A professora, segundo a busca do Google

 

Receba artigos sobre comunicação semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Fiquei assustada e surpresa com uma mensagem que circulou na internet nos últimos dias. Ela mostrava a busca do Google para a palavra “professora”, com o seguinte significado:

substantivo feminino

  1. mulher que ensina ou exerce o professorado.
  2. N.E. infrm. prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual.

Como professora, me senti imensamente incomodada com essa definição. Não que eu não tivesse ciência dessa “expressão” infeliz. Mas vê-la assim, tão naturalizada, colocada diante de mim, me fez repensar as diferenças de gênero que nos fazem ser tão facilmente ridicularizadas e deslegitimadas no mercado de trabalho, mas também em nossas vidas pessoais.

Diferenças essas que ficam claras nesse pequeno incidente, retrato de um Brasil que atualmente anda para trás. Prostituta. Adolescentes. A hipersexualização de mulheres de qualquer idade é um problema múltiplo que as acomete; a prostituição vem no pacote. E a pressão contra a virgindade de adolescentes do sexo masculino por amigos e familiares é a outra face da mesma moeda. Todos sofrem as consequências das relações pautadas pelo machismo.

Em outros casos, de maneira mais ou menos explícita, um tipo parecido de desvalorização da mulher e até de violência ocorre em buscas semelhantes. Devo destacar o clássico “morto pela” e “morta pelo”; a primeira pesquisa tem como sugestões do Google termos como “polícia”, “pm”, “escola”, enquanto a segunda é completada automaticamente por “namorado”, “marido”, “ex”, “irmão” etc. A violência contra a mulher está ao nosso lado, sob nossos narizes.

O machismo de cada dia mata, invisibiliza e reproduz preconceitos contra os quais não deveríamos mais ter que lutar. Tratando-se de gênero, aqueles que não se encaixam na separação binária são provavelmente os que mais sofrem e tem seus direitos negados. Há um claro recorte de raça e classe social nessa história também. Isso não impede a ainda necessária discussão trazida pelo feminismo.

Quero introduzir a noção de “feminismo intuitivo”, o feminismo com que me protejo e que possibilita fazer oposição ao machismo que vivencio, na condição privilegiada de mulher branca de classe média. Nada mais é do que uma luta individual a partir da resistência cotidiana a ações de desrespeito e a uma esperada submissão, como interrupções na fala, comumente praticadas por homens. Algo que aprendi por experiência própria, dia após dia.

Não há regras claras, é um feminismo que pouco tem de radical ou extremista, é processo e pode se transformar de acordo com a situação. Não depilar, mas quando quiser pode, não importar tanto com a aparência, mas quando preciso sim, mas sempre se munir de autocuidado para resistir aos frequentes ataques. Essa forma de agir tem paralelos com outros movimentos: sou adepta também do antirracismo intuitivo, da sustentabilidade intuitiva, acredito no veganismo intuitivo etc.

Tem algo de bonito nisso tudo. Os movimentos populares e estilos de vida podem surgir de uma força mais feminina, menos masculina. Meu feminismo intuitivo permite diferenciar isso, poxa, somos diferentes mesmo, homem e mulher, então se eu quiser acreditar, pela minha experiência pessoal, que a intuição se distingue de uma razão científica e dar a isso um teor feminino e masculino, eu posso. Isso permite pensar qual cotidiano quero ter, como uma nova sociedade poderia ser fundada, com novos valores e formas de organização.

Voltando à professora, aparentemente o Google foi bastante denunciado e tirou o segundo significado da palavra. Menos mal; sai do olhar mas não da memória. Luta que segue, por menor que seja, por mais cirúrgica que pareça, até o dia em que possamos não apenas resistir, mas simplesmente existir.

Autor
É mestre em arquitetura e urbanismo pela UFMG e reside em Ouro Preto, atuando como professora na UFOP. Interessa-se por temas transversais e pelas diversas formas de linguagem que nos rodeiam: desenho, escrita, fotografia, design gráfico. Sua visão crítica da condição urbana e humana na contemporaneidade não cai no pessimismo, mas busca uma reflexão cotidiana acerca da realidade social.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express