Luta, celebração e memória no Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+

 

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O país da bancada da Bala, do Boi e da Bíblia é o mesmo país que colore a principal avenida da maior cidade latinoamericana com as sete cores do arco-íris — e quantas mais se fizerem presentes. O país que mais mata LGBTs no mundo é também o que promove a maior Parada do Orgulho LGBT, reunindo mais de 3 milhões de pessoas em São Paulo no último domingo. O país que tem um Ministério essencialmente cis-masculino e branco é o mesmo que tem representatividades como Talíria Perone, Jean Wyllys, Áurea Carolina, David Miranda e Marielle Franco, sempre presente! 

Foto: Reprodução – Estadão

O país que tem Jair Bolsonaro como Presidente da República é o mesmo que tem Pabllo Vittar, uma drag queen, despontando como um dos grandes nomes do pop mundial. Nessa realidade contrastante, fica a certeza de que existir enquanto pessoa LGBT no Brasil é, definitivamente, um ato de resistência. 

O mês de junho é o Mês da Diversidade e hoje, dia 28, celebra-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+. Dia de luta, celebração e memória. Dia de lembrar de quem há anos exige nossos direitos; lembrar daqueles que sobreviveram e de quem perdeu a vida lutando para ser quem se é com liberdade e respeito. 

50 anos de Stonewall

Em 2019, há um marco de 50 anos do episódio que deu origem às Marchas e Paradas do Orgulho LGBT ao redor do mundo inteiro. Em 28 de junho de 1969, frequentadores do lendário Stonewall Inn — um reduto queer localizado no West Village, em Nova Iorque, foram surpreendidos por uma brutal invasão policial, sob alegação de que a venda de bebidas alcóolicas era proibida ali. Neste episódio, a polícia prendeu funcionários e começou a agredir e a levar sob custódia alguns clientes travestis e ou drag queens que não estavam usando ao menos três peças de roupa “adequadas” a seu gênero, como mandava a lei. 

Sim, a lei. Até 1962, relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas crime em todos os Estados Unidos. O primeiro estado a alterar seu Código Penal e descriminalizar a homossexualidade foi Illinois. Apenas uma década depois, em 1972, outros Estados seguiram o mesmo caminho. Em Nova Iorque, nos anos 1980, e apenas em 2003 essa lei foi abolida de vez. 

Após esse triste episódio, teve início uma série de protestos e marchas em defesa dos direitos LGBT, que começaram em Nova Iorque, se espalhando para outras grandes cidades como Chicago e São Francisco, e depois para países europeus. Essa pauta, finalmente, ganhava espaço para debate  — nas ruas e na esfera pública. 

50 anos depois… 

Para manter viva essa memória e fortalecer as manifestações de junho de 2019, conferimos nos últimos dias boas iniciativas e notícias que renovam um pouco as esperanças. O histórico cruzamento da Gay Street com Christopher Street], localizado no mesmo bairro do Stonewall Inn, foi renomeado como “Rua da Aceitação”, recebendo a instalação de uma placa onde constam diversas possibilidades de orientação sexual, desde o dia 17 de junho. 

Foto: Reprodução – The Guardian

A iniciativa foi amplamente defendida pela Comissão de Direitos Humanos da cidade, mesma comissão que há algumas semanas oficializou o reconhecimento de 31 identidades de gênero possíveis. Sem dúvidas um grande avanço para a sociedade e para as pessoas que não se identificam na lógica normativa binária. 

Os 31 gêneros — totalmente passíveis de serem complementados — são: 

  1. Bi-Gendered (Bi-gênero)
  2. Cross-Dresser
  3. Drag-King
  4. Drag-Queen
  5. Femme Queen
  6. Female-to-Male (Fêmea-para-macho)
  7. FTM
  8. Gender Bender (Gênero fronteiriço)
  9. Genderqueer
  10. Male-To-Female (Macho-para-fêmea)
  11. MTF
  12. Non-Op
  13. Hijra
  14. Pangender (Pangênero)
  15. Transexual/Transsexual
  16. Trans Person (Pessoa trans)
  17. Woman (Mulher)
  18. Man (Homem)
  19. Butch
  20. Two-Spirit (espirito duplo)
  21. Trans
  22. Agender (sem gênero)
  23. Third Sex (Terceiro sexo)
  24. Gender Fluid (Gênero fluido)
  25. Non-Binary Transgender (transgênero não binário)
  26. Androgyne (andrógena)
  27. Gender-Gifted
  28. Gender Bender
  29. Femme
  30. Person of Transgender Experience (Pessoa em experiência transgênera)
  31. Androgynous (Andrógeno)

Quem se recusar a tratar o indivíduo da forma como ele prefere é processado e condenado a pagar uma multa que pode chegar a até seis dígitos. 

