É verão o ano inteiro nas periferias de BH

 Fotos: Dalila Coelho

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O inverno de 2019 deixou algumas marcas diferentes em Belo Horizonte. A estação mais fria do ano foi tomada por dias de muito calor, baixa umidade e, em algumas lajes espalhadas pelas periferias da cidade, dezenas de mulheres se bronzeando todos os dias com biquínis feitos de fita isolante. A moda do biquíni de fita, que surgiu nas favelas do Rio de Janeiro, conquistou o Brasil após ser exibida no clipe de “Vai malandra”, da Anitta, e atingiu até o interior do país, onde a cultura de praia, biquíni e bronze não é nada forte.

A marquinha na régua logo virou objeto de desejo de muitas mulheres, que se reúnem em casas de bronzeamento para passar algumas horinhas ao sol sendo cuidadas por personal bronzes. Essas especialistas em bronze garantem que as clientes tenham um biquíni adesivo bem desenhado, valorizando o formato do corpo, sejam besuntadas com os produtos bronzeadores corretos para o tom de pele e cuidam para que elas exponham cada lado do corpo pelo tempo certo. Trabalhando de sol a sol e de acordo com a previsão do tempo, as personal bronzes chegam a cobrar 100 reais pelos serviços – que incluem biquínis personalizados com fitas isolantes coloridas, bronzeamento com parafina bronzeadora, esfoliação da pele e descoloração dos pelos –, e publicam diariamente no Instagram fotos dos espaços lotados, biquínis bem feitos, resultados satisfatórios e marquinhas duradouras.

Para atrair clientes durante a estação em que se é esperado menos sol e menos decotes, as empreendedoras do bronze fazem promoções e conseguem garantir movimento mesmo em dias sem sol rachando, já que os bronzeadores usados garantem a marquinha até em dias meio nublados. A fim de conhecer melhor esse trabalho, passei algumas manhãs conversando com três personal bronzes que atendem nas periferias da cidade:

Clientes da Tamara Bronze exibem as marquinhas

Para atrair clientes durante a estação em que se é esperado menos sol e menos decotes, as empreendedoras do bronze fazem promoções e conseguem garantir movimento mesmo em dias sem sol rachando, já que os bronzeadores usados garantem a marquinha até em dias meio nublados. A fim de conhecer melhor esse trabalho, passei algumas manhãs conversando com três personal bronzes que atendem nas periferias da cidade:

Bronze da Ludy

Ludylene Santos, bairro Floramar

Como surgiu a vontade de montar uma casa de bronze?

Eu amo tomar sol, mas como eu não tinha cota em clube, comecei a ir nesses espaços pra poder bronzear, e isso tem um pouco mais de um ano. Na terceira vez que eu fui me deu vontade de montar o meu espaço, já que eu não tinha nenhuma profissão na época e nenhum interesse por outra coisa. Comecei a pesquisar no próprio bronze onde fazia o curso, se era caro montar, se a pessoa morava lá… Como a região que eu moro é um pouco afastada, eu vim pro Floramar, porque aqui eu tô do lado da estação do metrô, então eu queria favorecer isso pra cliente. E o interesse veio depois que eu comecei a ir pro bronze, porque indo pra praia ou pro clube eu não conseguia ter o tom que eu desejava e nem a marquinha certa. E depois que veio essa febre do biquíni de fita isolante eu passei a ter mais interesse sobre, porque a marca fica mais certa, enfim… Depois que eu fiz, eu vi que era uma coisa legal, que não trazia mal nem nada, e aí eu pensei em fazer nas outras pessoas.

Me conta a história de como foi montar o seu espaço.

