Olhares criativos sobre a cidade

 Letras e placas encontradas em descarte de shopping center. Foto: Mariana Falcão

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Cena 1: Caminhando pela rua numa manhã de sábado, me deparo com uma pintura emoldurada jogada numa lixeira. O autor, identificado apenas como “Souza”, representou inúmeras faces ocupando toda a superfície da tela, dando origem a uma composição bastante expressiva. Em seu verso, uma dedicatória escrita em duas versões, francês e português, parabenizam uma certa Luiza em ocasião de seu aniversário de trinta anos.

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Quadro com faces, de autoria de Souza. Foto: Luiza Ananias

Cena 2: Caminhando pela rua numa tarde de domingo, vislumbro em uma caçamba algumas fotografias de uma criança. As fotos dão a ver um garoto de aproximadamente cinco anos, cujo corte de cabelo sugere a década de 1970 como provável época de registro. Entre pôsteres emoldurados e pequenas reproduções 10×15, o sorriso do garoto se mistura à poeira do interior da caçamba, criando um contraste desconcertante entre os momentos felizes registrados e a aspereza do container de descarte.

Cena 3: Caminhando pela rua na noite do dia 17 de outubro de 2016, vejo um boneco do Fofão jogado no passeio junto a outros resíduos às vésperas da coleta seletiva passar. O boneco, de corpo macio e bochechas sujas, ressuscita o fato de que Orival Pessini havia falecido justamente na semana anterior àquela. Reflito sobre a ironia do descarte do boneco apenas três dias após a morte do criador do personagem.

Fofão encontrado na rua. Foto de Daniel Corrêa

Essas cenas trazem em seu bojo características particulares, mas muitos aspectos semelhantes. Se tratam de acontecimentos com circunstâncias distintas, mas que compartilham as ruas da cidade como cenário de fundo. São também eventos cujos personagens são objetos dotados de profundidade, uma vez que são fragmentos da vida de pessoas ordinárias: não devem ser vistos como matéria inerte, mas como possuidores de uma fala silenciosa, pois são carregados de histórias e capazes de trazer à tona indícios de outros tempos. São ainda detentores de potencial de vida útil pós-descarte: o quadro das faces se transformou em presente para um amigo aniversariante, o Fofão foi trocado por uma escultura e as fotografias viraram fragmentos da obra de um amigo artista.

Esses e tantos outros objetos descartados nas vias públicas da capital podem dar origem ou servir de matéria prima para a criação de novos objetos, funcionais ou decorativos. Quando as contingências do meio urbano apresentam potencial de trazer à tona possibilidades de aproveitamento do que é considerado sem valor, encontra-se aí também uma excelente oportunidade de se valer desses substratos para refletir sobre os impactos ambientais provocados pelo excesso de lixo e resíduos gerados nos grandes núcleos urbanos, e da forma que estes resíduos, cujo potencial de vida útil ainda é latente, são aproveitados. A coleta de objetos nas ruas da cidade é uma ação que incorpora as contingências presentes no próprio espaço para tirar partido das mesmas, num movimento que abrange o desenho dessa cidade e os substratos que ela produz e descarta. Através de olhares atentos ao que é eleito como lixo, é possível identificar o que é resíduo para recolhê-los e ressignificá-los, dando origem a novos objetos, aptos a fazerem parte de novas histórias.

