Pedalar: um ato político feminista

 Cena do filme Ovarian Psycos (2016)

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Mobilidade feminina é um tema que engendra perspectivas plurais de análise, podendo tratar-se do deslocamento da mulher em diversos aspectos e espaços, como dentre países, regiões, cidades, bairros, e até dentre sua casa e o ambiente fora dela. No meio urbano, tratar do deslocamento não se resume em somente tratar da mobilidade, mas também pensar em variáveis como trabalho, lazer, violência, moradia, e também em direitos: no direito de ir e vir, nos espaços permeáveis a sua locomoção. Há relação entre a cidade e gênero? Como a cidade é construída nas relações de gênero e como isso impacta o deslocamento das mulheres no meio urbano?

A rua, representando o local comum de contato e circulação de pessoas no meio urbano, é um espaço que ao contrário de demonstrar a igualdade de circulação das diversas pessoas que perpassam, é um espaço que demonstra a desigualdade de circulação, mobilidade e preparação desse espaço para diferentes classes, etnias, gêneros e até sexualidades. A rua expressa o encontro social de ideias, construções, performances e concepções que materializam e por vezes colocam em conflito as percepções que podem ser contidas, fechadas a quatro paredes no universo privado residencial.

A rua nunca foi um espaço dado às mulheres, e sim um espaço que ainda é reivindicado e conquistado pelos movimentos sociais feministas como uma representação visível dos conflitos e desigualdades aos direitos da mulher até os dias atuais. A mobilidade urbana feminina é um exemplo de reivindicação pela desigualdade da ocupação da mulher no meio urbano, sua necessidade de protagonismo e associações com temas ainda contemporâneos como violência, moralidade, competência e fragilidade.

“Mas você vai sozinha?” Frase comum no dia-a-dia do deslocamento feminino, associado à fragilidade, medo, violência e também demarcação de gênero, por subentender que uma mulher não pode ocupar o espaço urbano desacompanhada, principalmente desacompanhada de outro homem. É algo proveniente das desigualdades de gênero e da construção de uma sociedade binária e machista, que para tratar melhor do assunto, é necessária uma investigação quanto aos espaços de convivência e deslocamento destinados a mulheres e homens, pois este assunto transcende o universalismo do indivíduo e encara um debate sobre gênero e a construção do lugar da mulher na sociedade.

Ao tratar das formas de deslocamento das mulheres no meio urbano, perpasso dentre diversas outras categorias de análise da vivência da mulher na cidade, portanto a mobilidade urbana é o apenas um recorte da temática de gênero, como também outra área de análise que realiza uma intercepção quanto a percepção das mulheres ciclistas na forma como executam esse deslocamento.

A bicicleta e o feminismo, uma relação histórica

A bicicleta é um veículo que possui um grande apelo quanto à infância através da memória, não apenas racional como emocional e física, pois o corpo uma vez que apreende o deslocamento nunca mais o esquece, criando um laço forte com aquela experiência, que mesmo não mais utilizada é armazenada no subconsciente. Esse imaginário é, muitas vezes, perdido na adolescência, com a proximidade da possibilidade da habilitação e os incentivos e estímulos ligadas ao carro, desde os brinquedos até a reprodução dos hábitos adultos.

Quando a bicicleta não está associada ao esporte ou lazer, a entrada na fase adulta possui a marca do automóvel, por ganhar um carro por passar no vestibular, e também ligado a ocupação do espaço em trajetos mais longos até a faculdade e/ou trabalho. Essa reprodução da vida adulta é sustentada pelos exemplos de não-planejamento urbano no próprio trânsito de grandes metrópoles.

O carro pode ser utilizado como objeto de ascensão social, como um símbolo da diferença pelo investimento a ele aplicado e pelas diversas marcas da diferenciação, como de status demarcando a classe, do individualismo por representar uma mobilidade dentro de um objeto, sem uma interação direta com a cidade, pela necessidade, no caso da ausência de um transporte público de qualidade que realize o trajeto determinado com eficiência, e também pela reificação da masculinidade ao associar o carro a categorias como força, velocidade e poder.

