Orgulho LGBTQI: você se orgulha de quê?

 Foto: Reprodução/Facebook

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Madrugada fria em BH. Corpos seminus, acostumados ao sereno, aguardam nas esquinas das avenidas. Um carro sem pudor se aproxima. Uma mulher sem nome entra. A cada partida de destino incerto, ela deixa um pouco de si para trás.

Será que ela volta? Não. A pergunta não é poesia.

O número de assassinatos a travestis é o maior em 10 anos no Brasil. Não por acaso, nosso país é o que mais mata travestis e transexuais. A história ali em cima é genérica por se repetir com a mesma rapidez em que você lê este texto sem pausa. A expectativa dessas mulheres (coloco assim por serem a maioria) é de 35 anos.

Quais são seus planos de vida aos 40? Empreender? Ter filhos? Talvez um ano sabático? Uma travesti tem um só: estar viva.

Eu, branca, cis, no auge da minha classemediasice, peço licença para um lugar de fala que não é o meu, mas me dói. E não vou colocar esses números para baixo do tapete como fazemos (sim, em primeira pessoa do plural) todos os dias.

Sinto dor porque sinto culpa.

Sinto culpa por Mirella de Carlo e por todas as outras que foram jogadas para a margem das cidades e das horas. Para elas, sobraram as periferias e as madrugadas. Mirella era minha vizinha. Morava a uma travessia da minha rua. Nunca a vi. Aliás, nunca a notei.

Enquanto dormia exausta por algum dia útil, ela enfrentava seu algoz. Mirella, garota de programa e defensora dos direitos de pessoas trans, foi sufocada com uma toalha de banho dentro do próprio quarto.

Ela fugiu de uma das estatísticas, morreu aos 39. Mas fez coro a um dos dados mais cruéis: 90% das travestis fazem programa. Na ausência de si, seja na carteira de identidade com nome que não é seu ou no espelho que não a reflete, cada uma delas não se encontra também no mercado de trabalho.

Com quantas travestis você se relaciona ou já se relacionou de qualquer forma? Alguma vez deu uma oportunidade de emprego para alguma travesti?

Pelas suas respostas, divido a culpa com você. 41% delas sãos portadoras do HIV. Se a morte não chega a galope fantasiada de preconceito e fúria, chega silenciosa com a hipocrisia: o país que mais mata é o mesmo que mais consome pornografia com travestis.

Muitas não usam camisinha para ganhar 5 reais a mais. Se ela tem culpa em aceitar proposta tão cretina? Bom, prefiro apontar o dedo para quem a faz.

Prefiro apontar o dedo para mim mesma que respondi nenhuma e não às duas perguntas acima.

No dia do orgulho LGBTQI, data em que se reforça o debate contra a homofobia e o orgulho de ser, me vi refém de tantos dados e dessa culpa que não quer se calar até hoje. Ainda bem.

Na contramão das estatísticas, em Belo Horizonte, a TransVest traz um sopro para travestis e transexuais que querem colorir as universidades e o mercado de trabalho. O projeto, liderado por Duda Salabert, professora, lésbica, travesti E (como se esse aposto já não fosse bom o suficiente) candidata ao senado, traz um espaço educativo com oficinas, pré-vestibular, supletivo, curso de libras e cursos de línguas para a população trans da cidade.

Resumindo: vai ter travestis no seu trabalho, na universidade e onde elas quiserem SIM!
Lembra das perguntas que fiz? Então, a ONG tem um banco de currículos com muitos nomes e habilidades esperando por uma oportunidade. Quem sabe daqui uns anos, nós, privilegiados, não dividimos um pouco do orgulho dessa data, não é mesmo?

#MirellaPresente

PS. do amor: aí vai um agradecimento especial à equipe da TransVest que participou do debate promovido pela MaxMilhas, no dia 26 de junho.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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