Observar é agir

 Foto: Leopoldo Rezende

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Imediatista e prática, dessas que só pensa depois que fez, me vi à deriva nos últimos meses. Justo eu, que me ouço tanto pelo texto, me vi em silêncio nas letras e nas palavras. Não sei, mas passei a exercitar a observação calada sem perceber.

As histórias acontecem sem narradores na vida da gente. Na miudeza do vazio, sem fala ou trilha, nascemos, nos apaixonamos, nos decepcionamos, crescemos, aprendemos, erramos — mesmo que aprender e errar sejam quase sinônimo no dicionário da vida real, e, enfim, morremos. É na solidão que brotamos e criamos raízes.

Não falo da solidão da ausência do outro ou de si. Falo, de fato, da solidão de expectativas. Aquela solidão sábia que só as avós têm ao se sentar na varanda depois do almoço e observar as nuvens brincarem.

Também não falo dessa raiz que finca na terra e só permite movimentos ensaiados pelos ventos. Falo de raiz no que somos, daquelas descabeladas que vão correndo em direção ao que faz bem.

Nesse meu exercício involuntário do silêncio, enraizei.

Estar em estado permanente de observação é, então, uma questão de sobrevivência. Manter-se atento é manter-se vivo. No imediatismo tão cobrado pelo tempo dos outros, a gente se arranca, feito flores que enfeitam a mesa de jantar de alguém.

Eu, que me orgulhava tanto de ser prática, me senti presa num vasinho com água parada. Chamam isso de idade. Envelhecer tem mesmo essa beleza do encontro de si com o próprio tempo. Você já viveu o suficiente para saber o que não gosta, mas ainda brinca no quintal do futuro sem entender o que realmente precisa. Como bebês de colo, nós, adultos, não sabemos ainda como nos alimentar sozinho das coisas boas. Resolvi, então, parar.

Simplesmente parar e me fincar ali, onde estava.

Me esvaziei e me vi repleta desse infinito chamado espera. Sabe que tem uma beleza escondida nesse encontro às escuras? Não sei o que esperar, mas aceito e assumo o que virá. Ainda estamos no início do ano, eu sei, mas o passarinho das horas me contou que observar também é agir.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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  1. Da última vez que nos vimos, me marcou sua fala de que escrita é encontro! Esse texto, em especial, foi um desses, como que com aquele amigo de anos, que te conhece, te compreende e tem as palavras certas pra acalentar a desconcertante ansiedade! Venho realmente aprendendo, a duras penas, que observar é também agir! E que seja assim, até que a segurança do caminho a se seguir emerja no tempo de cada um e não no dos outros! Texto incrível!

    1. Também me lembro de quando me encontrei no seus textos e, principalmente, nas suas memórias. Encontros assim, precisam mesmo de tempo. Não o dos outros, o nosso. Obrigada, querido!

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