Pisos guardiões de histórias

 Foto: Ivan Araújo/Casas de BH

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Mandamos e-mail, telefonamos, tocamos a campainha, batemos palmas, gritamos “ô de casa”. Depois que a campanha de financiamento coletivo dos projetos Chão Que Eu Piso e Casas de BH para a produção do livro Casa e Chão: Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte atingiu a meta, em agosto de 2016, iniciamos uma peregrinação por casas de vários bairros da cidade que, além de terem suas fachadas conservadas, poderiam também abrigar um chão guardião de histórias. Poucos nos ignoraram. Alguns abriram a janela, mas não arriscaram chegar ao portão. Muitos nos convidaram para entrar, sentar no alpendre, tomar um cafezinho. Passamos manhãs e tardes inteiras escutando causos sobre a casa, o chão, a família, as alegrias, as mazelas, os sonhos.

Tudo isso nos proporcionou revelar histórias públicas e privadas, estilos artísticos, costumes e tradições, detalhes arquitetônicos, influências culturais e várias outras características da época da construção da capital, no fim do século XIX, até os tempos atuais — um verdadeiro retrato da evolução da paisagem urbana.

Pedacinhos dessas memórias resgatadas farão parte de uma série a ser publicada no portal do GUAJA a partir de hoje. Despertar a poesia presente no concreto foi o objetivo desde o início. E nada melhor para começar do que o depoimento da Helena Ferreira, que morou em uma casa construída por seu avô, de origem espanhola, no bairro Santa Tereza, em 1927. Preservada, de influência eclética, a casinha é cheia de detalhes: das letras fundidas no portão de ferro ao ladrilho do chão da cozinha com cores alusivas à bandeira da Espanha.

Casa de arquitetura eclética, erguida nos anos 1920, em Santa Tereza. Fotos: Ivan Araújo/Casas de BH

“O chão que eu piso é o das minhas origens. Remete a vivências atuais e futuras esteadas no passado. Vínculos indissociáveis. Repleto de esperanças, o chão que eu piso construiu a história de muitos. De novas gerações em terras novas, desde 1927. Meus queridos e amados avós maternos escolheram, no bairro Santa Tereza, o chão que construiu em novas terras, a história da família materna, novas pegadas. Simples de origem. Trabalhadores por essência foram vitoriosos.

O chão que eu piso remete à uva colhida na parreira. O figo e o pêssego no pé. A folha de louro, para temperar a comida, até hoje possível. O chão que eu piso é o chão que eu aprendi a reaproveitar e reciclar os recursos da natureza. Com meus conhecimentos dizia para meu avô que ele era um ‘Lavoisier’. Atente, naquela época nem se falava em sustentabilidade e ele a praticava. Nas mãos dele os recursos ambientais se transformavam. Não eram descartáveis. Fui aprendiz privilegiada. O chão que eu piso é o do aprendizado curioso, paciente e alegre com minha tia sobre o básico da costura: pregar botão, alinhavar, fazer bainha, remendar.

O chão que eu piso fez de mim o que sou. E sou grata por todos e por tudo. O ladrilho do alpendre é lindo, como é o da cozinha, que faz referência às cores da bandeira da Espanha. Traduz as raízes dos meus avós com a terra natal. Como se estivessem a cada momento dizendo para cada um de nós: ‘Trago no meu coração o meu pedaço de chão de origem. Piso em novos chãos, mas as minhas raízes estão lá’. Também belo é o chão que forma um tapete entre a sala e a cozinha. Singelo, mas cheio de influências mediterrâneas.

Cada pedacinho da casa está repleto de memórias afetivas. Coisas simples como a mesa com gavetas da cozinha. Meu avô guardava o pão para comer dormido, no dia seguinte. Para ele evitava a azia. Na mesa pude por inúmeras vezes degustar o cozido espanhol e a bacalhoada da minha avó. Prosear com intenso prazer e curiosidade a história de vida de cada um. Com meus avós aprendi a apreciar o vinho. Não gostava de saboreá- lo com pão, prática diária no café da manhã pelo meu avô. Fatiava o pão, colocava-o em uma tigela e regava-o com o vinho. Em minhas lembranças e fantasias remetia ao filme ‘Marcelino, pão e vinho’.

Preservar a casa é manter viva minhas origens e a descendência dos meus avós. Um legado para o futuro de minha família e para aqueles que amam preservar, manter e inovar repleto de memórias.”

O depoimento de Helena Ferreira e os registros dessa casa fazem parte, além do livro Casa e Chão, da Mostra Patrimônio[S] – Belo Horizonte 120 anos, realizada pela Aliança Francesa, em cartaz no Museu Casa Kubitschek (Av. Otacílio Negrão de Lima, 4188, Pampulha), até 19 de dezembro.

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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