Quando a palavra falta, não se mate

 Foto: mvp via Unsplash

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Desde pequena, tão logo fui alfabetizada, percebi que as letras me atraiam. Nunca gostei dos números e, exatamente por rejeitá-los, jamais entendi equações e fórmulas. Parece-me razoável a lógica de que não-gostamos- daquilo-que-não-entendemos. Àquela altura, esse entendimento, em parte controverso em parte preguiçoso, foi o que apontou o caminho amoroso em direção às palavras.

As mais remotas lembranças que tenho dão conta de uma menina esquisita, fisicamente diferente e de vocação nítida à introspecção. Meus irmãos tinham cabelos lisos como índios, diria quase alvos de pele, pareciam com algum ancestral da família paterna ou materna, uns arteiros outros estudiosos. Meus cabelos nasceram revoltos, pele mais morena, corpo desconcertantemente magro. Nem brilhante, nem pouco dotada, comum, até demais. Mas, havia algo de estranho. Menos pela aparência, mais por uma sensibilidade quase prima da autocomiseração, a dar nos nervos. De alguma forma não encaixava nos moldes e os olhava como uma intrometida bisbilhota a família dos outros.

O caminho da catarse era escrever. As palavras falavam por mim, enquanto me escondia para melhor manejá-las com rigor masoquista. Coerente às questões da idade, tudo ao meu redor era vivido e sentido de forma dramática, como se encenasse uma novela mexicana a cada novo roteiro (especialmente amoroso). As amigas tiravam de letra os desencontros e aflições do coração, simplesmente viviam com alguma alegria e descontração. Eu não, gostava de esmiuçar.

Aquele era um tempo de terreno fértil. Lembro de correr para escrever, ao menor sinal de desconforto ou qual fosse a sinopse que merecesse transformar o ocorrido em texto.

Mas, não há facilidades incorporadas à escrita que vêm incrustadas aos anos, tampouco generosidade da criação livre. Encontrar-se para escrever é como parir. Não me sinto capaz de discorrer sobre talento ou se inspiração e mote específico sejam bases para construção de bons textos. A maturidade e os mais plurais caminhos percorridos não garantem que a palavra estará à disposição. Ela falta. Ela se ausenta e te deixa a ver navios, sem significado ou representação, quando achar que assim é. Voluntariosa. Escorregadia. Adorável.

O tempo das produções oníricas pode ter sido o da máxima sensibilidade juvenil, onde o mundo tem o contorno das tintas fortes que pintamos. Hoje, não raro, olho para a tela em branco do computador por angustiantes minutos e procuro não me matar. Penso nas ideias que já atormentam, respiro fundo, às vezes recorro a músicas, rogo aos santos protetores e deixo que as palavras se acomodem. Tiro da aparente anarquia, do caos que geralmente se instala, um princípio, às vezes uma ninharia, um quase nada, minha nonada.

Como cunhou Guimarães Rosa: Deus esteja!

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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