Publicação independente como um caminho possível

 Foto: Alpaca Press

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Em junho do ano passado publiquei minha primeira zine de poemas, que foi, na verdade, minha primeira publicação da vida. Sempre sonhei em ser escritora e poder devolver aos outros a sensação de acolhimento que os livros me proporcionaram na infância, mas sem saber direito o quê escreveria. Com certeza não imaginava que minha primeira publicação seria uma zine de poesia, não só porque não imaginava me tornar poeta, mas também porque não conhecia o que era a publicação independente, principalmente a de zines.

Zine é um livreto desenvolvido no esquema de DIY (do it yourself, faça você mesmo ou: dê seus pulo!) e que costuma ter preços bastante acessíveis. Toda zine é uma publicação independente porque não depende do investimento de uma editora para existir, somente a criatividade, tempo e algum dinheiro da pessoa que vai desenvolvê-la. Isso significa que podem abordar assuntos e aspectos controversos, por exemplo, já que não dependem da “aprovação” de ninguém.

A minha zine, Luminária, foi lançada pela editora independente que ajudo a construir desde 2015, a Alpaca Press. A editora publica e divulga o trabalho de mulheres autoras e artistas e, a convite de uma das editoras e minha amiga, reuni todo o meu material de poesia e quebrei a cabeça até sair a Luminária, num processo pessoal envolvendo questões relacionadas ao florescer de uma mulheridade heterossexual e jovem. Em tempos de Rupi Kaur e outras autoras que tratam de temas como o feminismo e cura, sabia que o que tinha para dizer deveria ser lido por alguém, mas entendia que minha escrita não seria considerada “pronta” para uma grande editora. Sabia, também, que queria que minha estreia na publicação fosse muito acessível e livre de interferências que pudessem desestruturar meu recém-nascido processo criativo.

A publicação independente com o apoio de amigas e colegas queridas em quem confio no trabalho e nos ideais – subversivas, resistentes e apoiadoras – foi uma estreia excelente para mim. A zine foi lançada na Faísca Mercado Gráfico de junho de 2017 e, no dia anterior, estava muito nervosa fazendo as unhas com muito cuidado, preocupada com a ideia de ser vista como autora, abismada com o fato de que alguém iria pagar R$10 para ler o que escrevo e levar para casa um objeto fruto do trabalho de mulheres artistas. Várias pessoas queridas foram à feira comprar a zine e nos parabenizar por estar colocando no mundo algo que fiz e que significava muito, tanto no que tinha para dizer no conteúdo dos poemas, quanto no significado político de distribuir mais uma publicação feita de maneira independente por mulheres, como todas os outros lançamentos da Alpaca.

A publicação independente é um caminho possível para a escrita e para a arte visual. Pode ser menos glamourosa e mais trabalhosa (desenvolver o conteúdo, revisar, planejar a impressão, diagramar, encadernar, divulgar e distribuir não é fácil), mas é algo seu, um terreno livre para experimentar, ousar e colocar num objeto tudo o que você gostaria de ver circulando por aí, sejam seus ideais políticos, fotografias, uma receita de bolo muito incrível, poemas de amor e ódio ou mesmo aquele assunto sobre o qual só você entende e não tem com quem conversar.

Não há regras e é essa a parte divertida. Para mim, esse passe livre significava que meus poemas não seriam vistos de um lugar de avaliação externa que, naquele momento, poderia interromper minha vontade de me colocar como escritora publicamente. Neste ponto entra um sentimento necessário para autopublicar-se e que torna toda essa jornada ainda mais interessante e libertadora: a coragem.

Oras, é necessário ter coragem para submeter seu trabalho à avaliação de uma grande editora ou a um concurso de publicações, por exemplo. Mas a coragem de publicar-se sozinho (ou quase, no caso de uma editora independente como a Alpaca Press) requer acreditar de verdade que o que você tem a dizer deve circular por aí, sem que alguém te dê validação. Requer uma vontade muito grande de ver o seu nome num papel, indo para a casa dos outros, pedir dinheiro em troca (ou não, você pode distribuir a sua zine gratuitamente se quiser ou fazer escambo!), defender o seu trabalho e dizer porque se importa tanto com ele a ponto de fazê-lo sair do campo das ideias e tornar-se um objeto, mesmo que não seja aquele idealizado por anos.

Meu objetivo aqui não é diminuir quem escolhe o caminho da publicação por editora, mas sim dizer com a segurança de uma autora de zine de 24 anos sem muito dinheiro no banco e sonhos demais na cabeça: se você acredita no que produz ou mesmo quer começar a acreditar, autopublicar-se em zine é um caminho incrível, possível para todos e, no mínimo, divertido. Eu garanto!

Autor
Jornalista, escritora e estudante de Relações Públicas que nasceu numa noite de tempestade em Itabira (MG). Gosto de desbravar a mim mesma e as palavras, muitas vezes ao mesmo tempo.

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