Tudo está longe de ser o cenário ideal e seguro, mas também há motivos para celebrar. Listei aqui algumas notícias recentes, boas ou não, sobre decisões relacionadas a gênero ou sexualidade. 

  • Na última segunda, o plenário da Câmara dos Deputados recebeu representantes do movimento LGBTQ, além de Daniela Mercury e uma grande bandeira de arco-íris, e promoveu uma sessão solene pelos 50 anos do Levante de Stonewall. 
  • Recente e finalmente, o Superior Tribunal Eleitoral (STF) criminalizou a homofobia, agora enquadrada como crime de racismo.
  • Outra da série “antes tarde do que mais tarde ainda”, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou da sua classificação oficial de doenças o “transtorno de identidade de gênero”, definição que considerava como doença mental a situação de pessoas trans.

Hype: pra não dizer que não falei das flores 

Agora, algumas felizes e recentes descobertas da Cultura Queer que vale a pena conferir, bem como projetos locais de Belo Horizonte que pautam a vivência e a luta LGBT. 

Crônicas de São Francisco

A série de 10 episódios lançada pela Netflix em homenagem ao Mês da Diversidade é inspirada na obra Tales of The City, uma série de romances escritos por Armistead Maupin entre 1978 e 2014. Na criação do streaming, mergulhamos nas histórias de uma comunidade LGBT que reúne membros várias gerações em São Francisco. São exploradas temáticas como o início do movimento queer na Califórnia, transição de gênero, laços familiares, tudo com uma boa pitada de suspense, humor e marijuana

Música das gay 

Pesquisando músicas, coisa que amo fazer, me deparei nos últimos dias com verdadeiros hinos da Nova Música Popular Brasileira, e quero que você também se contagie. São dois lançamentos recentes que retratam a diversidade e riqueza cultural do nosso país. 

AmarElo — Emicida, Majur e Pabllo Vittar 

Lançado há 3 dias, esse videoclipe provoca desde um nó na garganta até um afago no coração. É um grito de liberdade, sensível e realista, que busca combater a depressão e prevenir o suicídio. Além da mistura sensacional desses três grandes artistas contemporâneos, a música nos presenteia com um sample de Belchior. “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. 

Johnny Hooker, ícone queer de nossa geração e importante representatividade, que inclusive foi nomeado pela ONU Brasil como campeão da igualdade na campanha de Livres & Iguais, colocou no mundo covers de clássicas músicas, com arranjos ousados e um timbre de cair o queixo. 

TransVest 

Um projeto artístico-pedagógico que objetiva combater a transfobia e incluir travestis, transexuais e transgêneros na sociedade. Fundado por Duda Salabert, a atuação se dá por meio da promoção de cursos de línguas, pré-vestibular, oficinas, etc. 

Academia Transliterária

Grupo de Literatura, fundado em 2016, para que pessoas trans sejam protagonistas de discussões e expressões artísticas. A premissa é incluir as diversas representações de gênero na escrita, na fala e na arte como um todo. 

Foto: Fernanda Carvalho

Reconhecer nossa identidade é um processo constante de construção e desconstrução. Compartilhamos experiências ao mesmo tempo em que cada luta é única. Ninguém sabe da dor do outro. Mas uma coisa é sabida: nosso orgulho é muito grande pra ficar dentro do armário. E não, não existe problema algum em sentir insegurança para sair desse lugar de esconderijo — a sociedade, muitas vezes, pode ser cruel. Mas com certeza juntxs, criando redes de afeto e de afetação, vamos além!

Nos vemos no dia 14 de julho, na Parada do Orgulho LGBT de BH! #PRIDE 🌈

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou. Da produção cultural ao conteúdo digital, me redescubro nos encontros, e nos desencontros me reinvento. Sempre além.

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