os elementos na aparência dela indicam o que é ser uma “mulher na medida”. Os tons escolhidos para o terninho de alfaiataria, porém, jogaram o recado na mesa: não há uso mais evidente do nude como artifício de silenciamento. Suas escolhas encobrem tudo: o tom rosa esculpe os recortes retos do terno, que cobre o colo com formas também geométricas. O escarpin de bico fino cumpre o mesmo papel dos aneisinhos nos dedos: o comovente charminho da discrição.

O efeito do rosa logo mexeu com os feromônios da imprensa, que elogiou a postura de Michelle. Ricardo Noblat, da Veja, já lançou um relevante palpite sobre a formosura na dança das cadeiras do Planalto. Tudo o que sabemos sobre a futura primeira-dama é que é “uma ovelha amada e cuidada” e está casada “com um príncipe”. Não se sabe do que gosta, o que deseja, de onde veio. E assim pretendem eles que também fiquemos. Ainda bem que temos a novíssima coleção da Risqué para lembrar de onde viemos.

Autor
Jornalista formada em Comunicação Social pela UFMG e estudante de Design de Produto na UEMG. Engulo livros e revistas, mas não cuspo fogo! Acredito que a moda é um potente meio de expressão das particularidades de cada um. Mas quando percebi que pessoas como minhas amigas e eu não estávamos nas revistas que comprávamos, desassosseguei de vez. A gente adora tendência, mas o propósito e a consciência vêm em primeiro lugar. E foi movida por essa busca que me engajei em cobrir moda com os olhinhos brilhando e o dedo em riste. Colaboro com a Review Slow Living e publico narrativas livres em meu perfil no Medium.

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