O que acontece: o gasto que eu pensei que seria um, foi outro. Eu achei que ia ser um valor baixo, aí quando eu comecei a pesquisar e fiz o curso, já era um valor mais alto do que eu esperava, mas enfim, eu consegui. Aí depois era olhar um lugar pra alugar, porque onde eu moro não tem como. Aí eu encontrei esse lugar que nós estamos e eu tive que fazer melhorias nele, tive que montar um banheiro e a sala de montagem. E nisso, quando eu fui olhar o pedreiro pra trabalhar, o valor da diária dele já era alto, e ele trabalhou dois dias e no terceiro me falou: “Se amanhã você não trouxer um servente, ou deixar com que eu traga um meu, eu não vou poder mais trabalhar sozinho”. Daí eu perguntei: “O que é que o servente vai fazer? Vai peneirar, vai fazer massa, o que é que ele vai servir?” “É, vai me dar um tijolo, pegar o tijolo quando chegar, fazer a massa, peneirar areia, me ajudar a rebocar a parede, me ajudar a pôr o telhado do cômodo…” Aí no dia seguinte eu cheguei, coloquei uma calça jeans, uma camisa velha e tênis e falei pra ele que eu seria a servente. Aí ele riu de início, mas eu perguntei o que eu poderia fazer, e aí a areia chegou e ele falou: “Tem que pôr areia pra dentro, mas você não vai aguentar com essas unhas grandes, esse cabelo bonito…” Aí eu amarrei o cabelo, cortei as unhas e comecei a colocar a areia pra dentro, depois chegou o cimento, eu ajudei a tirar de dentro do caminhão, e nisso começou. Eu peneirava pra ele, ele falava quanto que eu ia fazer a massa, fui mexendo a massa, colocando nos baldes e mandando pra ele, ajudando a cavar, ajudando na tubulação, e até ficar pronto eu fui a servente dele. Já sofri preconceito na rua por ir embora suja de cimento, no estilo de quem trabalha em obra mesmo, mas eu não me importo com isso, porque como diz o ditado, eu arregacei as mangas e fui literalmente correr atrás do meu sonho e fazer ele acontecer.

O que você acredita ser o diferencial do seu bronze?

O meu interesse maior, quando eu tive essa vontade de criar um espaço com o meu nome e atender as clientes, era justamente diversificar. Eu falei que quando eu montasse, ia ser totalmente diferente dos outros lugares que eu fui. Eu estava em um espaço que chegou uma mulher plus size que não foi atendida porque tinha os padrões maiores do que as outras clientes. Aí eu pensei que se um dia eu montasse um bronze, eu iria atender sim as pessoas de qualquer biotipo. Então eu paguei um pouco a mais pra fazer um curso que ensina a atender as pessoas fora do padrão. E eu também observei que os outros lugares não tinham mulheres negras. Daí eu pensava, “Como assim? Negra não consegue fazer marquinha?”, e a pessoa que me deu o curso falou que tem sim como ela conseguir a tão desejada marquinha. Então eu quis abrir logo o meu espaço pra atender mulheres gordas e negras pra eu mostrar que elas também poderiam fazer o mesmo bronze que as outras sem problema nenhum. E eu também aperfeiçoei pra atender trans, porque elas são rejeitadas nos outros espaços justamente por a pessoa não ter o conhecimento de como montar o biquíni nelas. Então hoje o meu público é diversificado, eu atendo tanto a patricinha da zona sul, quanto a cliente da região mais simples, e não importa de onde vêm, o que importa é que elas vão sair com a tão sonhada e desejada marquinha.

Qual é o segredo pra um bom bronze de fita?

Primeiramente, na montagem do biquíni, o banho conta muito porque ele vem com a esfoliação e prepara a pele pra receber o bronzeado e pro biquíni de fita se fixar. E claro que você tem que ter os melhores produtos do mercado pra chegar na marquinha desejada, pra chegar no tom de pele dourado sem se queimar ao sol. Porque o correto não é se queimar ao sol, é se bronzear, se acontecer de queimar é porque não teve o cuidado necessário. O produto tem que ser bom, a montagem tem que ser bonita e de acordo com o gosto da cliente, independente do biotipo, se quer um biquíni menor, maior ou até se ela prefere ficar sem. Eu faço a montagem, tenho o diferencial das cores, dos apetrechos que eu coloco de strass e pedrarias, e é isso que eu faço tanto pra foto da cliente ficar mais bonita, quanto pra elas terem esse carinho maior. Algumas clientes vêm por isso, porque os outros lugares não enfeitam, mas eu creio que nem seja tanto isso. Hoje em dia o pessoal tá trabalhando muito bem, o mercado tá aí pra todo mundo, e a cliente vem porque é perto, vem porque é acessível, vem porque eu tô em promoção, vem porque gostou mesmo do meu trabalho.

Tamara Bronze

Tamara Dias, bairro Álvaro Camargos

Como surgiu a sua vontade de abrir um bronze?

