Os lugares e as lições

 Foto: Mariana Lima

Receba artigos sobre cidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Será que percebemos os lugares por onde passamos todos os dias? Será que conhecemos a cidade que habitamos? Em bate-papos corriqueiros um ou outro prédio pode acabar virando assunto, seja para auxiliar no senso de direção ou por causar algum estranhamento. Todavia, não é assim tão comum presenciar conversas em que o ambiente construído seja realmente pauta de discussão, de colocação de opiniões e críticas.

Pode não ser, mas poderia, deveria. Nos dias atuais, morar em áreas urbanas é a condição da maioria das pessoas, que tem seu cotidiano moldado por questões atreladas justamente à localidade em que vive. Essa cidade que permeia e molda constantemente as nossas vidas, que por vezes pode parecer tão sólida, intocável e imutável é na verdade simultaneamente habitada e construída. É isso que precisamos manter em mente. Se a cidade é vivenciada por todos, capaz de interferir no cotidiano de cada um e está em constante transformação, ela precisa, cada vez mais, ser encarada como campo de discussão de todos, para todos.

Dedicar o olhar atento para o ambiente construído, conhecer as dinâmicas que regem as cidades e estabelecer vínculos com o lugar que habitamos nos permite posicionar diante da realidade, imaginar outras possibilidades e sermos mais ativos na construção de um dia a dia melhor.
Direcionando o olhar para os lugares existentes podemos descobrir mais sobre vida urbana, sobre cidadania, sobre arquitetura e urbanismo, entre tantas outras questões que podem ser úteis para você, habitante ou visitante. Com isso, ganhamos ainda a possibilidade de saber mais sobre as cidades, de conhecer novos lugares e, claro, abrilhantar nosso bate-papo de cada dia.

Dizem que Belo Horizonte é a cidade das esquinas. Então, para começar essa série de textos que pretende nascer através da dedicação do olhar para o entorno, que tal falarmos de uma das esquinas mais famosas da capital mineira? A Praça Sete de Setembro é um local por onde milhares de pessoas passam diariamente, é palco de manifestações populares, ponto de compra, venda, encontro e um nó disputado no sistema viário da cidade. É um local consolidado, de ocupação histórica e de grande impacto até os dias atuais.

Por ali, a sobreposição de camadas é embriagante: fachadas de vidro ou ecléticas, em art-decó e intervenções pós-modernas se somam aos mais variados tipos de pessoas, dentre os quais tem presença confirmada os hippies e, em horários específicos, os dançarinos de Soul music que surpreendem os recém chegados que se enveredam pela Avenida Afonso Pena ao sair da rodoviária, assim como as pregações religiosas que se confundem com os truques de mágica, bem ao lado dos anunciantes de foto, chip, ouro, celular, dentista, advogado, sempre ali por perto de quem se junta à multidão para percorrer a faixa de pedestres antes que o primeiro ônibus da fila de carros já comece a buzinar pedindo licença… Já reparou?

Tamanha agitação é composta ali pelo encontro de duas importantes avenidas da cidade com outras duas ruas, que juntas conformam oito pontos de acesso e quatro eixos de visadas. As ruas, em caráter de quarteirão fechado naquele trecho desde 1971, graciosamente caracterizam respiros para os pedestres que já venceram a etapa de correr sobre as linhas brancas e vermelhas da travessia.

Estáticos, os edifícios dão ritmo ao vazio deixado pelo entroncamento viário e parecem conversar com o fato de estarem localizados justamente na esquina, ao situarem nelas grandes aberturas, áreas de acesso ou até mesmo pontos de transformação de todo o volume, como fazem os brises do atual P7 Criativo, a antiga sede Banco Mineiro da Produção (Oscar Niemeyer, 1953).

Foto: Mariana Lima

O diálogo é estabelecido também com a malha urbana – ali presente antes de qualquer edifício: a conformação triangular dos prédios é essencialmente uma consequência do formato também triangular do lote deixado pelo arruamento proposto. Todos têm a sua geometria gerada pela criação de planos paralelos às ruas adjacentes, que se conectam nos fundos por um grande plano fechado – vizinho ao próximo edifício – e na frente por uma ponta em curva ou chanfro, que se projeta para o centro da praça.

Planta da Praça 7. Projeto: Mariana Lima

Os “cheios” que circundam e delimitam o vazio, acabam por reforçá-lo, dirigindo as atenções para o centro da praça e gentilmente intensificando seu caráter. Colaboram para isso o monumento conhecido como “Pirulito da Praça Sete” – que ali foi implantado em 1924, tornando-se símbolo do espaço – e o desenho de piso circular que parte do centro do cruzamento das vias até atingir as quadras.

Vista Isométrica da Praça 7

Para além da forma dos edifícios, o que mais colabora para o intenso movimento e para o carácter de “praça pública” é a penetrabilidade das construções ali inseridas, que implantam em seu térreo usos de livre acesso ao público, como lojas, bancos, bares, equipamentos públicos ou instituições de uso coletivo.

Dessa maneira, eles conseguem estabelecer um diálogo direto com a rica movimentação de pedestres e com a existência de áreas livres. A praça se torna importante e conhecida por estar próxima de lugares capazes de atrair movimento, bem como tais lugares se tornam de fácil acesso por estarem junto à praça. Certos usos inclusive se apropriam dos quarteirões fechados e se expandem, como é o caso dos bares que dispõem suas mesas ao ar
livre e que, por isso, já garantem público fiel para as quintas de Música na Varanda no Cine Theatro Brasil.

Desde que decidi olhar pro lado, a Praça Sete me enche os olhos. Ela nos permite identificar e presenciar uma das grandes lições que aprendi sobre os espaços: eles – quase que metidos a organismos vivos, mas em pura decorrência das nossas ações sobre eles – podem conversar entre si, se transformarem um em função do outro e se potencializarem. Pudesse a cidade ser sempre assim, um belo diálogo entre lugares e pessoas, em que um cooperativamente colabora para a força do outro. Estaríamos feitos!

Autor
Arquiteta e urbanista pela Universidade Federal de Minas Gerais. Belo-horizontina, tem o desejo de unir a paixão pela profissão com o interesse por escrita, arte e design. Para começar essa aventura, colocará em pauta conteúdos sobre a vida nas cidades e o despertar da curiosidade por meio de lugares que permeiam o cotidiano.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express