A bicicleta, em seu surgimento na era vitoriana, ganha grande força e estímulo para servir além do lazer e status da nobreza, o movimento feminista, que buscava conquistar espaço nas cidades, literalmente nas ruas e praças, ambientes antes muito regrados e impeditivos às consideradas “mulheres de família” se associou à bicicleta como um importante veículo promotor desse empoderamento e destaque. Tal processo foi sufocado pela presença de políticas públicas e construções culturais que posteriormente colocaram o automóvel como centro na organização espacial da cidade, e junto com ele, toda a representação masculina patriarcal.

A Revolução Industrial em 1780 foi responsável, entre outros elementos, pelas novas relações econômicas, que com a venda da força de trabalho e produção em massa iniciou a entrada da mulher no mercado de trabalho. Com as revoluções tecnológicas as mulheres passaram a se deslocar ao trabalho, frequentando o espaço da rua, mesmo que ainda com salários e ocupações desiguais aos homens. Outros eventos posteriores como a ausência dos homens no mercado de trabalho nos períodos da Primeira e Segunda Guerra Mundiais também são importantes para a conquista de mais espaço da mulher no mundo do trabalho.

Esses processos são de grande importância para o empoderamento feminino e para a defesa do feminismo. Os avanços tecnológicos após os eventos da Revolução Industrial, Revolução Americana e Francesa transformaram o mundo com invenções da era moderna, e nesse cenário, em 1817, surge a bicicleta, pelo O alemão Barão Karl von Drais, a bicicleta draisiana, porém só em 1863, os irmãos Pierre e Ernest Michaud, criam um modelo mais próximo das bicicletas modernas como conhecemos, em Paris, tornando estas uma forma de diversão apreciada pelas elites.

A bicicleta surge como uma alternativa à mobilidade por carroças, charretes e cavalos e fazendo sucesso na forma de lazer e de esporte em competições. A bicicleta passa a ser reivindicada não apenas por homens, mas também pelas mulheres, que apesar dos impedimentos morais da época, como a proibição de associações de mulheres ciclistas e com a criação de mitos como uma possibilidade de atrofiação do útero ao pedalar.

Mulheres passaram a reivindicar seu espaço e visibilidade na sociedade em diversos campos quanto a igualdade como direitos das mulheres, na reforma dos vestuários e até na luta pela abolição da escravatura.

Foto do evento “Pedal e Brusinha”, iniciativa do coletivo Bicimanas de BH.

A feminista americana Susan Anthony declarou no final do século XIX: “Andar de bicicleta fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”. Esta é considerada uma característica da bicicleta como “empoderadora”, pois, diferentemente das roupas para cavalgar em que as mulheres eram colocadas de lado na montaria como adornos e não podiam ser efetivamente independentes para subir e traçar seu caminho, a bicicleta surge em um momento histórico em que as mulheres necessitam serem donas do seu próprio caminho, precisam se locomover pela cidade, necessitam de visibilidade, questões que são reivindicadas e são colocadas em pauta de luta por associações de mulheres e feministas integrando mais pautas de reivindicação.

A luta pela desobrigação social das mulheres em utilizar camadas de roupas pesadas a fim de demarcar uma separação nítida dentre os gêneros é fundamental, pois espartilhos e corseletes impediam as mulheres de respirar e causavam desmaios, reificando assim o mito da fragilidade e brancura dos corpos, em um momento que se precisava trabalhar em fábricas, pedalar e caminhar na cidade, espartilhos, conjuntos muitos pesados de roupas que impedem a locomoção e sapatos apertados de saltos são questionados em detrimento de roupas leves com mobilidade e até o início da reivindicação pela igualdade de vestimentas, como o uso de calças.

