O fogo da morte no corpo da terra

 Foto: Agência Brasil

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por Ruben Caixeta

Enquanto comemoramos os 20 anos de demarcação da Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, constatamos a luta desesperada dos índios Guarani Kaiowá pela sobrevivência num pequeno pedaço de terra no Mato Grosso do Sul. Nos últimos meses fomos sacudidos e chocados por imagens e palavras: de um lado, a terra nos era mostrada como um “ente vivo” que merece respeito e cuidado dos humanos; de outro, a terra era reduzida a objeto a ser usado e transformado em mercadoria pelo homem.

Num artigo publicado em outubro de 2012, José Ribamar Bessa Freire conta-nos que os Guarani, no primeiro século da era cristã, saíram da região amazônica, onde viviam, e caminharam em direção ao sul do continente. Dois mil anos depois, um italiano, nascido em 1948 na Toscana, atravessou o oceano Atlântico com sua família, veio para Porto Alegre, de lá para Curitiba, se naturalizou brasileiro e se instalou, finalmente, no Mato Grosso do Sul, onde encontrou os Guarani, que lá estavam há quase 2 milênios. O italiano, André Puccinnelli, recém-chegado, se tornou governador do Estado em 2007.

A partir de 1915, os índios do Mato Grosso do Sul começaram a ver seus espaços restringidos a pequenas reservas pelo Estado brasileiro, através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), para que as terras indígenas fossem disponibilizadas em prol do avanço das frentes de colonização pastoril e agrícola. Tal como o governador André Puccinnelli, os fazendeiros, pecuaristas e agronegociantes que chegaram ao Mato Grosso do Sul e ocuparam as terras dos índios eram, na sua maioria, provenientes dos estados do sul. O confinamento dos Guarani em pequenas reservas se intensificou nos anos de 1970: alguns deles foram parar em acampamentos em beiras de estrada, outros se dispersaram no meio dos brancos ou em terras estrangeiras, enquanto aumentavam as fazendas de gado, plantações de cana, soja e outras lavouras de grande extensão.

Numa carta de 17 de março de 2007, os professores e líderes Kaiowá disseram: “o fogo da morte passou no corpo da terra, secando suas veias. O ardume do fogo torra sua pele. A mata chora e depois morre. O veneno intoxica. O lixo sufoca. A pisada do boi magoa o solo. O trator revira a terra.

Calma, essa história continua aqui.

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