De acordo com o portal da PBH, são coletadas por dia nas ruas de Belo Horizonte cerca de 4.700 toneladas de lixo sendo que, deste total, 320 toneladas de material — que incluem entulho da construção civil, papel, metal, plástico, vidro — são destinados a reciclagem, ou seja, se tratam de resíduos. A coleta seletiva acontece na capital através dos 94 Locais de Entrega Voluntária (LEV) espalhados pela cidade e pela coleta de porta em porta, que atua em 30 bairros da região metropolitana e é responsável por recolher por mês 630 toneladas de material reciclável. Esse material é encaminhado para os galpões das sete cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis. Além da coleta de porta em porta e dos postos para entrega voluntária de lixo reciclável, a cidade conta também com os catadores ambulantes, que percorrem as ruas de Belo Horizonte e recolhem, além de materiais como papel, vidro e metal, objetos danificados que foram descartados de forma incorreta nas ruas. As ações dos catadores na cidade têm um papel fundamental na reciclagem e no reaproveitamento de resíduos, uma vez que são eles os responsáveis por garimpar materiais e objetos nos montantes descartados no meio urbano, que muitas vezes não passaram por nenhum tipo de triagem nas residências, instituições e comércios. O trabalho desses profissionais ajuda a reduzir o impacto que estes resíduos geram no meio ambiente, já que são eles os responsáveis por selecionar e encaminhar parte desses resíduos para os galpões das cooperativas e associações de catadores.

Embora a coleta de resíduos e materiais descartáveis seja uma prática eficiente sob inúmeros aspectos, a reciclagem por si só é um processo que necessita que os materiais reciclados sejam novamente transformados em matéria prima. Este processo é complexo pois demanda investimentos e ações específicas, de custo considerável. Já a restauração e ressignificação de peças são práticas mais sustentáveis, pois não exigem que os resíduos retornem ao estado primário, o que minimiza ainda mais os impactos no meio ambiente. O lixo pode ser definido como qualquer tipo de matéria suja ou sem utilidade, descartada ou eliminada no meio ambiente. Já os resíduos são materiais ou objetos cujo primeiro ciclo de vida se encerrou, mas cuja vida útil pode ser prolongada através de reciclagem, técnicas de restauração, ou até mesmo através de ações de ressignificação desses objetos ou materiais para que os mesmos entrem em novos ciclos de uso. O “upcycle” consiste justamente em transformar produtos ou objetos sem uso em novos materiais ou produtos de valor, uso e qualidade. É uma técnica eficiente pois consiste em ressignificar de forma sustentável esses itens, uma vez que não é necessário que as peças em questão passem por processos químicos, o que minimiza ou elimina impactos no meio ambiente.

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Tv descartada em plena Rua do Ouro. Foto Daniel Corrêa

O Coletivo Gambiologia nos propõe uma reflexão importante sobre a possibilidade de subverter os ciclos de uso dos objetos. É possível, através de um olhar criativo sobre o mundo, desconstruir e reconstruir a própria realidade, reconfigurando a função dos materiais para criar o “novo” a partir do “velho” e canalizando um processo de mudança de hábitos. Um olhar criativo sob objetos sem uso é capaz de alterar lógicas industriais e mercadológicas, pois demonstra como o deslocamento das funções originais desses objetos pode se tornar uma prática valiosa de aproveitamento e manejo do mundo. Sob esse aspecto, essa criatividade é também um diferencial estratégico em um contexto de concorrência e crise, onde as soluções diferenciadas são fundamentais por inspirarem movimentos de mudança, onde não apenas o material manipulado se transforma, mas também quem opera essa transformação através da experiência prática.

Referências:

Portal PBH, Janeiro 2018
Facta #2 Revista de gambiologia: Acúmulo, ação criativa, Belo Horizonte. Volume 2. Outubro 2013.
Facta #3 Revista de gambiologia: Poética hacker, Belo Horizonte. Volume 3. Abril 2015.
Facta #4 Revista de gambiologia #4: Gambiarra em movimento, Belo Horizonte. Volume 4. Outubro 2017.
ROSA, Marcos L. Micro planejamento: Práticas urbanas criativas. São Paulo: Cultura, 2011.

Autor
Mariana Falcão Duarte é arquiteta, Mestre em Arquitetura e Urbanismo e Especialista História da Arte Contemporânea. Atua no escritório de arquitetura auCUBO.design, onde elabora projetos arquitetônicos, de interiores, institucionais, cenográficos e expográficos, além de também integrar o ColetivoAU, um coletivo de arquitetos que se propõe a ressignificar e restaurar peças garimpadas nas ruas, em caçambas, topa-tudo e antiquários.

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