O espaço da rua é representado pela ausência desses sentimentos de familiaridade, pela ausência do pertencimento, pela vulnerabilidade. Há outra dualidade que, não é necessariamente oposta, mas complementar: aos espaços permitidos aos homens e as mulheres; enquanto a casa por pressupor esse sentimento de segurança é um espaço dado à mulher, o homem em contraponto, por ter o direito de trabalhar é permitido frequentar a rua, possuindo assim uma mobilidade de fato pela cidade.

A rua, como categoria social, deveria se apresentar como um espaço de todos, da cidadania e dos direitos iguais, porém como fruto da colonização ibérica e das relações sociais até no âmbito do trabalho, da burocracia serem regidas pela pessoalidade, pela rede de articulações que possui como forma de burlar o universalismo igualitário, a rua passa a representar um espaço vazio e por isso é tida como um espaço de desprestígio. Nessa lógica, as mulheres que carregam tantas restrições morais não teriam fáceis acessos a tal espaço por ser desprestigioso, onde caminham, segundo os preceitos da época, malandros, prostitutas e vagabundos. O caminhar resultava num desprestígio, uma vez que nobres eram carregados em liteiras, carruagens, até porque a cidade era feita sob a lama, pois o espaço zelado era o da residência e não o da porta para fora.

Os impactos causados pela Revolução Americana e pela Revolução Industrial atingem diversas esferas da vida social, como também as relações de gênero, antes demarcadas com um limite bem definido entre trabalho e a vida na casa, representando assim o início do processo em curso até hoje, de emancipação da mulher e luta por igualdade de direitos através da conquista de espaços no mercado de trabalho e na própria mobilidade pela cidade.

Atualmente, tal distinção entre casa e rua ainda pode ser observada, as marcas das construções de gênero ocorrem desde a infância, com os furos na orelha de bebês meninas, com as cores rosa ou azul das roupas, enfeites de cabelo, estampas, saias ou bermudas, enfim, recursos que demarcam desde a primeira infância as divisões de gênero e iniciam o processo de construção pessoal e social daquela pessoa.

A relação entre cultura e as brincadeiras, jogos e os brinquedos retrata uma reprodução, na forma lúdica, das construções culturais existentes no meio em que a criança se relaciona. Os meninos reificam sua masculinidade como portadores de grandes carros e aprendem desde cedo a valorizar elementos como composição do carro, velocidade e aventura, as poucas exceções à regra de carros feitos para meninas, estão associados à bonecas que possuem atividades como ir à praia ou ao shopping e são ausentes características como velocidade e aventura.

O carro, além de simbolizar tal demarcação social do binarismo de gênero, como por exemplo, a criação de divisões de gênero entre homem e mulher, e também sexual na criação heteronormativa da forma como os diversos gêneros devem se relacionar – a exemplo da desigualdade de espaços não permitidos frequência ou que são constrangidos a sua presença pela ideia de resguardo dessa mulher em detrimento ao seu marido, homem, detentor do poder majoritário dos espaços. Desde seu surgimento, o carro é vendido como um objeto de desejo para a identidade masculina, que demanda uma estruturação da cidade em torno desse objeto de desejo, como com a construção de vias, estacionamentos, publicidade, venda de acessórios, reparo, feiras de exposição, e é claro, na fabricação de brinquedos.

Essas construções culturais reduzem toda a pluralidade de papéis sociais que podem ser assumidos pelos diferentes gêneros, e criam uma aversão social àqueles que fogem a essa regra, que envolvem diversas pautas feministas atuais como a independência e igualdade salarial dentre mulheres e homens, à desconstrução da necessidade de ter filhos, principalmente ligada às mulheres, desconstrução à heterossexualidade normativa, dentre diversas outras, e aqui principalmente cabe destacar o direito da mulher à rua.

A bicicleta como movimento social e sua interseção com o feminismo

A mulher passa a circular pela cidade, mesmo que ainda sem uma equidade no processo por questões de tempo, já que possui mais atividades para administrar, além da violência que limita muitos espaços de deslocamento para as mesmas, criando uma relação muitas vezes de medo entre a mulher e a cidade. Os desdobramentos da sensação de insegurança limitam horários e espaços, indo muito além do “você vai sozinha” mesmo quando se está em companhia de outra mulher, ou seja, a ausência de um homem é uma denotação de solidão e insegurança para essa mulher.

