O texto e o tempo para uma cerveja

 Foto: Luana Simonini

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Imagine eu e você. Calma, esse não é um convite romântico. Apenas, imagine. Estamos em um bar (tomamos uma cerveja, que tal?) e conto para você sobre meu primeiro dia de aula na faculdade. Conto os detalhes de como não conhecia ninguém e sentia medo. Talvez eu divida contigo que, se eu pudesse, não escolheria esse curso, faria outro, mas, naquela época, fazia sentido seguir esse caminho.

No meu ponto final, imediatamente, você contaria a sua experiência. Às vezes, não seria na faculdade, mas seria a sua primeira vez de algo. Provavelmente, com algumas semelhanças, talvez o medo seria o mesmo e a frustração também. Naquele instante, a gente se tornaria reflexo, um da memória do outro. Minha lembrança se tornou a sua e vice-versa.

As histórias nos transformam em espelhos.

O texto tem essa capacidade. Por abrigar uma memória de alguém, as palavras conseguem nos deslocar para o nosso próprio tempo. Num poema, conto, verso, música, colocamos nossos sentimentos e sentidos à disposição. Aquele passado, perpetuado pela tinta e papel, ou pelos caracteres num post do Facebook, se torna o presente de quem lê.

Escrever é um processo solitário, mas publicar-se é encontro.

Talvez esse seja meu fascínio pelo texto. Como se as letras pudessem me transformar em tantas outras histórias que não são as minhas. Como se a palavra pudesse parar o tempo.

Aos meus 12 anos, fiz da agenda do Hospital Mário Pena um diário. Comecei com uma criptografia barata e guardei alguns segredos da idade. Visitei esse mesmo diário recentemente e me vi ali, com os mesmos medos. Naveguei pelo tempo, essa correnteza brava que passa e afoga, e fiz do meu próprio passado, meu presente.
O texto é esse convite de se deslocar pelos anos e se tornar contemporâneo ao que lê.

Lembra que estávamos no bar? Pois bem, o bar que imaginei ao escrever por aqui é diferente do bar que você pensou. A cerveja, as pessoas, o clima (imaginei um dia quente, como hoje, e você?), tudo é diferente e, ao mesmo tempo, igual.

Igual porque estávamos juntos, unidos por uma memória que nem aconteceu, mas, mesmo assim, é compartilhada.

Escrever é um exercício constante de empatia.

Experimente. Escreva e publique. Deixe seu texto ser encontro do outro. Numa mesa de bar, numa primeira vez, num brinde. Revisite seus diários. Coloque no papel o que não quer esquecer. Se o tempo sempre ganha, brinquemos, então, de navegar pelas horas a partir da palavra.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.
Vá fundo neste assunto:
  1. Lindo texto, Luana. Parabéns pelas palavras e pela sensibilidade! Eu tenho um projeto de escrever cartas e ao escrevê-las me sinto exatamente como você descreveu: como seu eu e o destinatário estivéssemos unidos por uma memória “comum”.

    1. Ei, Luisa! Que delícia seu recado. É exatamente isso. Pelo texto, a gente compartilha tanta coisa da gente e, quando se dá conta, somos todos filhos da mesma memória. Obrigada por dividir suas impressões.

  2. Deus sempre me dá o que eu preciso… e eu precisava desse texto nessa manhã solitária de 11 de Janeiro de 2018… o medo de uma menina no primeiro dia de faculdade é o mesmo medo de um jovem senhor a kilometros da família e num lugar repleto de pessoas estranhas… e somente o texto consegue conectar estes mesmos medos em tempos tão distantes… Obrigado Luana… Obrigado meu Deus!

  3. Ah! Eu amo cada palavra que você escreve, é totalmente alma, cheguei um dia dizer que odiava ler, até conhecer seu livro, sua crônica, meus livros e meus violões são como filhos, as pessoas tem de cuidar como tal… 😁😂❤❤👏👏👏✍✍ Keep writing ✍👏

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