O óleo no Nordeste é sobre o Brasil que nos tornamos

 

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Tenho observado o caso, que tem sido divulgado como o pior desastre ambiental do país, do derramamento de óleo no litoral do nordeste. Vejo políticos dando as costas. Vejo a população se engajando e, com as próprias mãos, agindo para tentar salvar o pouco que podem, amenizando a situação na superfície. E penso: como essa região não explode frente ao descaso demonstrado? Como as populações que dependem do mar para a sobrevivência não se rebelam quando isso acontece? Claro, sempre esperamos que outros façam o enfrentamento em nosso lugar.

No fim das contas, não é muito diferente da questão dos efeitos colaterais da mineração e dos dois criminosos casos de rompimento de barragens, que causaram e seguem causando destruição, que vai muito além das mortes e do desespero daqueles diretamente atingidos. Não tem tampouco grande discrepância da devastação causada pelas queimadas na floresta amazônica. Como o poder público atuou nesses casos? Infelizmente, muito pouco apoio tem sido dado até hoje.

A gravidade da exploração dos recursos naturais e da população vulnerabilizada raramente é reconhecida e realmente considerada por aqueles que detém o poder. E não me refiro somente ao poder público, que tendemos a demonizar e acusar sem saber como solucionar (tendo em vista a crise de representatividade e o descrédito com as mudanças sociais via política, que resultam no desastre atual), mas também às corporações e grandes empresas, que muitas vezes apresentam um discurso de responsabilidade ambiental que serve muito como propaganda mas não é efetivamente praticado.

O problema tende a piorar. Os tais agentes do poder são deliberadamente irresponsáveis e tendem a ignorá-lo. O neoliberalismo tem sido acatado sem a devida preocupação com os impactos esperados da flexibilização de legislações e a impunidade dos presidentes de grandes empresas extrativistas. A natureza dando sinais de falência, o clima se transformando, mas preferimos acreditar que aquecimento global é discurso de comunista.

A que ponto chegamos, Brasil? A quem interessa essa situação? Representantes de outros países se revoltam com a queimada na Amazônia, o dia vira noite em São Paulo e a lama invade uma cidade próxima a Belo Horizonte, ameaçando o abastecimento de água da capital mineira. As consequências se aproximam do Sudeste e das cidades ricas, causando apreensão de alguns enquanto outros apenas fecham os olhos. Mais uma vez. E outra.

Em Brasília, ah, intocável Brasília, são capazes de ignorar os problemas que não se pode ver de longe. Sim, no interior do Brasil, centro geográfico que conectaria todos os cantos do país, isolam-se nos armários do poder para “trabalhar” por um Brazil que não reconheço, que não vive nas ruas e esquinas, que marginaliza os marginalizados, o Brasil que nos tornamos.

Autor
é mestre em arquitetura e urbanismo pela UFMG e reside em Ouro Preto, atuando como professora na UFOP. Interessa-se por temas transversais e pelas diversas formas de linguagem que nos rodeiam: desenho, escrita, fotografia, design gráfico. Sua visão crítica da condição urbana e humana na contemporaneidade não cai no pessimismo, mas busca uma reflexão cotidiana acerca da realidade social.

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