Outubro Rosa: não tenha medo de se tocar

 

Receba artigos sobre semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Era uma tarde ensolarada e feliz, vinte oito de setembro de 2017 para ser exata, saí pra comemorar um projeto que começava a se realizar. Não chovia há meses em Belo Horizonte mas nesse dia caiu um temporal, foi ali num bar, cercada de amigos, que eu toquei pela primeira vez o meu tumor. Em função de uma forte dor na axila, levei a mão na lateral do peito, e o senti. Soube naquele instante: aquilo não era meu. Minha mãe nem titubeou, me disse para procurar meu médico, mastologista que a acompanha desde que foi diagnosticada com câncer de mama e se curou, com o qual eu havia me consultado cinco meses antes.

Estive antes com uma ginecologista que ao me examinar sequer notou o nódulo. Quando a mostrei o nódulo obtive como resposta: isso ai é normal, você é muito nova. Insisti que ela pedisse um exame para que eu pudesse levar ao meu mastologista. Contrariada ela solicitou, afinal quais eram as chances de uma jovem saudável de 21 anos ter câncer? Meu médico ao ver o resultado do ultrassom também duvidou de algo sério, mas por insistência materna só deixei o consultório com um pedido de biópsia.

Numa tarde igualmente ensolarada, voltando de bicicleta da aula, recebi uma ligação do meu médico para que eu fosse até seu consultório. O resultado havia saído e ele me disse: a notícia que eu tenho para te dar não é boa. FIquei aguardando pelo ”é ótima” mas ele não falou. Sentada, com o sorriso se desfazendo no rosto por instantes que pareceram ter durado uma eternidade, só entendi quando vi minha mãe levando as mãos ao rosto. Os dias que se passaram são como um borrão: uma maratona de exames, várias consultas e médicos, incontáveis olhares desacreditados de que o diagnóstico de câncer de mama lobular invasivo pertencia mim.

Me lembro que no momento do diagnóstico não tive nenhuma reação, apenas me vieram à cabeça lembranças de todos os contatos que eu havia tido com o câncer na vida. Meu primeiro sentimento foi medo, não por mim, e sim pela minha mãe ao meu lado, será que ela iria dar conta de passar por isso de novo? No fim do dia chorei, senti o peso da impotência e toda minha pequenez no universo, a incompreensão me levou a raiva e a culpa. Por que comigo? Por que agora?

Não havia outro caminho a ser tomado. Felizmente surgiram almas iluminadas, médicos irretocáveis, minha família paciente e cuidadosa e amigos afetuosos. O exame genético revelou que o meu fator não se tratava do tipo mais comum (BRCA1 e BRCA2), e não era o mesmo da minha mãe. Com apenas uma gotinha de sangue descobri que minha alteração genética sequer era “brasileira”. Me submeti a uma mastectomia radical, uma das mamas estava tomada por tumores e a outra preventivamente me foi tirada. O pós-operatório foi uma tortura, os remédios me alucinavam, as dores não me permitiam dormir e eu nem me reconhecia no espelho. O que me pareceu uma eternidade na época hoje são memórias distantes. Um mês depois lá estava eu levantando completamente os braços pela primeira vez no meio de um bloquinho de carnaval.

Logo em seguida iniciei a tão temida quimioterapia e fui surpreendida com a evolução do tratamento: remédios que combatem os efeitos colaterais tão indesejados, com novas tecnologias que me permitiram não ficar careca, com um tratamento interdisciplinar em que até a meditação era incentivada. E apesar da minha terapia não ter sido leve, o que me levou a uma internação grave, consegui atravessar oito meses de tratamento trabalhando, estudando, saindo e vivendo. Imediatamente depois dei início a radioterapia, que embora indolor e quase sem efeitos, me desafiava diariamente a sair de casa apesar do cansaço. Ao lembrar que pouco faltava me motivava a pegar o metrô todos os dias para ficar apenas cinco minutos embaixo de uma máquina.

Eu fiz uma escolha quando percebi que não tinha controle do meu diagnóstico, decidi que o câncer não seria minha vida e sim uma pequena parte dela, e eu controlaria então todo o resto. Longe de mim romantizar o processo e me colocar como heroína, perdi as contas das vezes que quis desistir, do quanto chorei, gritei e me revoltei com tudo aquilo, perdi a conta de quantas vezes eu não dei conta. Eu nunca gostei que me dissessem que eu era forte, porque embora eu soubesse disso, tudo que eu mais queria era não precisar ser.

Como aprendizado disso tudo levo a certeza da fragilidade da vida. Embora eu fosse jovem e saudável, embora eu fizesse todos os exames, embora meus médicos achassem improvável um diagnóstico sério, percebi que estamos sujeitos a qualquer coisa quando nos aventuramos nessa jornada. Não compreender os motivos do universo nos frustra, portanto, compreender nossa condição e tirar o maior proveito dela é a melhor escolha a ser feita. Não acredito na culpa ou na punição, nem no medo da palavra, apesar de ter me deparado no caminho com muitos que pensam assim. Existe vida além do câncer.

O outubro rosa para mim já não é mais um mês de conscientização pública e política para a prevenção do câncer é um chamado latente para nos reconectarmos com nós mesmos, é uma necessidade iminente de repensarmos nossos hábitos, nossa alimentação, nossos limites e nossas prioridades. Um chamado mais forte ainda a mulher, que condicionada desde nova a padrões inalcançáveis, são ensinadas a odiarem seus corpos.  Para mim outubro rosa é uma vontade crescente para que todas nós despertemos a consciência feminina, com ternura, cuidado e força. Autocuidado vai além de máscaras de argila, é sobre tomar consciência dos ciclos, do nosso corpo, é sobre autoexame e sobre ir ao médico, é sobre o que consumimos para alimentar o físico e a alma.

Igualmente importante mas com visibilidade muito menor, novembro azul é uma campanha urgente e necessária. Há seis anos meu pai, aos 50, perdeu bravamente a batalha contra o câncer. A masculinidade tóxica, a desinformação e inverdades preconceituosas levaram meu pai a ter um diagnóstico tardio, o que diminuiu drasticamente suas chances. Novembro azul precisa ser mais como outubro rosa

Autor
Camila Alvarez é estudante quase arquiteta e urbanista pela UFMG, produtora cultural, cenógrafa com pinceladas de direção de arte e bailarina aposentada. Sagitariana que faz de tudo um pouco, especialista em resolução de B.O's e na arte de se virar nos 30. Apaixonada por cultura e escreve de vez em quando sobre as coisas da vida, os sentimentos e os mistérios do universo.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express