Tudo começou quando eu fui em um espaço fazer bronze e na laje tinha umas 30 mulheres lá em cima, só enquanto eu estava lá, e cada bronze era 100 reais. Aí eu pensei: “Meu deus do céu, se ela tem 30 mulheres aqui e cada bronze é 100 reais, ela ganha R$ 3 mil em um dia. Eu tenho que mexer com isso, porque eu também quero ganhar dinheiro e ficar rica!” Só que como ela era uma mulher conceituada, eu não quis fazer o curso com ela, porque essas mulheres que têm nome nunca vão te ensinar tudo que elas sabem. Aí eu procurei uma menos conhecida, fiz o curso e comecei. Eu não pago aluguel, porque aqui é nosso, então a única coisa que eu pago é água e luz, e eu trabalho de segunda a segunda. E começou assim, eu fiz o curso rapidinho e comecei a trabalhar. Assim que eu fiz o curso eu já tava montando biquíni, e aí tem quase dois anos que eu tô aqui, graças a deus, e só melhorando.

O que você acha que motivou pra surgir tanto lugar de bronze em BH?

Eu vou te falar a verdade, tudo aqui em BH vira modinha. É tanta gente que eu conheço que fica falando que é afim de montar bronze e de fazer curso, é só modinha. As pessoas, na verdade, têm a mesma mente que eu tive: você vê o status da pessoa e vê 20 clientes lá, você fica querendo também. Você pensa: “Opa, tô aqui desempregada, fazendo nada, vou caçar um trem pra fazer, vou fazer um curso e começar a trabalhar”. Eu fiz curso de tudo quanto é coisa, nunca fico sem trabalhar. É sol, chuva, caindo granizo, pode ser o que for que eu tô trabalhando. Mas as pessoas hoje em dia ficam nessa ilusão de que bronze dá muito dinheiro. Depois que começou esse tanto de mulher a fazer bronze, pra ganhar dinheiro tem que ser cabulosa. Não adianta achar que é fácil, tem que ter força de vontade também, porque tem mulher que faz curso, monta um bronze, fica um mês lá, e como ela não teve o retorno que queria, já vai e fecha. Conheço várias assim, várias.

E o que você acha que te define como uma mulher cabulosa no bronze?

É muita força de vontade. quando eu pego pra fazer um trem, se não for pra ganhar, eu nem entro. Porque eu sou chata, eu sou insuportável. Mas eu também sou doidinha, eu sou do povo e o povo gosta disso, não gosta de mulher fresca. Semana passada eu atendi mais ou menos 72 mulheres. Mas é aí que tá, isso é quando a gente tá no frio, no verão eu vou passar até de 100. Porque é muita mulher todo dia, mas não é todo mundo que anima sair de casa se tá meio frio.

O que você faz no seu biquíni pra se destacar?

No meu biquíni eu não faço nada, ele é simples demais. O que eu faço é não deixar torto igual as outras mulheres fazem, mas de resto… Eu sempre procuro valorizar o corpo de cada cliente, independente do peso, da altura, ou do físico mesmo da pessoa. Eu sempre tento olhar pro corpo e ver a melhor forma de ter um bronze destacado, de modelar o corpo da cliente. Tem mulher que fica usando a mesma medida sempre, pega uma magrinha, usa a medida na magrinha, pega uma gordinha, usa a medida na gordinha, pega uma bunduda, usa a mesma medida da magrinha, aí fica aquela bunda caída. Eu não confio nesses trem não, por isso que eu demoro mais um pouquinho, mas sai perfeito.

Atrevida Bronze

Carina Reis, bairro Novo Glória

Por que você decidiu montar uma casa de bronze?

Eu estou no ramo de bronze já tem um ano e meio, iniciei fazendo vários cursos, com a Bianca Bronze, Patricia Lobo, Tatiane Cardoso, e aí eu decidi montar, porque gostei muito de aprender com as brasileiras que são referência em bronzeamento natural e é uma área muito promissora também. Eu também ajudo as pessoas que estão iniciando, dou curso, indico bons profissionais, ajudo a deixar o espaço de acordo com os padrões da Anvisa… E sou associada no Conselho de Estética e o bronzeamento está entrando agora na área de estética corporal. E é isso, é uma área promissora, as mulheres gostam. Antigamente a sociedade tinha um pouco de discriminação em relação a mulheres de marquinha, mas hoje a própria marquinha se inovou, tem biquínis microfio, fio dental, alcinha grossa, sem alcinha, topless, tatuagem solar, meia taça, então não é mais só aquele biquíni tradicional.

Como você acha que surgiu a moda do bronze?

