O ponto cego da liderança

 Foto: Owen Young via Unsplash

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Quando eu era criança e imaginei o mundo depois dos anos 2000, desenhei copos voadores e uma máquina de teletransporte. Minhas previsões não vislumbravam armas químicas, muros entre países, nem retrocesso nos direitos das mulheres. Observo, sim, um mundo se transformando rapidamente. Mas existe um grande buraco entre minha imaginação de criança e a realidade que vejo hoje.

Na abordagem da Teoria U, método para transformar sistemas desenvolvido por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), os acontecimentos que enxergamos revelam apenas a ponta de icebergs. Por baixo da superfície, existem estruturas, paradigmas de comportamento e de pensamento que sustentam o mundo que conhecemos.

Nas profundezas desses icebergs, encontramos três grandes desconexões. Quem se encontra em posição de liderar mudanças hoje precisa entender quais são elas e como atuar para transpô-las.

As três desconexões do mundo hoje

A desconexão ecológica

Para sustentar os padrões econômicos e de consumo que temos hoje enquanto população mundial, precisaríamos de 1.5 planetas. A Terra não consegue se regenerar na velocidade necessária para suprir nossos atuais hábitos de vida. Esse número revela a primeira desconexão: entre o “eu” e a natureza.

A desconexão social

Em relatório da OXFAM International publicado em 2017 tivemos contato com um número assustador: 8 pessoas ao redor do mundo detém a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade, composta por 3.6 bilhão de pessoas. A desconexão social é um enorme buraco entre o “eu” e o outro.

A desconexão espiritual

A cada ano, 800.000 pessoas cometem suicídio. Esse número é maior do que a soma de pessoas que são mortas por guerras, assassinatos e desastres naturais. Percebemos aqui a terceira desconexão: entre o “eu” e o “eu”.

Por que isso acontece? Por que nós, enquanto humanidade, criamos resultados que quase ninguém quer? Na abordagem sistêmica da Teoria U, essas três desconexões são faces de um único problema: o ponto cego da liderança.

Virando a câmera

Geralmente prestamos atenção no que fazemos (resultados) ou em como fazemos (processo). Mas não cuidamos tanto das nossas condições interiores, da fonte a partir da qual nossas ações, nossa atenção e nosso pensamento são colocados no mundo. Esse é o ponto cego identificado pelo pesquisador Otto Scharmer e iluminado pela metodologia.

O executivo Bill O’Brien resumiu essa visão em uma frase que se tornou base da proposta da Teoria U: “O sucesso de uma intervenção depende da condição interior do interventor”.

Ou seja, a qualidade dos resultados que alcançamos depende da forma como nos colocamos em uma determinada situação. É a qualidade da nossa escuta e da nossa presença que dá forma ao que vai acontecer, que define como uma conversa vai se desenvolver. Em poucas palavras: a forma segue a consciência.

Repare que existe aí uma virada de câmera: a fonte dos problemas é a mesma fonte da solução. E ela está dentro de nós. Afinal, se enxergarmos apenas causas externas criando a nossa realidade presente, como podemos nos enxergar como parte da solução? A Teoria U coloca o indivíduo como o centro da mudança. Pode parecer assustador, ou incrivelmente empoderador.

Cultivando o campo social

Por que isso é importante para quem está em posição de liderança? Se a qualidade dos resultados que alcançamos individualmente e enquanto grupos depende da nossa condição interior, esse é o principal ativo de uma organização e, portanto, deve ser o foco da atenção de qualquer líder que queira potencializar o trabalho de sua equipe.

Isso quer dizer que cabe às líderes e aos líderes cultivar o solo do campo social: os padrões de relação entre as pessoas (as profundezas do iceberg), que dão origem aos padrões de pensamento, conversa e organização que criam resultados práticos em uma empresa (a superfície do iceberg).

Essa virada de câmera muda o foco, muda as habilidades necessárias para criar impacto, muda as prioridades das organizações. A Teoria U desenha o caminho pelo qual precisamos percorrer para conseguir transitar entre os diferentes níveis de consciência e, então, criar soluções a partir de um futuro que precisa de nós para acontecer.

Se você tem vontade de ir mais fundo nesse mergulho, vem bater um papo comigo e com a Marina Galvão no próximo dia 16, às 19h30, no GUAJA. E veja como participar da nossa Comunidade de Prática da Teoria U em BH.

Autor
Me encanto por conhecer as histórias das pessoas e criar pontes para que elas se conectem a outras histórias. Criei a HÚMUS: Adubo para Pessoas na intenção de trazer nutrientes para as pessoas se conectarem mais verdadeiramente consigo mesmas, com as outras e com o mundo. Também sou uma das criadoras do Nossa Grama Verde, um convite a valorizar o que é local. O movimento preenche meu desejo de olhar com abundância para BH, cidade que me abriga. Seja em projetos próprios ou em colaboração, gosto de me sentir instrumento para a mudança individual e coletiva.

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