O que as árvores diriam?

 O livro das árvores -Ticuna, desenhos da Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngues e Jussara Gomes Gruber

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* Texto de Wellington Cançado para a Revista PISEAGRAMA.

Nos idos de 1955, ao sobrevoar o Brasil Central em plena campanha para a presidência, Juscelino Kubitschek diria ter sentido “o problema em todas as suas implicações. Dois terços do território nacional ainda estavam virgens da presença humana. Eram os vazios demográficos de que falavam os sociólogos”. E em vez de continuar “arranhando as areias das praias, como caranguejos”, o Brasil deveria extinguir seus espaços vazios, pois “o grande desafio da nossa História estava ali”, escreveria vinte anos mais tarde em seu livro Porque construí Brasília.

“A irradiação de um sistema desbravador” logo estaria completa com a “tomada de posse do território, nos moldes da tradição colonial”do Plano Piloto de Lúcio Costa. Brasília, a Meta-Síntese desse empreendimento colossal de design do território, seria “o veículo e o instrumento de conquista, desencadeando um novo ciclo bandeirante”.

Como índice gráfico dessa visão de país, e como diagrama da metástase fractal que estaria por vir, Mary Vieira apresentaria, na Interbau 1957, em Berlim, o cartaz celebratório brasilien baut Brasilia, no qual uma imensa superfície verde-bandeira enquadra o solo vermelho-sangue com as coordenadas da mítica intervenção humana.

Mas contrariando a sanha etnocêntrica dos designers modernos, o Mapa etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes, publicado em 1944 por Curt Nimuendaju, já apresentava os arredores da área (pré)destinada ao Distrito Federal como território historicamente ocupado pelos Kaiapó, Xacriabá, Akroá, Akwe-Xavante, Bororo e Paresí.

Passados mais de seis décadas, a invisibilidade de certos humanos e o mito da natureza virgem continuam atuantes no imaginário brasileiro, bem como a técnica rodoviária tornada urbanismo e a terra arrasada como modus operandi desse renitente autocolonialismo. Assim como perduram a devastação do que ainda resta da Mata Atlântica, a extinção inexorável do Cerrado para a integração do país no mercado de futuros e a destruição sistemática da Amazônia e seus habitantes como política de Estado.

A tenebrosa, indevassável e misteriosa floresta amazônica dos tempos de Juscelino, última fronteira ao norte e reduto de um país pré-paisagem, é violada ao ritmo sertanejo em uma epifania agromachonaturalista: mulher-descartável, floresta-objeto e vice-versa. Mas não sem que a Queda do Céu se anuncie.

A “vontade de derrubar uma floresta inteira pra tirar o retrato de uma certa árvore”, máxima de Marcel Gautherot, fotógrafo da etérea utopia moderna brasileira, se tornou imagem corriqueira. Mas agora a certa árvore é cada vez mais a única árvore solitária em meio às pastagens e aos campos de soja, esquadrinhados de acordo com a rigorosa geometria do regime logístico global.

Enquanto isso, no interior da mata, “a natureza segundo os índios” contraria a hegemonia perspectiva e o distanciamento ótico, e o desenho, o cinema e a fotografia são canibalizados como ferramentas cosmopolíticas para mediar as relações entre as pessoas e os seres da floresta. Mas não só.

Ao longo da história do país foram muitos os que se detiveram às formas peculiares de relação do brasileiro com a natureza e alertaram para os riscos de um colapso civilizatório e ambiental caso nada fosse feito. Como bem sabemos, muito pouco foi feito, a não ser políticas de aceleração da catástrofe, metas de desmatamento-zero para quando não houver o que desmatar, leilões de nacos da floresta entre grileiros e ruralistas. Ou como enxergaria com terrível lucidez o antropólogo kaiowá Tonico Benites: “os brasileiros ainda estão descobrindo o Brasil”.

O livro das árvores -Ticuna, desenhos da Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngues e Jussara Gomes Gruber

José Bonifácio, o primeiro crítico ambiental do país, já em 1821 apontava o desestímulo ao avanço tecnológico e a falta de cuidado com a terra inerentes à escravidão e ao latifúndio como decisivos para a devastação ambiental, como mostra José Augusto Pádua em seu precioso livro Um sopro de destruição. E Sérgio Buarque de Holanda reafirmaria, em Raízes do Brasil, que “sem o braço escravo, a terra farta, terra para gastar e arruinar, não para proteger ciosamente”, a monocultura seria impensável. Que o agrobusiness continue a reivindicar mais terras e trabalho escravo em 2017 não é mera coincidência.

Mas seria Euclides da Cunha, prefaciando o livro Inferno Verde, de Alberto Rangel, ainda em 1907, que colocaria precocemente o Brasil no debate sobre o Antropoceno: “temos sido um agente geológico nefasto e um elemento de antagonismo bárbaro da própria natureza”. Pois, “numa época em que dominam os milagres da engenharia e da biologia industrial, a nossa cultura tem como efeito final barbarizar a terra”.

Com o avanço do século XX, o enfoque da devastação se volta para as cidades e, à medida que o país se urbaniza, o distanciamento entre o meio natural e a vida cotidiana se intensifica.

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