O bronze já existia a muito tempo, mas alguns ícones que a gente tem na história brasileira vêm evidenciando cada vez mais o bronzeamento natural. Não é que virou um desejo, já era um desejo que estava um pouco oculto e agora de fato as mulheres aderiram. Elas querem estar bronzeadas, se espelham nas mulheres que estão bronzeadas, as artistas hoje estão bronzeadas, os grandes ícones do bronzeamento natural também têm conseguido mostrar o trabalho em figuras públicas. Por exemplo, a Erika Bronze montou na Anitta e a Anitta fez um clipe e virou um estouro, assim como a Patrícia Lobo, que tá direto com a Gracyanne Barbosa, e tem outras famosas sempre mostrando… Então quando essas pessoas aderem à ideia, é como se fosse um marco, e aí pronto, todo mundo pode fazer que é legal, vai ficar bonito. E cada vez mais as mulheres têm saído lá da burguesia e vindo procurar os lugares mais simples, mas com uma puta mão de obra. Hoje a gente tem os lugares de bronzeamento, mas é pouco ainda relação ao tanto de mulher. Eu conheço muitas bronzeadoras e todos os espaços estão lotados, e com a chegada do verão não vai ter vaga em nenhum lugar. São poucos espaços pro tanto de mulher que tem. A gente vive em uma sociedade que tem mais mulher do que homem, e elas estão cada dia mais vaidosas. E tem as vantagens do bronzeamento, como a durabilidade. A pessoa põe unha, põe cílios, faz o cabelo e não dura tanto quanto o bronze. A gente tem bronze que dura seis meses, a pessoa faz três sessões e fica o ano inteiro bronzeada.

Qual é a diferença do bronze que uma pessoa pode fazer por conta própria, pro bronze que ela vai ter num espaço de bronzeamento?

Quando ela vai pra praia, não tem quem faça as coisas por ela, então ela deitou ali, alguém passa correndo e joga areia, ela já tá estressada, a maré subiu, tem que mudar de lugar… O sol, graças a deus, é pra todos, então ele traz benefícios tanto aqui quanto lá. Mas a diferença é que aqui a gente tem o atendimento que faz tudo pela pessoa, a gente vai acompanhar o processo dela deitada no sol até o momento que tiver que sair, se ela for pro banho a gente vai esfoliar o corpo dela, se ela precisa de uma água a gente vai levar, se ela quer um suco a gente leva… É um serviço que ela vem pra relaxar e sair bronzeada. E a gente usa os produtos corretos, o acelerador que vai dar aquela cor iluminada na pele, bronzeando sem deixar ressecada. Ele tem ativos que, com o sol, acontece esse processo de mudança de cor. Aí tem gente que fala “Carina, eu não pego marca nenhuma”, então nós vamos testar um produto que é pra quem não pega marquinha, e aí ela passa o produto e fala “Meu deus, eu peguei marquinha!”

Quais são os diferenciais do seu biquíni?

Eu vejo inúmeros biquínis maravilhosos, e os meus são maravilhosos tanto quanto os outros. Então eu procuro inovar, quando a cliente quer uma decoração ou um tema que tá em alta, ou quando ela precisa estar em evidência na internet, porque tem várias digitais influencers que sentem que quando vêm ao bronze elas têm mais movimentação e conseguem atingir algumas metas, e aí a gente procura caprichar também. E também os biquínis de acordo com as plus size, com as magrinhas, a gente tem sempre um bom senso, né? E eu tenho evoluído cada dia mais, tenho pesquisado muito, feito cursos… A gente acaba entendendo que na montagem de biquíni tem que ter uma noção de geometria mesmo, porque as pontas têm que se fechar, tem que ter uma altura, a gente tem que ter a noção de básico e saber inovar. Algumas gostam de baixinho na frente, altinho na frente, fininho, cortininha, largo, meia taça… É muito treino mesmo, e eu tô conseguindo chegar onde eu quero.

Confira mais fotos:

Atrevida Bronze
Atrevida Bronze
Atrevida Bronze
Atrevida Bronze
Bronze da Ludy
Bronze da Ludy
Bronze da Ludy
Tamara Bronze
Tamara Bronze
Autor
Jornalista graduada pela UFMG que gosta de brincar com fotografia analógica nas horas vagas. Nascida e criada na periferia de Belo Horizonte, Dalila voltou seu olhar para o urbano e busca registrar em imagens e palavras histórias autênticas espalhadas pela cidade.

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