Os vagões femininos criados no Metrô Rio são um exemplo do alto grau de insegurança que uma mulher sente na sua circulação na cidade, para além de uma sensação de violência como assaltos e roubos, mas por questões de assédio e estupro, violência contra a mulher em geral, que possui altos números no Brasil. Então, uma das maneiras mais transgressoras do papel de mulher submissa a seu homem que controla seu deslocamento apenas na sua companhia e que se relaciona diretamente a posse de um carro, seria o de mulher ciclista, como uma forma de empoderamento feminino do seu deslocamento, sobretudo independentemente da utilização do carro, um veículo tão masculinizado.

Na cidade do Rio de Janeiro, cada vez mais surgiram projetos ligados à bicicleta, com pautas em comum e parceria dentre os estados e dentre países. A partir da década de 1980, no processo de redemocratização brasileira, diversas pautas eram reerguidas como parte de uma reivindicação na participação popular nos projetos do poder público, juntamente no momento em que o mundo debatia questões como meio ambiente e sustentabilidade e os integrava nas pautas de debates locais.
Com esse estopim de cunho sustentável, a bicicleta reaparece como protagonista em meio os movimentos sociais autodeclarados cicloativistas, que defendem a utilização da bicicleta como meio de transporte e como solução urbana.

A Marcha Mundial e a Marcha das Vadias tratam, como ponto comum, reivindicações quanto à autodeterminação do corpo em debates como aborto e maternidade, do direito às ruas e à sua visibilidade, e também com meio ambiente e saúde, relativos às preocupações sustentáveis como descarte de absorventes, utilização da pílula. Esses novos movimentos têm também como caraterística marcante a presença das mobilizações por redes, principalmente por meio de redes sociais que substituem os domínios pagos de sites.

Esse novo perfil de através das redes que são realizados debates e também marcações de reuniões e mobilizações presenciais, até por possuírem em seus nomes a ideia de “Marcha”, portanto de ocupação da rua e movimento no meio urbano. A relação entre a mulher e a rua reaparece, tornando assim possível uma reaproximação entre o movimento com os debates sobre mobilidade urbana pelo uso da bicicleta, que também debatem questões em comum sobre a visibilidade e identidade, corpo e suas representações no meio urbano, meio ambiente e saúde. Os debates de ambos os movimentos criaram uma pauta comum no Brasil, sobre a violência, assédio, representatividade, autonomia, liberdade, dentre outras.

Mulheres e as bicicletas possuem uma história partilhada de luta por visibilidade e direito a rua. A bicicleta é um instrumento utilizado pelos movimentos sociais atuais e pelo debate feminista como uma representação da conquista de direitos e como uma extensão do próprio corpo que busca retomar para si a independência da mobilidade na cidade. A partir do momento que a bicicleta se associa a um veículo ativo, que torna a mulher agente do deslocamento, há uma sensação de liberdade que se sobrepõe, pois quando as mesmas utilizam outros veículos e o transporte público, não se sentiriam mais seguras uma vez que seus deslocamentos estariam dependendo de outros sujeitos, como a espera num ponto de ônibus, o caminhar até o carro/automotor, sujeitos no metrô, entre outros.

Pedalar se apresenta como um ato político, de reivindicação do espaço público como de direito aos sujeitos.

Autor
Mestranda em Antropologia pela UFF e formada em Ciências Sociais pela UERJ, estuda mobilidade urbana, movimentos sociais e gênero além de participar dos coletivos Bike Anjo Niterói, Pedal Maravilha, além de atualmente ser coordenadora do GT Gênero da União dos Ciclistas do Brasil. Acredita na importância da integração acadêmica com os movimentos sociais a fim de construir uma sociedade engajada, cidadã e participativa.

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